agosto 29, 2007

DIVXs

Terminei de arquivar meus filmes baixados pelo e-mule. Estão agora todos catalogados, por nome, diretor, língua em que é falado e legendas.

Tenho mais de 500 títulos, obras (ripadas a maioria de DVDs) de Orson Welles, John Ford, Manoel de Oliveira, João César Monteiro, D. W. Griffith, F. W. Murnau, Max Ophüls, Jacques Demy, Cecil D. DeMille, Carl Dreyer, Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi, Jacques Tati, Werner Herzog, Rainer Werner Fassbinder, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer, Jia Zhang-Ke, Apichatpong Weerasethakul, Jean Renoir, Claire Denis, Tony Gatlif, Michael Powell, Martin Scorsese, Andrei Tarkovski, Sergei Eisenstein, Alexander Sokurov,. Alexander Dozhvenko, Clint Eastwood, Alain Resnais, Ernst Lubitsch, Robert Bresson, Satyajit Ray, irmãos Marx, Abel Gance, Jean Epstein, Marcel L'Herbier, Germaine Dulac, Sergei Bondarchuk, Rithy Panh, Lev Kuleshov, Vsevolod Pudovkin, John Cassavetes, Shinji Aoyama, Shohei Imamura, entre outros.

Quem quiser, só entrar em contato através do e-mail aí ao lado - pkrga@yahoo.com - para as devidas negociações. Abraços, e até a volta de Porto Alegre!

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Freela para o Festival do Rio

Se alguma revista precisar de crítico para cobrir o Festival do Rio, estou me oferecendo. Lançaremos nossa própria, a Moviola, mas como arranjar credenciais parece um tanto difícil, consigo produzir tranqüilamente para outra publicação.

Até porque escrevo freneticamente: por três anos seguidos, fiz a maior quantidade de textos para a Contracampo. E todos legíveis, aliás.

Só me arranjarem uma credencial...

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agosto 28, 2007

Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo da rainha. A partir de quarta-feira, passo uma semana em Porto Alegre. O hotel tem internet, de modo que caso sobre tempo - e espero que não - atualizo o blogue, direto das províncias dos pampas. Deixo vocês com Mário Quintana, maior poeta do Rio Grande do Sul - e que também amava o Rio de Janeiro:

passagem.jpg

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

Texto: O Mapa, de Mário Quintana.

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agosto 23, 2007

Redemption


Um Sonho de Liberdade, 1994, de Frank Darabont.

"O que aconteceu na minha vida? Podem adivinhar? Recebi liberdade condicional. Depois de trinta e oito anos de audiências rotineiras e recusas rotineiras (no curso desses trinta e oito anos, três advogados meus morreram), minha liberdade condicional foi concedida. Acho que eles chegaram à conclusão de que, aos cinqüenta e oito anos de idade, fui consumido o bastante para ser considerado digno de confiança". (Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank, de Stephen King).

Acredito que as transformações não dependem apenas de quem busca a mudança, mas também dos que as acolhem e permitem que elas ocorram. Dos que garantem ao outro a possibilidade do presente e do futuro, e que não o fazem pagar ainda mais pelo passado.

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agosto 22, 2007

Resposta


Lições da Escuridão, 1992, de Werner Herzog.

Não vivo sem as chamas. Recuso-me a desistir.

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Sem Ânimo

Difícil manter projetos quando não te deixam executá-los.

Arrancaram minha alma.

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agosto 17, 2007

De Niro e Scorsese, Frankie Machine

Para quem não vê a menor graça nas comédias estreladas por Robert De Niro (ou para os que gostam também, tanto faz), a ótima notícia atende pelo nome de Frankie Machine.

Em 2008, treze anos depois de Cassino, Robert De Niro, que faz aniversário hoje, reunir-se-á novamente com Martin Scorsese, na adaptação do romance homônimo de Don Winslow.

A sinopse (tirada do IMDB): "an ex mob hit man (De Niro) living in rural comfort is lured back into his former profession by the scheming son of a Mafia Don".

