março 31, 2008

Aeroporto!


Playtime, 1967, de Jacques Tati.

Meu novo quarto
virado para o nascente:
meu quarto, de novo a cavaleiro da entrada da barra.

Depois de dez anos de pátio
volto a tomar conhecimento da aurora.
Volto a banhar meus olhos no mênstruo incruento das madrugadas.

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.

Hei de aprender com ele
a partir de uma vez
- sem medo,
sem remorso,
sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
- esse sol da demência
vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
o de que preciso
é da lua nova.

Lua Nova, de Manuel Bandeira.


Quarta-feira, viajo para a semana mais importante da minha vida! O blogue entrará em recesso. Na volta, muitas novidades!

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março 30, 2008

Papagaio-De-Vintém

papagaiodevintem.jpg
A camisa asa negra do Mengão.

O Flamengo foi fundado em 17 de novembro de 1895 (data antecipada para 15 de novembro, a fim de coincidir com o feriado da República), exclusivamente como clube de regatas. Seu primeiro uniforme era ouro e azul - apenas a falta dos tecidos obrigou os sócios a adotarem o vermelho e preto, abundante na cidade.

Oscar Cox trouxe o futebol para o Rio de Janeiro e, em 1902, criou o Fluminense Football Club. Outros clubes dedicados ao esporte bretão surgiram no encalço: Botafogo (havia também outro Botafogo, de regatas), América, Bangu, todos de 1904. Flamengo e Vasco, no entanto, mantiveram-se fiéis ao remo.

Era prática comum, naquele início de século XX, Flamengo e Fluminense dividirem esportistas entre si. No Flamengo, disputavam regatas; no Fluminense, praticavam futebol. A cisão permaneceu até 1911, quando atletas tricolores, insatisfeitos, fundaram o departamento de futebol rubro-negro.

Outros tempos, porém: os remadores não permitiram que os boleiros usassem o uniforme oficial, de listras horizontais em vermelho e preto. Assim, inventaram a camisa composta de quatro quadrantes alternados nas cores do clube, que ficou pejorativamente conhecida como "papagaio-de-vintém", uma vez que o Flamengo não ganhou partida alguma enquanto a vestia - acabou substituída pela cobra-coral, com listras brancas intercaladas entre as rubro-negras.

Em 1995, nas comemorações do seu centenário, o Flamengo decidiu ressuscitar a "papagaio-de-vintém". Resultado: novamente, apenas derrotas.

Agora, enquanto o clube e a Nike vivem sob fogo cerrado, cada parte acusando a outra de qubra de contrato, eis que a amaldiçoada camisa reaparece! Homenagem ao remo, terceiro uniforme, nova fonte de arrecadação e outras desculpas esfarrapadas da diretoria, que não percebe o óbvio ululante:

A papagaio-de-vintém é muito azarada! Párem de usá-la de vez! Ontem, para confirmar o retrospecto negativo de NENHUMA vitória com camisa, o Flamengo empatou em 0 a 0 com o Madureira!

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março 29, 2008

Beijar-Te a Mão


Sherlock Jr., 1924, de Buster Keaton.

O excelente site I Screen Studies me fez lembrar do belíssimo final de Sherlock Jr, de Buster Keaton, certamente entre os mais românticos e, ao mesmo tempo, maliciosos que o cinema registrou.

Buster Keaton interpreta projecionista que estuda para ser detetive profissional. Ele, no entanto, é falsamente acusado pelo rival de roubar as jóias que pertencem ao pai da mocinha (pela qual está apaixonado, claro). Ao perceber a confusão e o erro, a heroína vai se desculpar e, como Keaton não sabe como agir - pois nunca esteve com uma mulher antes - recorre ao filme que passa na tela.

Filme dentro do filme, que Keaton articula através do plano ponto-de-vista: olhar do projecionista que se transforma no do próprio espectador que assiste ao espetáculo no cinema. Interação entre as platéias diegética e não-diegética (ou seja, nós), somada às quebras radicais de eixo - 180o., em que o herói olha direta e frontalmente para a câmera.

Buster Keaton (em 1924!) brinca e faz rir com os preceitos da direção invisível. A seqüência final de Sherlock Jr. é pura metalinguagem: o projecionista repete as ações que vê na tela, o corpo se submete ao olho. Ironia à própria arte da míimica e da pantomima, da qual Keaton foi o maior mestre? Ou crítica às teorias que enxergam o cinema como mero escapismo, como a arte que hipnotiza as massas?

O projecionista reproduz o que vê. Segura a amada, beija-lhe a mão, dá-lhe um selinho, coloca-lhe a aliança, sempre de acordo com o filme dentro do filme. No entanto, Keaton explora o descompasso de tempos para o golpe cômico definitivo: na tela, a elipse introduz o salto temporal para o futuro, mostrando os amantes agora casados e com filhos. No espaço do fade-out, o sexo que se omite do público. O herói, claro, por viver em realidade contínua, não pode concretizar a "sugestão" do cinema.

Resta-lhe apenas coçar a cabeça frente à malícia da sétima arte!

Meu amor, quero beijar sua mão, como no filme. Completamente apaixonado. E fazer a parte do fade-out também, com os filhinhos e tudo no final!

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março 28, 2008

Nareba

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Sarkozy, baixote de peito estufado: o próprio Galo da França!

Carla Bruni derrubou a popularidade de Nicolas Sarkozy - estranha República francesa, que prefere os "cidadãos" às mulheres e ao amor! O Champs Elysées também se viu em polvorosa com a foto nua da primeira-dama que foi à leilão pouco antes da visita ao Reino Unido.

A Sra. Sarkozy já declarou que não acredita no casamento e na monogamia, possui algumas centenas de imagens eróticas espalhadas pela internet e em breve comecará a divulgação de seu novo álbum. Nada, a princípio, que se adeque às funções e aos protocolos de Estado.

Pela foto (que roubei do globo.com), no entanto, Carla Bruni está se saindo bem. Melhor que Sarkozy, cujo nariz pornográfico avança sexualmente em direção à esposa.

Será o nariz comprido assim para fazer sombra ao... Enfim. Sarkozy tem algum charme desconhecido por nós, que Bruni viu e gostou?

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março 27, 2008

Vida Nova


A Primeira Noite de Um Homem, 1967, de Mike Nichols.

A noiva não estará se casando com outro. Mas o resto poderá ser verdade.

PS: O filme está na janela errada. Vê como os objetos estão mais esticados, meu amor? Deveria ser scope!

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março 26, 2008

Our Love Is Here to Stay

klimtsexo.jpg
Desenho de Gustav Klimt.



Our Love Is Here to Stay - Ella Fitzgerald.

It's very clear, our love is here to stay
Not for a year but ever and a day
The radio and the telephone and the movies that we know
May just be passing fancies and in time may go

But oh, my dear, our love is here to stay
Together we're going a long, long way
In time the Rockies may crumble, Gibraltar may tumble
They're only made of clay
But our love is here to stay

In time the Rockies may crumble, Gibraltar may tumble
They're only made of clay
But our love is here to stay

Música de George Gershwin, letra de Ira Gershwin.

Só escolhi a imagem. Meu amor enviou a música!

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março 25, 2008

Galo Centenário

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Atlético-MG: Galo forte e vingador!

A grandeza de um clube se mede pelos seus adversários. Na década de 80, a única equipe que pôde enfrentar o Flamengo de Zico (e companhia) foi o Atlético-MG, que hoje completa 100 anos de vida.

Final do Campeonato Brasileiro de 1980. Mais de 154 mil rubro-negros no Maracanã. A vitória dava o primeiro título ao Flamengo. O empate, o bi-campeonato ao Atlético-MG - que havia, injustamente, perdido para o São Paulo, três anos antes, terminando invicto a competicção.

De um lado, Zico, Júnior, Leandro, Adílio, Andrade, Paulo César Carpeggiani, Tita, Nunes. Do outro, João Leite, Éder, Toninho Cerezo, Luisinho, Reinaldo. Os melhores times do futebol brasileiro se enfrentavam. A decisão mais emocionante da História.


Flamengo Paixão, de David Neves.

O Flamengo esteve por duas vezes na frente do placar, mas o Atlético-MG buscou o empate com Reinaldo, já machucado e manco. Próximo do fim, Nunes arrancou pela esquerda da grade área e, sabe-se como, descobriu o canto do goleiro João Leite. 3 a 2 Flamengo, primeiro dos cinco títulos nacionais.

No ano seguinte, Flamengo e Atlético-MG voltaram a se encarar pela Libertadores da América. Empatados na liderança do grupo, realizaram jogo extra no Serra Dourado, em que josé Roberto Wright expulsou quatro jogadores do Galo e terminou a partida. Outra vitória rubro-negra.

Em 1987, na semi-final da Copa União, Renato Gaúcho partiu do meio-campo, driblou João Leite e garantiu mais um 3 a 2 para o Flamengo sobre o rival. O quarto título brasileiro viria com a vitória de 1 a 0 no Inter-RS.

