Salvem o Cinema! - Parte 2

Paissadu nos anos 60. Foto "roubada" do Balaio Porreta 1986.
Matéria de Eduardo Fradkin no Globo, dia 24 de agosto:
Daqui a uma semana, o Rio perderá um templo do cinema de arte. O Estação Paissandu, no Flamengo, exibirá sua última sessão no próximo domingo, conforme noticiou ontem a coluna Gente Boa. A programação de encerramento se iniciará na sexta-feira e terá filmes marcantes de seus 48 anos de existência. Os títulos ainda estão sendo escolhidos pelo Grupo Estação, que administra a sala, mas já se sabe que as sessões serão das 10h às 22h, com ingressos a R$ 1. Baluarte da contracultura durante o regime militar, o cinema formou, nos anos 1960, a Geração Paissandu, rótulo que agrupava jovens cinéfilos e intelectuais de esquerda incapazes de perder os longas de Jean-Luc Godard, Louis Malle, Michelangelo Antonioni, François Truffaut e outros cineastas autorais.Diretora de exibição do Grupo Estação, Isabela Santiago conta que, desde 2005, se tenta salvar o cinema da extinção:
- Foi há três anos que o proprietário do imóvel o pediu de volta, o que é um direito dele. Mas, como não queríamos fechar um cinema que tem um imenso valor histórico, negociamos com ele para conseguirmos tempo e encontrarmos um patrocinador interessado em manter o Paissandu. Cinema de rua com uma única sala não é economicamente viável hoje em dia, daí a necessidade de patrocínio.
Última reforma foi em janeiro e custou R$ 100 mil
Foram elaboradas duas propostas. Uma era dividir o cinema em duas salas, o que exigiria uma reforma cara, mas diminuiria o custo de manutenção a longo prazo, pois o faturamento aumentaria. A outra era deixar tudo como está e usar a verba para pagar as contas do cine e para restauros ocasionais. Nenhuma empresa fechou acordo.
- O que temos hoje é uma sala muito grande e um público muito pequeno, restrito às imediações. Os cinemas, com o tempo, diminuíram o tamanho de suas salas e passaram a ter muitas delas num só endereço, possibilitando a exibição de vários filmes. Além do Paissandu, possuímos apenas um cinema de rua com uma sala, o Odeon, que tem patrocínio da Petrobras e só assim se mantém. Já os outros, como o Estação Botafogo, não correm risco porque são complexos com mais de uma sala - explica Isabela.
Em janeiro deste ano, uma reforma de R$ 100 mil foi feita no Paissandu para melhorar os banheiros, trocar o carpete e instalar novas poltronas. Até então, havia esperanças de surgir um patrocinador. O Grupo Estação assumiu a direção da sala em 1990, num período de decadência em que até filme pornô entrava em cartaz.
Quando foi inaugurado, em dezembro de 1960, com a comédia italiana "Somos homens ou...", o cine não era voltado para o público que o celebrizou. A mudança de perfil ocorreu em 1964, quando a empresa Franco-Brasileira, que geria a sala, assinou um contrato com a Cinemateca do MAM e começou a passar filmes de Ingmar Bergman e outros nomes cultuados.
- Eu me aproximava do Paissandu meio atemorizado, porque naquela geração eram todos oniscientes. Eu participava timidamente das discussões que se seguiam às sessões porque, se você falasse mal de certos filmes, acabava a sua vida social, acabavam as suas chances de namorar. Com o fechamento do Paissandu, encerra-se uma época em que o cinema era discutido, não era um mero brinquedo, mas um veículo para a revolução - teoriza o cineasta José Joffily.
O Grupo Estação alega não saber o que acontecerá ao imóvel. O proprietário não foi encontrado pelo Globo até o fechamento desta edição.
Na edição de hoje, o mesmo repórter encontrou o dono do imóvel, que reclamou do descaso do Grupo Estação com o Paissandu e que garantiu: o fechamento é temporário e o cinema voltará.
A queixa procede: o Paissandu se transformou em cemitério dos filmes do circuitinho (última parada antes de saírem de cartaz, quando já foram vistos em Botafogo), passou anos sem reforma e acabou excluído do Festival do Rio 2007 - mesmo sem ar-condicionado, tela encardida, poltronas furadas, o cinema lotava em todas as sessões.
Em todo caso, segue a petição contra o fim do Paissandu. Sala histórica, que formou platéias de cinéfilos e de cineastas na década de 60.
Sem contar que se trata do terceira maior sala do RJ, com mais de 400 lugares, tela curva como as do Odeon e do Palácio, e o indescritível cheiro de cinema antigo, mistura de carpete mofado com pipoca vagabunda (e outros odores menos cotados). Prazeres que a geração multiplex nunca senitrá!
Como bota-fora de despedida, o Paissandu exibe 17 clássicos durante o fim-de-semana, a R$ 1,00. Aviso: a maioria dos filmes passará no formato errado, uma vez que o cinema não possui janela 1.37:1 (idem para 1.85:1, aliás).
Sexta-Feira – 29/08
12h – FANNY E ALEXANDER (Fanny och Alexander) Ingmar Bergman – 188 min – Estação
15h20 – ASCENSOR PARA O CADAFALSO (Ascenseur Pour L'Echafaud) Louis Malle – 90 min – Estação
17h15 – O JOELHO DE CLAIRE (Le Genou de Claire) Eric Rohmer – 105 min – Estação
19h15 – O ATALANTE (L'Atalante) Jean Vigo – 95 min – Estação
21h15 – DESPREZO (Le Mépris) Jean Luc Godard – 103 min – Estação
23h15 – NOITES DE CABÍRIA (Le Notti di Cabiria) Federico Fellini – 110 min – Estação
Sábado – 30/08
12h – PARADE (Parade) Jacques Tati – 86 min – Estação
14h – UM HOMEM, UMA MULHER, UMA NOITE (Clair de Femme) Costa Gravas – 105 min – Cinemateca do MAM
16h – ATIREM NO PIANISTA (Tirez Sur Le Pianiste) François Truffaut – 92 min – Estação
18h – MEDÉIA (Medea) Píer Paolo Pasolini – 118 min – Cinemateca do MAM
20h15 – A GRANDE ILUSÂO (La Grande Illusion) Jean Renoir – 117 min – Estação
22h30 – PAISSANDU SURPRESA
Domingo – 31/08
12h – UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA (A Woman Under The Influence) John Cassavetes – 155 min – Estação
14h45 – CASABLANCA (Casablanca) Michael Curtiz – 102 min – Cinemateca do MAM
16h45 – A BELA DA TARDE ( Belle de Jour) Luis Buñuel – 101 min – Cinemateca do MAM
18h45 - O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (Ultimo Tango a Parigi) Bernardo Bertolucci - 136min – Cinemateca do MAM
21h15 – TRINTA ANOS ESTA NOITE (Feu Follet) Louis Malle – 110 min – Estação