Difícil mesmo é prever como e quando se dará o lançamento de Frankie Machine, uma vez que Scorsese possui outros dois projetos para 2008: Silence, com Javier Bardem, e The Rise of Theodore Roosevelt, com Leonardo Di Caprio.

PS: o alívio com Frankie Machine vale igualmente para os que não suportam mais a parceria Scorsese / Di Caprio, não?

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Minnie e Moskowitz


Minnie e Moskowitz, 1971, de John Cassavetes.

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Texto: Ainda que Mal, de Carlos Drummond de Andrade.

Para minha Minnie.

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Pérolas da Crítica Nacional

http://www.criticos.com.br/new/artigos/critica_interna.asp?artigo=1280

http://www.criticos.com.br/new/artigos/critica_interna.asp?artigo=1286

Textos de Luiz Fernando Gallego sobre, respectivamente, Still Life e Time, feitas para o criticos.com.br.

À parte a sensação de que inverteram as críticas, fica a pergunta: de onde sacam esses caras?

PS: nunca leve a sério quem usa aspas para ironizar - é frescura.

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Veneza, Eu Te Amo


Still Life, 2006, de Jia Zhang-Ke.

Se não fosse brilhante, mas tivesse apenas esta cena, já seria o melhor filme do ano.

Parabéns ao júri do Festival de Veneza, que conferiu o Leão de Ouro a Still Life (e o prêmio de direção a Alain Resnais, por Medos Privados em Lugares Públicos).

Escolhas acertadíssimas, que resgatam anos de decisões infelizes, incluindo as de Cannes e as de Berlim.

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agosto 12, 2007

As Bobagens de Peter Greenaway

Recebi esta matéria da lista Roteiros de Cinema. Acredito que seja de algum jornal de Porto Alegre. Guilherme Kolling escreveu:

Greenaway: "O cinema é um dinossauro"

O primeiro questionamento da coletiva de imprensa da terça-feira, 10 de julho, foi direto ao ponto da palestra de Peter Greenaway no Fronteiras do Pensamento: Por que "o cinema está morto"? Ele devolveu a pergunta à repórter: "Quantas vezes por semana você vai ao cinema?" - Duas. "E quantas ia dez anos atrás?" Cinco vezes. "Você mesma respondeu. O cinema está em fase de declínio".

Depois completou: "É como se fosse um dinossauro, que tem um cérebro pequeno e uma cauda longa. A morte cerebral ocorre num período curto, mas demora até que a mensagem chegue na cauda, por isso ele demora a morrer. É isso, o cinema é um dinossauro com uma cauda longa: resta saber quando ela vai parar de se debater".

Greenaway fez uma breve retrospectiva desse fenômeno, observando que entre 1940 e 1960 assistir a filmes era um entretenimento do proletariado, muito barato de ser consumido. "Mas no século XXI podemos fazer uma lista de alternativas de entretenimento mais baratas e muito mais interessantes e divertidas do que o cinema".

A queda de audiência é um fenômeno que já tem mais de quarenta anos. O ponto alto de Hollywood foi em setembro de 1963. "Desde então o público vem caindo. Os números de 2006 mostram que 75% das pessoas assistem aos filmes longa-metragem na TV, 20% em vídeo ou DVD, e só 5% assistem aos filmes nesses lugares estranhos chamados cinema".

O cineasta também coloca a data de 31 de setembro de 1983 como um marco, quando o controle remoto foi introduzido nas salas de estar. "Foi um divisor de águas. É a inserção da interatividade, do poder de escolha. Se essa nova realidade fosse enfrentada naquela época, talvez agora tivéssemos alguma coisa nova. Mas desde então, nada de significativo aconteceu".