Embora sem conquistar o título nacional, o Galo foi o único desafiante da hegemonia rubro-negra ao longo dos anos 80. Foi o primeiro campeão brasileiro, em 1981, e ainda vice em 1977 e em 1999. Possui a maior quantidade de títulos mineiros, incluindo o hexacampeonato entre 1978 e 1983 (mais longa seqüência no futebol profissional do estado, apenas superado pelo decacampeonato de América-MG na década de 20).

Parabéns ao Atlético-MG!

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Bom Dia, Princesa!


Cinema Paradiso, 1988, de Giuseppe Tornatore.

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março 24, 2008

A Filosofia do Trator

Já expliquei para vocês no que consiste a "filosofia do trator"?

Não está nos livros. Platão, Aristóteles, Kant, Descartes, Hegel, Rosseau, Nietszche, Heidegger, Foucault, Deleuze e tantos outros não a escreveram.

Não se trata de sistema organizado de idéias, de conceitos vazios emperfumados na própria soberba, de palavras afetadas que servem apenas para enganar sobre os verdadeiros significados.

A filosofia do trator: passar por tudo que se coloque no caminho para pegar o que é meu.

Durante muito tempo vaguei sem destino, mas agora sei o que quero. Quem quero.

Ela é minha vida. Sou todo seu, meu amor. Para sempre!

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Mês Mais Importante do Ano!


As Estações - Maio, de Pyotr Ilitch Tchaikovsky.

Now the bright morning Star, Day's harbinger,
Comes dancing from the East, and leads with her
The Flowery May, who from her green lap throws
The yellow Cowslip, and the pale Primrose.
Hail bounteous May that dost inspire
Mirth and youth, and warm desire,
Woods and Groves, are of thy dressing,
Hill and Dale, doth boast thy blessing.
Thus we salute thee with our early Song,
And welcome thee, and wish thee long.

On May Morning, de John Milton.

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Para Quando Acordar

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Adoro Snoopy, então deixo que ele fale por mim, meu amor.

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março 23, 2008

Eros e Psique

canovacp2.jpg
Eros e Psique, de Antonio Canova.

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Eros e Psique, de Fernando Pessoa.

Psique, a única humana, na mitologia grega, a tornar-se Deusa - pois enfrentou os desafios impostos por Afrodite para se reunir ao amado, Eros.

Agora, troquem Psique por (nome da minha MUSA).

O mito de Eros (Amor) e Psique (Alma) está na wikipedia.

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março 22, 2008

I'm Not There


Não Estou Lá, 2007, de Todd Haynes.

Do globo.com:

O lendário músico americano Bob Dylan deu um passeio de bicicleta disfarçado de mulher pelo balneário uruguaio de Punta del Este, onde encerrou na noite de quinta-feira (20) sua turnê pela América Latina, "Never ending tour".

"Ele aproveitou o clima bom e a tranqüilidade do balneário (140 km de Montevidéu) e saiu para dar um passeio de bicicleta, disfarçado de mulher para evitar a perseguição de fanáticos e da imprensa", informou o setor de relações públicas do Hotel Conrad.

O cantor já saiu para passeios parecidos, como no início da turnê, quando praticou boxe em um famoso ginásio da Cidade do México, onde conviveu com pugilistas, alunos e funcionários do local, sem que ninguém o reconhecesse. Para isso, ele não teve necessidade de modificar completamente sua imagem.

Após as pedaladas na costa atlântica, Dylan pediu, em seu camarim, alimentos orgânicos para o camarim.

Ou seja, Bob Dylan se vestiu de Cate Blanchett no Uruguai!

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março 21, 2008

Amor

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Trois Bougies, de Marc Chagall.


Minha mulher!


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La Mariée, de Marc Chagall.


Casa comigo?

Imediatamente e para sempre!

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Gymnopedies

Patrice Contamine, ou J.P. Contamine de Latour, escreveu, no final dos anos 1880, o poema Les Antiques, que continha os seguintes versos:

Versão francesa:

Oblique et coupant l'ombre un torrent éclatant
Ruisselait en flots d'or sur la dalle polie
Où les atomes d'ambre au feu se miroitant
Mêlaient leur sarabande à la gymnopédie

Versão inglesa:

Slanting and shadow-cutting a flickering eddy
Trickled in gusts of gold to the shiny flagstone
Where the ambre atoms in the fire mirroring themselves
Mingled their sarabande to the gymnopaedia

Em 1888, Erik Satie compôs as três Gymnopedies para o piano. Não se sabe, contudo, se os versos foram escritos antes ou depois da música. Homenagem de Contamine a Satie? Satie baseando-se em Contamine? Ou criação conjunta, no efervescente fin-du-siécle de Paris?

Coloco todas as Gymnopedies abaixo, porque são as músicas clássicas (que conheço, mas vou aprender sobre as outras em breve!) mais importantes para aquela a quem dedico meu coração, meu amor e minha vida.


Gymnopedie no.1, de Erik Satie.


Gymnopedie no.2, de Erik Satie.


Gymnopedie no.3, de Erik Satie.

A Gymnopedie no.1 foi bastante usada por Louis Malle, tanto em Trinta Anos Esta Noite, quanto em Meu Jantar com André. Mas, no cinema, o melhor filme com a música de Satie, sem dúvida, é o nosso Limite (1931), de Mário Peixoto, com a Gymnopedie no.3, orquestrada por Claude Debussy em 1896.


Gymnopedie no.3 em Limite, de Mário Peixoto.

O texto que escrevi sobre Limite para a Sessão Cineclube, que já não mais existe:

À visão da capa da revista Vu, na qual a face feminina, de frente, olhos abertos e fixos, tem em primeiro plano mãos masculinas algemadas, Mário Peixoto associa outra, "um mar de fogo, uma tábua, uma mulher agarrada". Escrito em apenas uma noite e influenciado pela grave e dolorosa discussão do cineasta com o pai, o scenario de Limite se desenvolve a partir desta "proto-imagem", como a classifica Saulo Pereira de Mello – responsável, com Plínio Süssekind Rocha, por sua restauração –, não-narrativa e fora da diegese do filme, na medida em que todos os demais planos são metamorfoses dela. Alegoria do tema que perpassa Limite, a imagem protéica articula os olhos da mulher (Olga Breno), as mãos algemadas e o mar de fogo para mostrar o desespero e a angústia humana diante da descoberta de sua limitação, bem como a impotência e perplexidade do homem quando confrontado à infinitude da natureza.

Assim, Mário Peixoto estabelece em Limite a dialética entre os olhos e o mar: o dentro e o fora, o eu e o mundo, o aqui e o ali. Os olhos, que observam para além do enquadramento, em direção à câmera de Edgar Brazil, representam a alma que ainda se crê ilimitada. O mar de fogo – reflexos da luz do sol sobre a massa de água, cuja beleza cintilante é também alcançada por Jean-Luc Godard em Je Vous Salue Marie (1984) – aponta para a natureza infinita, para o indiferenciado do universo, amorfo e imenso. Entre os olhos e o mar, encontram-se as algemas, símbolo da limitação que, em conjunto com o plano inicial dos abutres na paisagem desolada (a morte, a decadência), expressam a tragédia daqueles três náufragos à deriva em pleno oceano, por fim engolidos pela tempestade que encerra o filme.

Três personagens, duas mulheres (Olga Breno e Taciana Reis) e um homem (Raul Schnoor) que relembram os acontecimentos que os levaram ao barco perdido na imensidão do mar. Inconformidade, desespero, fuga: Taciana Reis abandona o casamento opressor, o marido bêbado e pianista fracassado; Olga Breno escapa da prisão, com ajuda do carcereiro, para se ver novamente enjaulada pelo trabalho monótono à máquina de costura; Raul Schnoor envolve-se com mulher casada e leprosa e, frente à possibilidade da castração, cai ao solo, aflito, enquanto a câmera descreve lenta panorâmica pelo meridiano celeste sem fim, pelo arco do mundo. De forma que os planos de Limite, em geral longos (impressão reforçada pelas demoradas fusões e pelos acordes cheios da Gymnopédie no.3, de Erik Satie), de enquadramentos precisos e asfixiantemente belos, reiteram as diversas prisões pelas quais os personagens atravessam, multiplicando, pela paisagem de Mangaratiba, signos limítrofes análogos em forma: as bordas dos barcos, as cercas, as grades do presídio e do cemitério, as cruzes, as estradas intermináveis, o mar, o horizonte. Cárceres dentro de cárceres, exasperantes – pois mesmo o infinito se revela outro limite –, dos quais não há escapatória, a despeito das constantes fugas.

A paisagem de Mangaratiba, fundamental em Limite, complexifica as representações do amorfo anteriormente configuradas no mar de fogo. Tragédia, morte, e Brasil: o brejo, o lodo, a praia, a mata, as árvores retorcidas, as ruínas de vegetação pendente, os muros manchados, as fachadas, as janelas, as portas, a estrada, o cemitério, as pessoas no cinema, as pessoas que passam, tudo é Brasil. Filme de poesia, Limite constrói o espaço com extremo realismo, mas a fim de ultrapassá-lo, até mesmo nas citações ao contexto local, absolutamente corretas – o presídio de Ilha Grande, vislumbrado nas grades que aprisionam Olga Breno, ou o leprosário de Mangaratiba, cujo índice está presente na mulher "morphética" com que Raul Schnoor se envolve.

Como o ambiente, as figuram humanas se caracterizam igualmente pela verossimilhança, seja na falta de maquiagem ou nos cabelos dos atores desgrenhados pelo vento (vento que anuncia a chegada da tempestade, da destruição), seja nas interpretações contidas, sóbrias, tensas, pois Mário Peixoto, seguindo Griffith, acredita na significação máxima dos menores gestos, na expressividade que se cristaliza sobretudo nos olhos e na face. Porém, ao contrário dos melodramas griffithianos, não há aprofundamentos psicológicos nos personagens de Limite, já que eles representam a Humanidade – prostrada diante da inutilidade de qualquer ação contra os desmandos da natureza – antes de tipos específicos. E se no cinema de Griffith a montagem concatena as imagens em relações transparentes de causa e efeito para mover a narrativa à frente, no filme de Mário Peixoto ela se torna mais um meio para exprimir o tema central (a angústia do homem esmagado pelo universo), através da associação morfológica, musical e poética entre os planos.

Fala-se, devido à ruptura de Mário Peixoto com o cinema clássico-narrativo (do qual Humberto Mauro poderia ser considerado o principal cineasta brasileiro da época), sobre o alinhamento de Limite com as vanguardas européias. Contudo, enquanto os projetos vanguardistas exaltam a vida moderna, urbana e industrial (como demonstrado em L’Inhumaine, de Marcel L’Herbier, feito em 1924) – no culto à máquina, à energia, à velocidade, ao automatismo – contraposta à destruição do passado, ou seja, dos valores sociais, morais e espirituais arcaicos herdados do século XIX, Limite opera a identificação de elementos próprios à modernidade com formas de cerceamento que afetam os personagens: a máquina de costura, assim como todos os objetos a ela ligados (destacados em planos detalhes), que oprimem Olga Breno, ou o cinema miserável, onde o marido de Taciana Reis toca piano.

No final perdido de Limite, em que um relógio sem mostrador afunda no mar – antecipando-se a Morangos Silvestres (1957), de Ingmar Bergman, e a Agonia e Glória (1980), de Samuel Füller –, a intenção do cineasta torna-se clara: dizer que o Tempo não passa de mera invenção humana, que o desespero do homem se faz inútil, posto que a natureza, por ser infinita, é também atemporal, pouco se importando com a impotência que suscita em seres tão ínfimos. Dessa forma, Limite, mesmo que utilize técnicas de montagem características, por exemplo, ao cinema soviético – e há semelhanças formais entre o filme de Mário Peixoto e Terra (1930), de Aleksandr Dozhvenko –, significa a anti-vanguarda, uma vez que sugere não o rompimento definitivo entre o homem e a natureza, mas sim a reaproximação entre ambos (como indica o plano em que Olga Breno, agarrada à tábua após a tempestade, desaparece em meio ao mar cintilante), a aceitação humana de seu papel dentro da ordem universal.

Em Limite, portanto, o homem é responsável por suas próprias algemas, visto que, a fim de suportar o fardo de que o mundo existe independente dele, cria o Tempo, que se revela através das memórias dos personagens à deriva na imensidão inescapável, tanto do mar quanto do horizonte.

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março 19, 2008

Rayuela

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Os Amantes Sentados, de Egon Schiele.

De O Jogo da Amarelinha, de Júlio Cortázar:

"Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano por tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.

Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua."

Ela é uma força da natureza. Toda minha!

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março 18, 2008

Capixabas no MAM

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Hilal Sami Hilal no Museu de Arte Moderna.

De 19 de março (amanhã) a 18 de abril, o artista plástico capixaba Hilal Sami Hilal estará em exposição no MAM carioca.

As obras tratam de evocações familiares (do pai, morto quando o artista contava 12 anos), nostalgia, afetos, delicadeza. Ou seja, tudo que aprecio. Mas confesso que o descobrirei, pois nunca tive a oportunidade de vê-lo antes.

Para minha sorte, serei guiado pelo mais belo, doce, gentil, amoroso, contagiante e feliz sorriso do mundo! Para quem busquei o poema "Teu Riso", de Pablo Neruda:

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Não páre de me sorrir. E de me guiar. Nunca!

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Nota de Rodapé

Anthony Minghella faleceu aos 54 anos. Surpreendente. Fiquei chocado ao descobrir pelo IMDB.

Gosto de O Paciente Inglês, detesto os outros filmes do cineasta.

Chamar o post de "nota de rodapé" soa depreciativo, é verdade. Nada tenho contra Minghella. Até escreveria algo maior a respeito de sua obra. No entanto, estou me dedicando ao luto que realmente me interessa.

Pois hoje também morreu o grande Arthur C. Clarke. Amo o cinema devido a ele e a Kubrick.

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março 17, 2008

Palavras

chagallAmantesnoslilazes.jpg
Os Amantes Lilazes, de Marc Chagall.

MEU

[Do lat. meu.]

Pronome Possessivo.

1. Pertencente à, ou próprio da, ou sentido, experimentado, pela pessoa que fala, por mim;
2. Que eu gozo ou desfruto como se me pertencesse, se fosse propriedade minha;
3. Que me serve, me convém, me interessa;
4. Que me é devido; que me cabe ou me toca;
5. Preferido por mim; da minha predileção;
6. Passado ou vivido por mim;
7. Dedicado ou reservado a mim;
8. Onde eu trabalho, exerço atividade;
9. Esse, aquele; o tal (falando de pessoa a quem dantes já nos referimos, ou de quem nos vamos ocupar, a respeito de quem vamos falar): & [É de rigor, neste caso, o uso do artigo;
10. Caro a mim; querido por mim; da minha amizade, da minha estima;
11. Posposto ao substantivo, adquire, na maioria das vezes, matiz afetivo.

AMOR

(ô). [Do lat. amore.]

Substantivo Masculino.

1. Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa;
2. Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro ser ou a uma coisa; devoção extrema;
3. Sentimento de afeto ditado por laços de família;
4. Sentimento terno ou ardente de uma pessoa por outra, e que engloba tb. atração física;
5. P. ext. Atração física e natural entre animais de sexos opostos;
6. Amor (4) passageiro e sem conseqüência; capricho;
7. Aventura amorosa; amores;
8. Adoração, veneração, culto: amor a Deus;
9. Afeição, amizade, carinho, simpatia, ternura;
10. Inclinação ou apego profundo a algum valor ou a alguma coisa que proporcione prazer; entusiasmo, paixão;
11. Muito cuidado; zelo, carinho;
12. O objeto do amor (1 a 9);
13. Mit. Cupido: & ~ V. amores;

Quando ela me chamou de "meu amor", vivi novamente!

O primeiro de infinitos posts, vida minha!

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março 16, 2008

Escorpião

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O rapto de Perséfone por Hades.

Nasci em 29 de outubro, portanto, segundo a mais antiga ciência do mundo - que, assim como a mais antiga profissão do mundo, continua firme e forte -, sou do signo de escorpião (com ascendente em gêmeos e lua em câncer).

De todas as inúmeras histórias e lendas que envolvem escorpião, minha favorita é o seqüestro de Perséfone dor Hades. Observando as ninfas que brincavam no bosque, Hades, invisível sob a terra devido a seu capacete, apaixonou-se por Cora, A Jovem, filha de Deméter, deusa da agricultura. Raptou-a para o Tártaro, onde ela, sem opção, transformou-se em sua esposa, Perséfone. No entanto, a pedido de Zeus, Hades consentiu que Perséfone passasse oito meses do ano com Deméter, cuja tristeza pelo desaparecimento da filha trouxera aridez e seca aos campos. Nos outros quatro meses, enquanto a Senhora do Tártaro está ao lado do marido, Deméter se recolhe, e a fome se abate sobre os homens.

Por amor, Hades condena à humanidade à fome e à morte. Nada fala melhor sobre escorpião.

Orgulho-me, confesso, de dividir o signo com Dostoiévski, o maior de todos os escritores. Defendo a tese de que só se precisa ler Crime e Castigo ao longo da vida, tudo está lá. Mas, claro, há outros autores escorpianos ilustres: Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Rui Barbosa, José Saramago, Roland Barthes, Paul Valéry, Albert Camus, Andre Gide, Ezra Pound, Erasmo de Roterdã, Voltaire, Lutero, Sylvia Plath.

Só uma mulher de escorpião morderia o futuro marido ao conhecê-lo, como fez Sylvia Plath com Ted Hughes.

Na música, são poucos: lembro-me de Vincenzo Bellini, Domenico Scarlatti, Alexander Borodin, Johann Strauss Jr. (sim, o do Danúbio Azul) e Georges Bizet.