O autor britânico expôs que o cinema não pode ser interativo nem multimídia, dois fatores fundamentais para seu desaparecimento. Essas características são pré-requisito básico para atender à geração do futuro, um público na faixa etária de 13 a 30 anos, que é o alvo de Hollywood. Greenaway chamou-a de laptop generation. "São pessoas familiarizadas com tecnologia digital. Não dá para mantê-los aprisionados por duas horas. Só um grupo de pessoas do mundo clássico, nostálgico, saudosista é capaz de ficar todo esse tempo numa sala escura, sem se mexer. Esse mundo acabou. É surpreendente que ainda tenha gente que gosta de ir ao cinema ou de vinil, de ouvir disco com aquele barulho da agulha, ao invés do CD. Essas pessoas devem até ser engraçadas, mas não podem ser levadas a sério".

O cinema precisa ser reinventado

Peter Greenaway disse que a morte do cinema ocorre por uma série de questões sociais, políticas e econômicas. "Mas eu, enquanto cineasta, prefiro falar das razões estéticas. O cinema como meio de comunicação de idéias está morto. A produção contemporânea é entediante. Em 10 minutos de filme já se sabe o que vai acontecer, como vai acontecer e de que forma vai terminar. A psiquê humana precisa de novidades. O cinema precisa desesperadamente ser reinventado, assim como qualquer mídia tem que se reinventar", propõe.

Já na coletiva de imprensa, o autor britânico lançou a tese que desenvolveria na conferência, de que a mudança deve ser radical, colocando os modelos e paradigmas do passado de lado para se utilizar do experimentalismo e produzir algo novo. "Em 112 anos - se considerarmos a data de 1895 como a do surgimento do cinema - esgotaram-se todas as possibilidades. Depois dos anos 70, não houve novidades. Apenas pastiche, filmes requentados. Eu me sinto pessimista sobre o cinema. Mas sou muito otimista sobre o que virá a seguir, depois dessa crise, com o uso dessas novas tecnologias que estão a nossa disposição. Esses 112 anos foram apenas o prólogo do cinema", concluiu.

Só espero que o próximo filme de Greenaway, que será exibido na competição de Veneza, não mostre uma sala de cinema vazia.

Já basta Tsai Ming-Liang....

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Ô, Inveja...

Saiu na Folha de São Paulo:

A versão restaurada do filme "O Cavalo de Ferro" (1924) de John Ford, o documentário de Nick Redman "Becoming John Ford" e o retorno de cinco obras-primas de Budd Boetticher irão se juntar aos já anunciados filmes da retrospectiva e aos novos filmes do velho oeste de Andrew Dominik, Miike Takashi e Alex Cox na homenagem do 64º Festival de Cinema de Veneza, de 29 de agosto a 8 de setembro.

A influência do velho oeste ainda está viva em muitos cineastas contemporâneos, como nos filmes a serem exibidos na mostra: "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford", de Andrew Dominik, em concurso, "Sukiyaki Western Django", de Miike Takashi, também em concurso, e "Searchers 2.0", de Alex Cox, na sessão Horizonte.

A época clássica do velho oeste será celebrada com a estréia mundial, em colaboração com a Jornada do Cinema Mudo de Pordenone, da versão restaurada de "O Cavalo de Ferro" (1924), de Ford, que ganhou um Leão de Ouro honorário em 1971 em reconhecimento à sua carreira, obra-prima do cinema mudo que conta a epopéia da construção da primeira ferrovia transcontinental.

"O Cavalo de Ferro", primeiro filme do velho oeste de Ford, reúne a perfeita ação espetacular, baseada na fusão das grandes cenas de massa, com a profunda introspecção psicológica dos personagens, rendendo a viagem para a conquista do Oeste, o pioneirismo e o mito da fronteira, uma verdadeira história épica.

Serão exibidos também os filmes de Boetticher "O Resgate de um Bandoleiro" (1957), com Randolph Scott e Maureen O'Sullivan, "Amanhecer Sangrento" (1957), com Randolph Scott, Noah Beery Jr. e Karen Steele, "Fibra de Heróis" (1958), com Randolph Scott, Peter Whitney e Craig Stevens, "O Homem que Luta Só" (1959), com Randolph Scott, Lee Van Cleef, Karen Steele e James Coburn, e "Cavalgada Trágica" (1960), com Randolph Scott e Nacy Gates.