Nas artes plásticas, há Pablo Picasso, René Magritte, Auguste Rodin, Francis Bacon, Claude Monet.

No cinema, só os diretores: Luchino Visconti, Martin Scorsese, Michael Cimino, Ang Lee, Peter Jackson, Julian Schabel, Mike Nichols, Louis Malle, Paulo César Saraceni, Henri Georges-Clouzot, Bernhard Wicki, Kon Ichikawa (aliás, faleceu mês passado), Abel Gance, Arnaud Desplechin, Hong Sang-Soo. De memória, são esses.

Abaixo, segue texto que encontrei na internet. Não sei quem escrevei, mas há palavras que me seduziram: vida / morte, transformação, tudo / nada, sexo, intensidade. Mas, antes, deixo também a Marte, O Portador da Guerra, da Suíte Os Planetas, de Gustav Holst. Compositor e astrólogo, ele se baseou nos arquétipos do zodíaco - na música, a primeira parte se refere à áries, a segunda à escorpião.

Quem adora Marte, O Portador da Guerra é John Williams, que a copiou no Tema de Darth Vader, em O Império Contra-Ataca.



Marte, O Portador da Guerra. Suíte os Planetas, de Gustav Holst.


Planeta: Plutão, o mensageiro do cosmos, isso o faz genial e brilhante, dono de uma incrível capacidade para trabalhar e fazer valer seus argumentos. Também representa o princípio da autoridade, da organização, dos recursos internos e da sexualidade. Também tem como co-regente o planeta Marte.

Qualidade: Fixa, estável e fluente.

Elemento: Água. Elemental: Ondinas e sereias.

Estação: O meio do outono.

Dia: Terça-feira.

Cor: Vermelho, escarlate, vinho, vermelho escuro, preto, azul, cinza e prateado.

Mineral: Água marinha, opala, obsidiana, rubi, kunzita, ágata, ágata de fogo e topázio.

Metal: Ferro.

Vegetal: Plantas espinhosas, picantes e venenosas, orquídea, a rosa-da-china (simboliza o amor voluptuoso), flor do limoeiro (expressão do desejo), avenca (representa o "sigilo") e o jacinto silvestre.

Chakra: 1º e 2º.

Aroma: Almíscar, ópio, pinho, hortelã e eucalipto.

À mesa: Drinks requintados e boa culinária, são o seu forte. Devem evitar alimentos excitantes e defumados e ingerir muita água.

Nota musical: Mi Maior e Dó Sustenido Menor.

Arcanjo: Samael.

Plano de vida: Astral.

Regente esotérico: Marte.

Missão esotérica: Enfrentar a hidra de nove cabeças.

Casa 8: É a casa das transformações, do renascimento, do sexo, dos impostos, das heranças e dos empréstimos. Crise, morte, transmutação, sonhos e faculdades extra-físicas; doações, fortuna do cônjuge e dos associados; o oculto, o astral, a magia, o tipo de morte em vidas passadas; seguros de vida; a afirmação do passado, a transformação da mente, o valor social; é a casa das crises, do sentir profundo e de não sentir-se à altura do nível do outro.

2º eixo Touro - Escorpião: Posse, desejo, poder, controle, necessidade de segurança, necessidade de autocontrole, instinto de sobrevivência; Escorpião - dificuldade de lidar com a perda, excesso de estratégia; Touro - é na puberdade que há uma transformação na voz.

Tarôt: A Morte. Tarôt Cigano: Adaga.

Runas: Tyr, Peorth, Uruz e Othila.

Saúde: Os órgãos genitais (masculinos e femininos), bexiga, vias urinárias e todo o sistema urinário, próstata, uretra, ânus, reto, matéria corante do sangue, nariz, cólon descendente, cóccix, glândulas endócrinas, ovários, testículos, e tem tendência a intoxicações. Qualquer repressão de energia sexual pode provocar atitudes desagradáveis. Eles não resistem a alimentos fortes demais, devem portanto comer ameixas secas.

Aparência: Signo de forte constituição, de pouca beleza e de olhos magnéticos.

Animal: Quadrúpedes grandes e carnívoros e aves de presa.

Profissão: Psicólogo, detetive, policial, químico, médico, açougueiro, empresário, psiquiatra, esotérico, veterinário, agente funerário, biólogo, grafólogo, pesquisador, antiquário, executivo, criminalista, médico legista, especialista em comércio de armas, produtor de cinema, político, administrador, perfumista e todas as atividades que necessitam alto grau de concentração.

Personificação: Signo animal, fértil, mudo e agressivo. Os revolucionários, os mágicos, os bruxos, as pessoas que lidam com o poder, a direção, quem sabe o que quer, quem vai a fundo nas coisas, os políticos e estadistas. Representa a águia e a serpente. Significa a queda e a decomposição das flores, a morte da vegetação, a formação do húmus.

Simbologia: Temido e venerado pelos antigos egípcios, era símbolo da fecundidade e da proteção. No ocidente cristão aparece como representação da inveja e do castigo divino. Apesar disso, está ligado ao número oito, que representa a alma e o equilíbrio.

Mitologia: O signo de Escorpião está associado ao mito de Órion, deus guerreiro. Órion, acreditando em sua superioridade de caçador, resolveu desafiar Diana, a Rainha dos Boques, a fim de verificar quem apanharia maior número de animais ferozes. Diana fez sair da terra um escorpião cuja picada matou Órion em meio a dores insuportáveis. Diana, entristecida, pede a Júpiter que o catasterize, ou seja, que o transforme em constelação. Segundo outra versão, Órion era filho de Netuno e tinha também a faculdade de andar sobre as águas.

Escorpião ascendente em Gêmeos: Capacidade intelectual redobrada, vida amorosa um tanto volúvel, dedicação extrema no que faz e carisma.

Escorpião: "Eu Controlo" - "Eu Desejo". Um infalível poder de sedução...

O signo de Escorpião é a combinação dos seguintes fatores: regência de Plutão em Marte, exílio de Vênus, queda da Lua e, segundo alguns astrólogos, exaltação de Urano.

Escorpião é dos signos que têm um regente antigo ou tradicional (no caso, Marte) e outro moderno (no caso, Plutão). Até 1930, data da descoberta de Plutão, o signo era considerado o domicílio noturno de Marte.

O exame dos acontecimentos mundiais e das tendências mais acentuadas do período concomitante ou próximo à descoberta do novo planeta credenciaram-no como regente de Escorpião, por serem semelhantes à natureza do signo.

O ano de 1930 está no intervalo entre duas guerras mundiais - não que a guerra fosse uma novidade da existência do homem. Aqui, porém, ele chegou a lidar com uma força de destruição jamais antes suspeitada.

Ao mesmo tempo em que dominava o poder de aniquilar, o homem começou a controlar cada vez mais a ciência e as técnicas de reconstrução, da reabilitação, possibilitando o prolongamento do período de vida do ser humano, através de cirurgias e implantes de órgãos e do extraordinário desenvolvimento da genética.

Houve também uma grande difusão do controle de natalidade e de novas técnicas anticoncepcionais.

Todos esses acontecimentos tem um substrato comum - o tema vida/morte, destruição/recriação, fortemente associado ao signo de Escorpião.

Marte, planeta de auto-afirmação, conserva suas prerrogativas de regente neste signo de emoções intensas, determinado e firme.

Urano se exalta em Escorpião; como Plutão, caracteriza-se pelo radicalismo, pela queda de tabus, pelo avanço até as últimas conseqüências, nem sempre escolhendo os caminhos mais suaves.

Já a Lua e Vênus, astros das ligações entre as pessoas, de convívio, de busca do outro, encontram em Escorpião um terreno acidentado.

Aqui, o ciúme é capaz de asfixiar a confiança, fundamental para a relação bem sucedida; a reserva e o ressentimento podem inibir o contato. Hábeis na conciliação e na adaptação, a Lua e Vênus estão longe de casa neste signo do tudo ou nada.

Aqui está um dos mais notáveis casos de predominância do personagem feminino na formação da personalidade. A figura materna é de tal força e intensidade que acaba dominando a maioria das experiências existenciais de quem nasce nesse signo.

Pode se conjeturar que, durante os primeiros anos de vida dessa pessoa, incluindo-se a fase anterior ao nascimento, a mãe tenha vivido algum tipo de perda, seja de uma pessoa querida, seja de um sonho ou fantasia.

Esse tipo de experiência tende a ser projetada na criança sob a forma de censura, de proibição de que ela também seja um motivo de perda.

Em outras palavras, a pessoa de Escorpião é proibida desde a infância de viver experiências transformadoras. Mudar, para ela, é algo perigoso, que ela jamais ousa.

Esta prevalência do modelo materno muitas vezes isola quem é desse signo de um contato mais pleno e real com o próprio lado masculino, trazendo as conseqüências obvias de ausência de um modelo de ação e de conquista.