A reportagem erra ao atribuir o início de Ford no western com O Cavalo de Ferro. Reza a lenda que, em 1917, o caçula Jack substituiu seu irmão Francis - que não chegara pois estava bêbado - no set de filmagem e, ao encenar as seqüências de perseguições a cavalo, agradou tanto aos produtores que foi efetivado no cargo.

Pouquíssimos filmes silenciosos de John Ford sobreviveram, infelizmente, mas entre eles há Bucking Broadway, faroeste deste mesmo ano mágico de 1917, com Harry Carey, primeiro grande parceiro do cineasta. Está disponível no e-mule, em excelente cópia, e possui várias características fordianas: vastas paisagens, ternura amorosa, desconforto do herói, muito humor e antológicas pancadarias.

Talvez fosse mais correto dizer que Cavalo de Ferro permanece, ainda hoje, como filme mais influente de Ford e do próprio cinema. Não me lembro de obra alguma que tenha sido mais copiada: todos os seus planos reaparecem, citados voluntária ou involuntariamente, nos últimos 83 anos.

E, para completar a programação de Veneza, a dobradinha Budd Boetticher e Randolph Scott! Alguém se lembra que eles passavam nas tardes da Record? Bons tempos...

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agosto 11, 2007

Exílios, 2004, de Tony Gatlif - 4.gif

Zano (Romain Duris) e Naima (Lubna Azabal) estão na Argélia: franceses, namorados, caminham sozinhos na direção oposta a da multidão, misturando-se com ela. Neste plano emblemático de Exílios, Tony Gatlif (prêmio de melhor direção no Festival de Cannes) promove a migração inversa dos personagens, os quais, em busca das lembranças perdidas, entram em contato físico e corpóreo com a realidade sócio-cultural árabe - que, a princípio estranha, acaba por construir a identidade e a memória afetiva do casal.

Exílios abre com plano fechadíssimo nas costas de Zano que, nu, observa o movimento das ruas a partir de seu apartamento, enquanto música unindo motivos árabes e technos – que não se sabe, de início, fazer parte ou não da diegese do filme – fala sobre a necessidade de ouvir os ausentes. Desde já, Gatlif questiona o corpo enquanto local privilegiado onde ocorre a experiência sensível, ou seja, a pele como elemento de transição entre o interior e o exterior, entre o que não se é no presente para o que se quer ser no futuro, através do passado, movimento que estrutura a narrativa sobretudo por meio das canções (a maioria composta pelo cineasta). Estas em geral se iniciam diegeticamente (ouvidas pelos próprios personagens) para depois se expandirem ao filme em si, combinando-se de maneira melódica com os ruídos específicos de cada seqüência.

À proposta de Zano, Naima aceita ir à Argélia. A jornada, que atravessa a Espanha, o Marrocos e o país-destino, serve para os protagonistas reencontrarem suas lembranças: ele, a família que resta na capital, após o exílio forçado do avô músico; ela, a origem árabe, marcante no nome, que o pai negava ao não conversar com a filha na língua natal. Contudo, se a procura parte de objetivos específicos, Gatlif os esvazia ao longo do filme, uma vez que são os acontecimentos – visuais, sonoros, táteis, palatais, olfativos – experimentados pelo casal ao longo da viagem que interessam à narrativa: seja o olhar sobre a terra árida e as cidades destruídas pelas quais atravessam, seja o contato com os irmãos árabes rumo à França ou com o grupo de ciganos, seja os ataques de mosquitos ou a chuva, seja a festa em Sevilha na qual Naima trai Zano com um nativo, seja a reconciliação do casal na plantação de ameixas, seja a tomada, como clandestinos, do barco errado e a conseqüente e não planejada ida ao Marrocos.