Este é um tipo bastante forte para controlar o fogo de uma paixão, e mesmo que pressinta o perigo de se envolver numa relação apaixonante e forte, nem sempre conseguirá desviar seu coração de uma atração fatal. Morrer e renascer são seus fundamentos básicos, ou seja, a regeneração e o sacrifício.

Os pensamentos profundos e a sexualidade também se impõem. Em casos extremos, os escorpianos podem ser cruéis e violentos. É o signo da transformação e é também um signo cármico com vidas passadas, com as raízes, com a família e com o sexo.

O nativo de Escorpião é profundo e misterioso, reservado e não gosta de se expor. Sabe apreciar as coisas boas da vida e possui uma sensibilidade aguçada.

Dá muita importância a contatos com os outros, só que o motivo é sua eterna busca pela essência das coisas. Intenso e apaixonado, joga-se de cabeça em tudo. Não é à toa que todos se sentem atraídos por ele.

Tem personalidade forte e é intransigente com quem se opõe à sua vontade. Também deve controlar a teimosia.

Dinamismo: Grande disponibilidade para atuar em todos os setores de existência que exigem uma emotividade (água) resistente e imobilizada (fixo), isto é, que exige sangue frio, risco calculado e autocontrole, porém mais levando a consciência da própria força e poder interiores (frio) do que o mundo oferece (feminino), que por sua vez, é freqüentemente visto com uma certa indiferença, por vezes espontânea, por vezes assumida.

Integração agressiva e passional na existência (Marte), onde a grande força de trabalho sempre disponível se revela não só pela combatividade sistemática (fixo e Marte), mas também pela inteligência sistemática (Urano) que leva à analise sutil, à estratégia e ao julgamento imparcial (Plutão).

Há uma disposição de existir como um todo, para ir direto aos objetivos com determinação e firmeza ou instintiva auto-suficiência, que faz com que o sujeito sempre esteja transpassando obstáculos e se recriando (Plutão) como conseqüências.

O gosto do paradoxal e do grotesco, bem como o desprezo pelo preconceito (Urano) não raro, está na base de inadaptações nos estilos conformistas e esperançosos de comportamento (exílio de Vênus) e de aceitação da existência baseada na manutenção de algum automatismo (Lua).

Disto resulta freqüentemente uma instintiva (água, fixo) disposição ao idealismo masoquista ou ao realismo sádico ou a uma coexistência de ambas que está na base de muitas tendências degeneradoras.

Os conflitos são estruturados num nível de posse e poder (cruz fixa), enquanto que as soluções podem ser estruturadas num nível de investigação de condicionamentos piscianos (ou ocultos, ou insidiosos) trígono de água.

Existem três tipos de Escorpião:

Tipo A: "comum ou típico", realismo sádico, prevalência da impulsividade sobre a inibição. Neste caso podemos ter uma disposição individualista, rebelde, indisciplinada, refratária aos costumes sociais, etc. Firmeza, coerência de atitudes e constância moral, é um tipo criador.

Tipo B: "incomum", tipo virgem, idealismo masoquista, prevalência da inibição sobre a impulsividade, ou seja, bloqueio da vida instintiva. Natureza disciplinada, ordenada, pontual, ligada aos princípios, a formalidade, mais crítico do que criador.

Tipo C: "ambivalente", neste caso, alternância ou coexistência dos tipos anteriores, por exemplo: fisicamente limpo - sujeira moral; crítico - criador; ordenado - desordenado; coexistência ou alternância da impulsividade ou inibição.

Tradicionalmente associado ao poder, escorpião é o signo mais misterioso do zodíaco. Simbolizando o lado profundo e regenerador da vida, este signo tem relação com o sexo: a ação de penetração e fusão é uma característica marcante de escorpião.

É também através do ato sexual que uma nova vida é gerada, e o ato de nascer e renascer fazem parte do eterno ciclo de vida - morte - renascimento, que também está associado ao signo de escorpião.

Entre os seus símbolos, temos a figura do próprio escorpião - apontando a sua natureza inferior, cruel, implacável e traiçoeira - e a fênix, a ave renascida das cinzas que alcança grandes alturas - simbolizando sua natureza superior, transcendente, regeneradora, espiritual.

Escorpião encerra uma imensa possibilidade oculta. É o tesouro enterrado das histórias de piratas, mas para se atingir as profundezas interiores e encontrar este ouro é necessária uma espécie de morte, uma explosão, um cataclisma.

E é preciso que seja assim: a pressão interior é muito maior que a exterior, e acessá-la acarreta uma liberação emocional com intensos poderes.

Podemos associar escorpião à metamorfose da lagarta em borboleta, ao petróleo e às demais riquezas encontradas no interior da terra, e também ao vulcão que libera a lava que fervilha nas profundezas tectônicas.

Em todos estes processos existe uma liberação de energia através da ruptura da casca, o que pode revelar um tesouro ou apenas a lava emocional.

Governando áreas tão complexas e profundas, escorpião não poderia lidar com a vida de uma forma leve e descomprometida.

Quando se identifica com um relacionamento ou com uma causa, ele irá se envolver até a alma; ele irá se "fundir" à situação. É por sentir a vida neste nível de profundidade que os escorpianos costumam ser reservados e discretos com relação às suas motivações.

Caso não estejam emocionalmente envolvidos com a causa, podem evitar a confrontação mais direta, mas caso sejam atacados em pontos a que se liguem emocionalmente, entrarão em guerra para afirmar sua motivações.

E aqui reside uma questão interessante deste signo: quando em conflito, escorpião nunca entra numa batalha, mas sim numa guerra. E neste processo eles atacarão sem piedade e não esperarão nenhuma.

A intensidade deste signo é responsável pela sua característica de transformação. Escorpião está associado a metamorfose, bem como às cirurgias e é claro que o ato de transformar-se demanda uma completa "cirurgia emocional ou mental". Regido por Plutão, este signo rege as sementes e o próprio sêmen.

Também rege a energia atômica e as explosões nucleares. É o poder da vida e da morte concentrados num simples ponto, num grão, num átomo.

Assim é escorpião. regendo o ponto mais recôndito da existência, o Tártaro de Plutão, podemos ver que este ponto é muito pequeno, um quase nada. E nele se encerra o segredo da vida e da morte, que cria e recicla todo o Universo, a imensidão, o Cosmos.

Com tanto poder concentrado, é nesta região do zodíaco que devemos buscar nossa chance de transcendência. Mas este é sempre um jogo complexo, arriscado, de vida - morte, onde a velha pele será sacrificada. mas das cinzas emergirá a fênix refulgente, alçando o seu vôo a alturas até então inimagináveis.

Tarefa: A ti Escorpião, darei uma tarefa muito difícil. Terás a habilidade de conhecer a mente dos homens, mas não te darei a permissão de falar sobre o que aprenderes. Muitas vezes te sentirás ferido por aquilo que vês, e em tua dor te voltarás contra mim, esquecendo que não sou Eu, mas a perversão da Minha idéia que te faz sofrer. Verás tanto e tanto do ser humano, que chegarás a conhecer o homem enquanto animal, e lutarás tanto com os instintos animais em ti mesmo, que perderás o teu caminho, mas quando finalmente voltares a Mim, Escorpião, terei para ti o dom supremo da finalidade.

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março 15, 2008

Os Homens Preferem as Loiras

Mas se casam com as morenas.

Talvez porque não tenham diamantes para oferecer.

No meu caso, é parcialmente verdade.

Gosto bem mais de cabelos castanhos, pretos...

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março 14, 2008

Anton Bruckner

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Anton Bruckner (1824 - 1896).

"Eles querem que eu escreva de forma diferente. Certamente eu poderia, mas não devo. Deus me escolheu entre milhares e me deu, entre todas as pessoas, este talento. É para Ele que eu devo prestar contas. Como então eu poderia ficar perante Deus Todo-Poderoso, se seguisse os outros e não Ele?" - Anton Bruckner.

Há uma anedota conhecida na música clássica, que envolve os três gigantes do pós-romantismo alemão. Diz ela: quando se ouve Bruckner, sabe-se que ele encontrou Deus; quando se ouve Mahler, que ele está à procura de Deus; quando se ouve Richard Strauss, que ele não acredita em Deus.

Amo Mahler e Bruckner. Contento-me com Strauss em 2001: Uma Odisséia no Espaço.

Mahler alcançou merecido reconhecimento no final dos anos 60, sobretudo com as gravações realizadas por Leonard Berstein à frente da Filarmônica de Nova York. Todos os grandes regentes - e os menores também - colocam-se hoje à prova com o ciclo integral das sinfonias mahlerianas, obras que separam os gênios dos medíocres.

No entanto, Mahler se tornou popular. É possível escutar a SInfonia no.1, "Titã", no metrô carioca, embora ela permaneça tão misteriosa, complexa e insondável quanto de sua primeira execução pública no século XIX, recebida a vaias e xingamentos pela atônita platéia vienense.