Trata-se do ato de in-corporar, através do que o casal apreende e mergulha na realidade alheia que se lhes apresenta. Criar laços, fomentar relacionamentos com todos os “ausentes”, esquecidos e marginalizados que cruzam o caminho dos personagens principais, como no belíssimo plano em que Gatlif destaca o contato da gota de suor, de uma completa desconhecida, no braço de Naima. Assim, não por acaso, há onipresença de manifestações coletivas – a reunião com os ciganos, a festa em Sevilha, o encontro com a família dos irmãos que foram para a França, além da aproximação de Zano com os parentes – que culminam no longo plano-seqüência no qual a protagonista, mais do que apenas passar por simples transe mediúnico, convulsiona o próprio corpo como símbolo da entrega e da identificação com as memórias e lembranças construídas durante o percurso (e, visto que está em jogo a relação entre o corpo de Naima e o meio afetivo que o abriga, a seqüência somente poderia ser filmada em plano único, que mantém a continuidade espacial negada pelo corte).

Gatlif, porém, sabe que Exílios existe enquanto viagem dupla, e não individual, pois o reconhecimento do casal nos Outros passa pela comunhão entre Zano e Naima: após o ápice representado pelo plano-seqüência, há o singelo corte para o casal se entreolhando, em primeiro plano, com o fundo inteiramente desfocado, como se nada mais existisse fora daquele momento único envolvendo os dois. Ao final, ambos prosseguem, juntos, caminhando não se sabe para onde – já que, de fato, o destino é menos importante que o deslocamento em si, das mulheres e dos homens anônimos que nele surgem –, enquanto o walkman, colocado por Zano no túmulo do avô, toca: a música, ao mesmo tempo simples onda sensível aos ouvidos e verdadeira força transcendente, realiza a ponte entre as memórias adquiridas e o futuro em aberto.

Em Exílios, portanto, Tony Gatlif faz com que as lembranças entrem pelos poros da pele.

Na espera pelo comentário sobre Transylvania, a crítica de Exílios, que tudo começou.

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agosto 10, 2007

Moviola


Eureka, 2000, de Shinji Aoyama.

O maremoto está chegando.

Em breve, tenho certeza, ele nos varrerá a todos.

Revista Moviola. Setembro. Aguardem.

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agosto 08, 2007

Mais Guerra e Paz


O ciclo da morte por Bondarchuk.

A primeira seqüência de Guerra e Paz no campo de batalha, sobre a qual falei na crítica mais abaixo. Destaque para um dos mais belos travellings do cinema.

Close-up do soldado russo moribundo e carrinho para esquerda, atravessando a tropa que marcha para o combate, até se fixar no rosto do comandante, que ordena o ataque. Em seguida, grua para cima, que descortina o choque entre os exércitos, finalmente soterrado pela nuvem da fumaça dos canhões que recobre a paisagem.

Bondarchuk exprime, neste plano-seqüênca, a dinâmica da guerra, que se alimenta de morte e que produz assassinos, através de:

1. O soldado prestes a morrer;

2. O exército - coletivo de soldados - pronto a matar;

3. O comandante, que ordena a matança;

4. O combate, a carnificina em si;

5. A nuvem de fumaça, que indica o resultado final: morte.

Ou seja, temos a guerra como máquina, de input e de output: matar e morrer, canibalizar-se insanamente no processo. Engrenagens geradoras de autômatos, que obedecem ordens sem contestação.

Vale conferir, por guardarem semelhançcas com a referida cena: a primeira parte de Nascido para Matar, de Stanley Kubrick, quando Sgt. Hartman treina e prepara a tropa para o Vietnã, e o plano-seqüência de Gangues de Nova York, no qual imigrantes irlandeses desembarcam do navio, são alistados pela União e enviados para o front, enquanto os caixões das vítimas da Guerra de Secessão entopem o porto.

O mesmo ciclo macabro, que precisa da continuidade do espaço e do tempo para revelar todo seu horror.