O culto a Mahler se deve, em parte, à esposa Alma, que propagou a idéia do artista recluso, atormentado, solitário, doente, envolto em tragédias pessoais e cruel na vida profissional. Existe, igualmente, a questão do "profeta" dos novos tempos, cuja música prevê a violência, os contrastes, os absurdos, as rupturas, a dor que grassaria pelo século XX. Sinfonias que lançaram as sementes do dodecafonismo e do atonalismo, embora fossem estritamente clássicas em suas formas e estruturas.

E Bruckner? Antes de Mahler (em Morte em Veneza), também foi tema musical de Luchino Visconti, em Sedução da Carne, com o belíssimo Adagio da Sinfonia no.7 em Mi Maior, sua obra mais popular em vida. Porém, continua nas sombras, à espera de seu momento.


Adagio da Sinfonia no.7 em Sedução da Carne, de Luchino Visconti.

Anton Bruckner é virtualmente impossível de ser classificado. Ele surge, no geral, associado a Mahler, embora a relação entre os dois tenha sido apenas de profunda amizade e, claro, de respeito e de admiração do compositor mais jovem pelo mestre (diferente da crença em geral aceita, Mahler não estudou com Bruckner).

A dificuldade de entender Bruckner passa pela vida do próprio compositor. Ele nasceu na pequena cidade austríaca de Ansfelden, em 4 de setembro de 1824, próxima ao monastério de São Floriano, no qual se tornou organista em 1851. Estudou contraponto com Simon Sechter até os quarenta anos, quando se mudou para Viena, a fim de suceder o antigo professor no Conservatório. Já havia composto Missas colossais, e era profundo admirador de Richard Wagner.

Em Viena, Bruckner se viu na guerra entre os admiradores de Brahms e de Wagner. Foi massacrado implacavelmente pelo crítico Eduard Hanslick, mais importante da época e fervoroso defensor de Brahms. Pior, no entanto, fizeram seus alunos e amigos, para quem o professor era um "mestre sem genialidade": sem compreender quão originais eram as músicas de Bruckner, e no afã de torná-las mais parecidas com as de Wagner e de apresentá-las mais palatáveis ao público, mutilaram-nas, com aprovação do próprio compositor.

Bruckner rejeitou suas duas primeiras sinfoniais. O maestro Otto Dessof teria perguntado, sobre a segunda, "mas onde está o tema principal?", o que devastou o compositor. Mais tarde, quando as reincorporou à sua obra, Bruckner as classificou como Sinfonia no.0 e Sinfonia no.00, para não ultrapassar as nove sinfonias de Beethoven.

Abaixo de Deus, e acima de Wagner, havia Beethoven. Como ele, Bruckner, podia se comparar ao mestre de Bonn?

São os traços mais polêmicos da personalidade de Bruckner. Ele era humilde, reservado, indeciso, influenciável. Jamais abandonou, de fato, a pequena vila em que nasceu, ou o monastério em que se educou. Nada possuía do egocentrismo e da auto-suficiência de Wagner e de Mahler. Promoveu inúmeras versões de suas próprias sinfonias, ora as melhorando, ora as piorando - mas sempre deixou as cópias originais na Biblioteca Nacional, com o singelo lembrete "o tempo delas chegará".

O tempo, justamente, o ponto crucial nas sinfonias de Bruckner. Elas são gigantescas, tanto em duração (quase todas com mais de uma hora), quanto em massa orquestral (o volume sonoro produzido pela orquestra bruckneriana é incomparável, mesmo hoje). São músicas longas, repetitivas, contemplativas, que exigem a entrega dos sentidos e da alma do ouvinte. O compositor nos propõe experiências de intensa fé e espiritualidade através da imersão, pela música, em um tempo divino, completamente fora da vida apressada do cotidiano, das paixões mundanas e das preocupações mesquinhas. E, ao contrário de Mahler, a jornada é segura, pois não há dúvidas ou percalços no caminho desvelado por Bruckner.

Em Bruckner, trata-se da fusão completa com a música, para encontrar a si próprio e a Deus.

Disponibilizo aqui a Sinfonia no.8, em Dó Menor. Houve duas versões, a original, em 1887, e a revisada, em 1890. Esta é a de 1887, e dura 89 minutos e 28 segundos, com 4 movimentos. Orquestra Sinfônica Nacional da Irlanda, sob a regência de Georg Tintner.

Atenção sobretudo ao 3o. Movimento que, junto aos da Sinfonia no.9 de Beethoven e da Sinfonia no.9 de Mahler, é o mais belo Adagio que existe.


boomp3.com
I. Allegro moderato.
17 minutos e 41 segundos


boomp3.com
II. Scherzo: Allegro moderato - Trio: Allegro moderato.
15 minutos e 14 segundos


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III. Adagio: Feierlich lagsam, doch nicht schleppend.
31 minutos e 10 segundos


boomp3.com
IV. Finale: Feierlich, nicht schnell.
25 minutos e 10 segundos

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Se Entrega, Corisco!

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Glauber Rocha e Roberto Rossellini.

Mais fortes são os poderes do povo!!! (Mas já pensaram Gerônimo no poder?)

69 anos de Glauber Rocha. Que falta ele faz!

Embora duvide que o editais lhe dessem verba para filmar A Idade da Terra, por exemplo.


Deus e o Diabo na Terra do Sol, 1964.



Terra em Transe, 1967.



O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, 1969.

Dos longas-metragens do Glauber que vi:

1. A Idade da Terra, 1980 - 5.gif
2. O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, 1969 - 5.gif
3. Terra em Transe, 1967 - 5.gif
4. Deus e o Diabo na Terra do Sol, 1964 - 5.gif
5. Câncer, 1972 - 4.gif
6. O Leão de Sete Cabeças, 1971 - 4.gif
7. Barravento, 1961 - 3.gif
8. Cabeças Cortadas, 1970 - 3.gif

PS 1: O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro dialoga maravilhosamente com Caça ao Leão com Arco, do Jean Rouch. Sempre quis escrever a respeito, mas a falta de tempo... Fica a indicação, no entanto.

PS 2: A omissão mais vergonhosa é Claro. Tenho em VHS, só que meu videocassete não funciona mais. Então, Canal Brasil, passe de novo!

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A Batalha de Actium

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A Batalha de Actium, de Lorenzo A. Castro.

Anteontem revi as quatro horas e sete minutos de Cleópatra, de Joseph L. Mankiewicz, que o Telecine Cult exibiu na janela correta (2.20:1). O filme é melhor do que me lembrava, mas sobre ele falarei em outro post. Agora, um pouco de História.

Poucas batalhas navais foram tão decisivas quanto a de Actium, travada, no calendário Gregoriano (informação importante), em 2 de setembro de 31 a.C. Ela definiu os rumos da civilização, do Ocidente e do Oriente: marcou a vitória de Otávio Augusto sobre Marco Antônio e Cleópatra e, conseqüentemente, o nascimento do Império Romano.

A morte da República já vinha se desenhando desde o primeiro triunvirato - de Crasso, Pompeu e Júlio César. Com a morte de Crasso, e a ascenção de César com a conquista da Gália, a guerra civil foi inevitável. Os dois maiores generais de Roma se enfrentaram, e Pompeu foi derrotado - buscou exílio no Egito, onde o faraó, irmão de Cleópatra, decapitou-o.

César se tornou ditador perpétuo de Roma, embora o título não lhe garantisse poderes imperiais - ainda necessitava da aprovação do Senado. A aspiração por mais poder, a aliança com o Egito e a adoção de seus costumes, o casamento escandaloso com Cleópatra e o reconhecimento do filho Cesário levaram a seu assassinato, nos idos de março, pelos mais eminentes cidadãos romanos. William Shakespeare, em Júlio César, Ato III, Cena I:

Roma. Diante do Capitólio. O senado está em sessão. Grande multidão na rua do Capitólio, na qual se vêem Artemidoro e o adivinho. Clarins. Entram César, Bruto, Cássio, Casca, Décio, Metelo, Trebônio, Cina, Antônio, Popílio, Públio e outros.

CÉSAR (Ao adivinho) — Chegaram os idos de março.

ADIVINHO — É certo, César; porém ainda não passaram.

ARTEMIDORO — Salve, César! Lê este pedido.

DÉCIO — Trebônio pede que esta humilde súplica mais de espaço por vós seja atendida.

ARTEMIDORO — Ó César! lê primeiro a minha, que ela toca a César de perto. Grande César!

CÉSAR — Com o que nos diz respeito não há pressa.

ARTEMIDORO — Não demores, ó César! Lê depressa.

CÉSAR — Como! É louco esse tipo?

PÚBLIO — Sai, maroto! Arreda do lugar!

CÉSAR — Que é isso? Todos apresentam na rua as petições? Entrai no Capitólio.

(César sobe para o senado; os demais o seguem. Os senadores se levantam.)

POPÍLIO — Desejo que sejais bem sucedido no empreendimento de hoje.

CÁSSIO — Não compreendo, Popílio, essas palavras.

POPÍLIO — Passai bem.

(Vai para perto de César.)

BRUTO — Que vos disse Popílio Lena?

CÁSSIO — Votos para que nosso empreendimento de hoje seja bem sucedido. Tenho medo de que hajam descoberto nosso plano.

BRUTO — Observai bem como ele fala a César.

CÁSSIO — Casca, há urgência; receio, que possamos ser nisso antecipados. Bruto, que há de fazer-se? Se falharem nossos planos, ou Cássio ou César ficará sem vida, pois é certo eu matar-me.

BRUTO — Sede firme, Cássio; Popílio Lena não lhe fala de nosso empreendimento. Está sorrindo, sem que César altere a compostura.

CÁSSIO — Trebônio tem noção do tempo. Vede, Bruto, como ele afasta Marco Antônio.

(Saem Antônio e Trebônio. César e os senadores se sentam.)

DÉCIO — Metelo Címber onde esta? Que venha apresentar a César seu pedido.

BRUTO — Está pronto; fiquemos perto dele, a fim de secundá-lo.

CINA — Sereis vós, Casca, o primeiro a levantar o braço.

CASCA — Estamos prontos? Não há queixa alguma que César e o Senado atender possam?

METELO — Muito alto, mui glorioso e forte César, Metelo Cfmber joga ante o teu sólio um coração humilde. (Ajoelha-se.)

CÉSAR — Antes de tudo, Címber, quero advertir-te: essas zumbaias e esses salamaleques porventura a um homem baixo o sangue agitar podem e mudar uma ordem já emitida e uma sentença séria em lei de criança. Não sejas tolo de pensar que César tem sangue tão rebelde, que se deixe esbulhar de sua força verdadeira pelo que os tolos enternece, apenas. Por isso entendo essas palavras doces, reverências servis e essas carícias de cão adulador. Teu irmão se acha banido por decreto. Se te agachas, e acaricías, e por ele pedes, expulso-te daqui como a um cachorro. Deves saber que César não é injusto e que ninguém, sem causa suficiente, consegue demovê-lo.

METELO — Não há voz mais valiosa do que a minha que aos ouvidos do grande César soe mais agradavelmente, para a volta do meu banido irmão?

BRUTO — Beijo-te as mãos César, mas sem lisonja, desejando que Públio Címber possa em breve tempo no gozo entrar de plena liberdade.

CÉSAR — Como? Bruto!

CÁSSIO — Perdão, César! Perdão! A esses pés se ajoelha, humilde, Cássio, para a volta pedir de Públio Címber.

CÉSAR — Se eu fosse vós, pudera comover-me. Se eu soubesse pedir, também seria maleável aos pedidos. Mas sou firme como a estrela do norte, cuja essência constante e inabalável não encontra paralelo no vasto firmamento. Ornam os céus inúmeras faíscas, de fogo todas e indizível brilho; mas uma apenas de lugar não muda. Assim, no mundo: de homens está cheio, homens de carne e sangue e inteligência. Mas, em tamanha cópia, um só, conheço que, inatacável, seu lugar não deixa, sempre surdo a pedidos: sou esse homem. Deixai-me, pois, mostrar agora um pouco que, ao banir Címber, fui constante, como constante sou, no exílio conservando-o.

CINA — Ó César!...

CÉSAR — Fora daqui! Queres virar o Olimpo?

DÉCIO — Grande César!...

CÉSAR — Bruto não se ajoelhou sem obter nada?

CASCA — Braços, falai por mim.

(Apunhalam César.)

CÉSAR — Et tu, Bruto? Então, que morra César. (Morre.)

CINA — Morreu a tirania! Liberdade! Proclamai pelas ruas! Liberdade!

CÁSSIO — Suba alguém às tribunas e proclame “Independência, liberdade e ordem!”

BRUTO — Senadores e povo, ficai calmos; não precisais revelar medo; a dívida da ambição já foi paga.

CASCA — Sobe ao púlpito, Bruto.

DÉCIO — Cássio também.

BRUTO — Onde está Públio?

CINA — Aqui, de todo desolado, à vista dos acontecimentos.

METELO — Ficai juntos, para que não se dê que um dos amigos de César...

BRUTO — Não falemos disso agora; nada de ficar juntos. Públio, anima-te! Ninguém pensa em fazer-te mal algum, nem a qualquer romano. Ide dizer-lhes isso mesmo.

CÁSSIO — Convém deixar-nos, Públio, para evitar que o povo, ao atacar-nos, vos cause dano às cãs.

BRUTO — Sim, fazei isso, e que não chame a si ninguém esse ato, senão nós, seus autores.

(Volta Trebônio.)

CÁSSIO — Onde está Antônio?

TREBÔNIO — Em casa, estupefacto. Pais, mães e filhos olham-se perplexos, correm em gritos, como se estivéssemos no dia do juízo.

BRUTO — Fado, mostra o que de nós pretendes. Que haveremos de morrer, já o sabemos; é só o tempo e a sucessão dos dias que a esse ponto deixa os homens aflitos.

CASCA — Quem vinte anos tira da vida, encurta de igual tempo o medo de morrer.

BRUTO — Se isso aceitarmos, ficará sendo a morte um benefício. De César somos, desse modo, amigos, pois o medo da morte encurtamos. Romanos, abaixai-vos! Abaixai-vos! Os braços mergulhemos neste sangue e com ele tinjamos as espadas. Sangue é de César. Depois disso, vamos à praça pública e, agitando os gládios en­san­guen­ta­dos, a uma voz gritemos: “Independência, paz e liberdade!”

CÁSSIO — Abaixai-vos, então, e as mãos tingi. Quantas vezes, nos séculos vindoiros, há de ser posto em cena nosso feito sublime, em povos por nascer e línguas ainda não constituídas!

BRUTO — Quantas vezes sangrará por brinquedo o grande César, que aos pés da estátua de Pompeu se encontra valendo quanto o pó.

CÁSSIO — Todas as vezes que isso se vir, de nós dir-se-á que fomos os que demos à pátria liberdade.

DÉCIO — Como é, vamos ou não?

CÁSSIO — Vamos, reunidos. À testa marche Bruto; nós os passos lhe enfeitaremos com romanos peitos de ousadia e firmeza inigualáveis.

(Entra um criado.)

BRUTO — Quietos. Vem vindo alguém. Ah! É um amigo de Marco Antônio.

CRIADO — Bruto, desse modo me ordenou meu senhor que eu me ajoelhasse, e assim, prostrado, me ordenou dizer-vos: Bruto é valente, nobre, sábio e honesto; César foi grande, altivo, real e bom. Dize que eu amo a Bruto e sei honrá-lo. Dize-lhe mais que a César eu temia, amava e honrava. Permitindo Bruto que, salvo, Antônio dele se aproxime, para saber de que maneira César mereceu essa morte, Marco Antônio não há de amar César defunto tanto quanto Bruto com vida, mas, fielmente, há de seguir as obras e o destino do nobre Bruto em todos os azares deste estado de coisas não trilhado. Assim falou meu amo Marco Antônio.

BRUTO — Romano bravo e sábio é o teu senhor. Nunca o julguei ruim. Dize-lhe que se for do agrado dele vir até aqui, far-lhe-ei nisso a vontade, asseverando, sob palavra de honra, que partirá ileso.

CRIADO — Vou buscá-lo. (Sai.)

BRUTO — Sei que ele há de ficar sendo um dos nossos.

CÁSSIO — É o que desejo; mas em mim se agita algo que o teme, e meus pressentimentos, por desgraça, são sempre confirmados.

(Volta Marco Antônio.)

BRUTO — Eis Marco Antônio. Sê bem-vindo, Antônio.

ANTÔNIO — Ó poderoso César! Tão por baixo! Todas as tuas glórias, as conquistas, teus espólios e triunfos, a medida tão pequena ficaram reduzidos? Adeus! Não sei o que pensais, senhores, sobre os que ainda devem perder sangue, por ter sangue demais. Se achais preciso que eu o derrame, hora não há melhor do que esta em que deixou de viver César, nem instrumento que em valor se iguale ao de vossas espadas, ora ricas do sangue mais precioso deste mundo. Suplico-vos, no caso de me terdes como suspeito, executai o intento sem perda de um instante, enquanto as rubras mãos ainda vos fumegam. Se eu vivesse mil anos, impossível fora achar-me tão apto para morte como agora. Nenhum lugar me agradaria tanto para morrer, nem gênero de morte, como junto de César, sendo eu morto pelos maiores homens de nossa época.

BRUTO — Não nos peças, Antônio, morte alguma. Embora pareçamos sanguinários neste momento, e cruéis, como nos mostra o ato por estas mãos levado a termo, vedes apenas nossas mãos e a empresa sanguinosa por elas realizada. Os corações não vedes; mas são todos compassivos. Assim, foi a piedade — tal como o fogo é pelo fogo expulso, a piedade à piedade dá combate — que em César isto fez. Nossas espadas, para vós, Marco Antônio, são de chumbo. Nestes braços, isentos de malícia, e em corações de fraternal afeto, vos acolhemos com amor sincero, reverência e intenções em tudo retas.

CÁSSIO — E na distribuição das dignidades nenhuma voz será mais poderosa do que a vossa.

BRUTO — Pedimos-vos paciência, tão-somente, até ver se conseguimos acalmar este povo, que, de medo, ficou fora de si. Depois, diremos porque eu, que amava César ao golpeá-lo, me decidi a realizar este ato.

ANTÔNIO — Vossa sabedoria me conforta. Dêem-me todos, agora, as mãos sangrentas. Primeiramente, Marco Bruto, a vossa; agora a vossa, Caio Cássio; o mesmo faremos, Décio Bruto; vós Meteleo; vós, também, Cina; vós, valente Casca, e vós, meu bom Trebônio, conquanto o último não o menos querido. Cavalheiros... Ai de mim! Que direi? Neste momento minha reputação se acha em terreno tão escorregadio, que é forçoso verdes-me por dois prismas igualmente deformadores: ou como covarde, ou como adulador. Que eu te votava, César, amor sem par, oh! é verdade. Se nos contempla agora o teu espírito, não será para ti mais doloroso que a própria morte, veres teu Antônio fazer as pazes com teus inimigos — ó nobre César! — diante de teu corpo? Se tantos olhos eu tivesse quantas feridas em ti vejo, porque todos lágrimas derramassem como o sangue que delas ora escorre! Melhor fora para mim, do que ter com teus inimigos concluído assim um pacto de amizade. Perdão, meu Júlio. Como foste acuado, bravo cervo! Tombaste neste ponto; teus caçadores aqui mesmo se acham, do espólio opimo altivos, e ainda rubros das águas do teu Lete. Ó mundo, foste deste cervo a floresta, bem como ele, teu próprio coração. Oh mundo! Como pareces onde te achas, uma caça por fidalgos altivos abatida!

CÁSSIO — Marco Antônio...

ANTÔNIO — Perdoa, Caio Cássio. Poderiam ser ditas tais palavras por inimigos de César; proferidas, porém, por um amigo, ainda revelam muita moderação.

CÁSSIO — Não vos censuro por elogiardes César desse modo. Mas como pretendeis ficar conosco? No número incluído dos amigos? Seguiremos avante, sem que em nada dependamos de vós?

ANTÔNIO — Para isso mesmo apertei-vos as mãos; mas esqueceu-me no instante de ver César. Sou amigo de todos vós, e amor a todos voto, esperando que haveis de revelar-me porque e como era César perigoso.

BRUTO — Se não o fosse, isto tudo não passara de espetáculo selvagem. Tão razoáveis são os motivos que ora nos dirigem, que embora fosseis, Marco Antônio, filho de César, ficaríeis satisfeito.

ANTÔNIO — Não desejo outra coisa. Mas quisera também a permissão de pôr o corpo na praça do mercado e, como amigo do morto, discursar na cerimônia.

BRUTO — Pois não, Antônio.

CÁSSIO — Bruto, uma palavra. (À parte, para Bruto) Não lhe deis permissão de ir à tribuna, durante os funerais. Fazeis idéia de como o povo poderá deixar-se mover por seu discurso?

BRUTO — Perdão, Cássio; mas eu, primeiro, falarei de público, para as razões expor do passamento do nosso César. Quanto Marco Antônio disser depois, explicarei, é feito com nossa permissão e inteiro acordo. E mais: que permitimos tenha César todas as honras fúnebres e os ritos que a lei faculta aos mortos Tiraremos de tudo mais vantagem do que dano.

CÁSSIO — Quem sabe o que daí resultar pode? Nada disso me agrada.

BRUTO — Marco Antônio, aqui tendes o corpo. No discurso fúnebre não deveis lançar nenhuma censura sobre nós. Dizei de César todo o bem que quiserdes, explicando que permissão vos demos para tanto. A não ser isso, ficareis excluído das cerimônias fúnebres. E ainda: será vossa oração dita da mesma tribuna em que eu falar, quando concluído eu tiver o discurso.

ANTÔNIO — Mais do que isso não desejo. Está bem.

BRUTO — Prepara, então, o corpo e vem conosco.

(Saem todos, com exceção de Antônio.)

ANTÔNIO — Ó pedaço de terra a verter sangue, perdoa o revelar-me humilde e brando com estes carniceiros! És a ruína do mais nobre homem que jamais vivera na corrente do tempo. Ai, ai da mão que fez correr tão precioso sangue! Faço uma profecia em face destas feridas que, de bocas mudas, abrem os lábios de rubi para pedir-me à lingua voz e fala: sobre os homens pesará maldição, lutas internas e uma guerra civil das mais terríveis todas as partes encherão da Itália; o sangue e a destruição de tal maneira ficarão familiares, que somente há se sorrir as mães perante a vista dos filhos massacrados pela guerra; asfixiada a piedade vai tornar-se pelo hábito do crime, e o grande espírito de César, sequioso de vingança, com Ate ao lado, rubra ainda do inferno, em tom de mando gritará por todos estes confins: “Nenhum quartel!” enquanto desprende os cães da guerra. Este ato horrível emprestará a terra de cadáveres que reclamam condigna sepultura. (Entra um criado.) Servis a Otávio César, não é isso?

CRIADO — Perfeitamente, Marco Antônio.

ANTÔNIO — César lhe havia escrito que viesse a Roma.

CRIADO — Recebeu sua carta e está em caminho, havendo-me ordenado que oralmente vos relatasse... (Percebendo o cadáver) — Oh César!

ANTÔNIO — Tens glorioso coração. Fica à parte e chora a flux. É contagiosa a dor, percebo-a agora, pois vendo-te nos olhos essas contas da tristeza, os meus sinto umedecidos. Teu amo, então, virá?

CRIADO — Ainda esta noite dormiu a sete léguas, só, de Roma.

ANTÔNIO — Então monta depressa e vai contar-lhe quanto aqui se passou. Uma lugente Roma é esta, uma Roma perigosa, uma Roma que a Otávio não faculta nenhuma segurança. Vai depressa; relata-lhe o que viste. Não! Espera. Só irás depois que o corpo eu tiver posto na praça do mercado e haja sondado com minha oração fúnebre a maneira por que o povo interpreta as conseqüências da ação desses sujeitos sanguinários. Conforme o resultado, ao moço Otávio contarás em que pé estão as coisas. Dai-me a mão.

(Saem com o corpo de César.)

Otávio, sobrinho adotivo de Júlio César, é declarado seu herdeiro, e com Antônio saem à caça dos assasinos do tio. Com a morte de Cássio, Bruto e os demais, Marco Antônio, Otávio Augusto e Lépido formam o Segundo Triunvirato: ao primeiro caberia as riquezas leste; ao segundo, a Espanha, a Gália e a administração de Roma; ao terceiro, a África.

Augusto rapidamente destituiu Lépido, e iniciou no Senado campanha contra Marco Antônio e Cleópatra. Ao contrário de seus antecessores, Otávio, antes de general, era principalmente hábil político. Conquistou a plebe e a aristocracia, cercou-se dos melhores comandantes militares - Agripa, que venceu em Actium, por exemplo -, e fez de Roma a capital soberana do mundo.

Em Actium, foram dois projetos que se chocaram. Marco Antônio e Cleópatra deslocaria o eixo da civilização para o Oriente, de volta à Grécia e ao Egito, e reinariam como os antigos monarcas teocráticos. Otávio Augusto estabeleceria o Ocidente no centro do mundo, e o Mediterrâneo como principal rota marítima e comercial. Roma subjugaria todos os demais territórios. E, embora imperador, Augustus, Otávio o faria sob a Lei: a preservação do Senado, dos Códigos, da Cidadania - e a expansão para as novas áreas conquistadas da pax romana.

Otávio triunfou.

Ciente de sua conquista, que o estabeleceu como primeiro imperador de Roma, Augusto escolheu o oitavo mês do calendário em sua homenagem. Originalmente sextillus (era o sexto mês, antes da introdução de janeiro e fevereiro), passou a se chamar Agosto.

A diferença entre o general e o político. Júlio César batizou julho em sua própria homenagem, porque foi o mês em que nasceu. Otávio, porém, nasceu em setembro. Agosto foi escolhido para celebrar sua vitória na Batalha de Actium (que, no Calendário Juliano em vigor, ocorreu em agosto, não em 2 de setembro, como no Gregoriano), a derrota e a submissão do Egito e o fim da Guerra Civil.

O Edito do Senado Romado, justificando a escolha de sextillus como agosto:

"Whereas the Emperor Augustus Caesar, in the month of Sextillis . . . thrice entered the city in triumph . . . and in the same month Egypt was brought under the authority of the Roman people, and in the same month an end was put to the civil wars; and whereas for these reasons the said month is, and has been, most fortunate to this empire, it is hereby decreed by the senate that the said month shall be called Augustus."

Agosto, em si, já explica porque Otávio, e não Júlio César, criou o Império Romano.

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