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agosto 07, 2007

Melhores de 2006 pela Cahiers du Cinema

1. Coeurs (Alain Resnais) e Le Soleil (Aleksandr Sokurov)
3. The Host (Bong Joon-ho)
4. Lady Chatterley (Pascale Ferran)
5. Un Couple Parfait (Nobuhiro Suwa)
6. Ces Rencontres Avec Eux (Danièle Huillet & Jean-Marie Straub), The Lady in the Water (M. Night Shyamalan) e Capote (Bennett Miller)
9. The Departed (Martin Scorsese)
10. Flags of Our Fathers (Clint Eastwood) e The New World (Terrence Malick)

Lista curiosa. Ver O Sol, de Sokurov, empatado com Resnais não deixa de ser uma grande surpresa - embora eu não tenha urticária, como a maioria, devido ao gosto do cineasta russo pela decadência, pelo passado e pelo reacionário. Quanto a Coeurs, nada mais justo.

O Hospedeiro realmente fez sucesso em todos os cantos - a ponto de já estar engatilhada sua refilmagem por Hollywood.

Não conheço Lady Chatterley, mas confesso me arrepender de não ter assistido a Um Casal Perfeito no Festival do Rio do ano passado.

Straub / Huillet ficaram abaixo do que eu esperava, e Shyamalan, cada vez mais detestado pela crítica americana, mostra sua força fora de casa. Mas Capote, como explicar?

Os Infiltrados é assunto para Bruno Andrade.

Será que Cartas de Iwo Jima não estreou na França em 2006, ou simplesmente o desprezaram? O filme é melhor que A Conquista da Honra - mas, em todo caso, ambos deveriam constar da lista. E a sempre maravilhosa lembrança de Malick e de O Novo Mundo.

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agosto 06, 2007

Trabalho em Equipe

Estou revendo, ou conferindo pela primeira vez, os filmes de Michael Powell e de Emeric Pressburger. Os créditos impressionam: a nata do cinema britânico trabalhou junta em diversas obras-primas realizadas pela dupla nos anos 40.

David Lean, que mais tarde dirigiria Desencanto, Grandes Esperanças, Lawrence da Arábia, Passagem para Índia, montou Paralelo 49 e E Um Avião Não Regressou - e, diz-se, deu a idéia para Coronel Blimp.

Freddie Young, que ganhou três Oscar por filmes de Lean (Lawrence da Arábia, Doutor Jivago, A Filha de Ryan), foi diretor de fotografia em Contraband e em Paralelo 49.

Jack Cardiff, diretor indicado ao Oscar e à Palma de Ouro em Cannes por Filhos e Amantes, levou o troféu da Academia como fotógrafo de Narciso Negro. Também esteve à frente da fotografia de Nesse Mundo e No Outro e de Sapatinhos Vermelhos, e foi operador de câmera em Coronel Blimp.

Para completar, Freddie Francis, Oscar de fotografia por Filhos e Amantes, operou a câmera em Narciso Negro, em Sapatinhos Vermelhos e em Os Contos de Hoffman.

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Guerra e Paz I: Andrey Bolkonskiy, 1965, de Sergei Bondarchuk - 5.gif


Terrence Malick, provavelmente, assistiu à Guerra e Paz, de Sergei Bondarchuk.

Sergei Eisenstein, Dziga Vertov, Vsevolod Pudovkin, Lev Kuleshov, Aleksandr Dovzhenko, Leonid Trauberg, Grigori Kozintzev, entre outros: nomes da vaguarda do cinema soviético, embora realizassem filmes completamente diversos entre si, que nasceram a partir Revolução de outubro de 1917- e a maioria, devidamente enterrada pelo realismo socialista de Stalin.

Com a distensão política da era Krushev, a produção da ex-URSS voltou a florescer e a ganhar espaço no cenário internacional, embora à nova geração de diretores, ao contrário da anterior mais celebrada, jamais tenha se atribuído qualquer movimento vanguardista. Excetuando-se Andrei Tarkovski, os demais cineastas soviéticos que surgiram no final da década de 50 e nos anos 60 permanecem um tanto obscuros, lembrados ou por obras isoladas ou restritos aos apreciadores mais atentos: Mikhail Kalatozov (Palma de Ouro em Cannes com Quando Voam as Cegonhas), Grigori Chukrai (A Balada de Um Soldado), Yosif Kheijfits (A Dama e o Cachorrinho), Sergei Paradjanov (que mergulha na poética e folclore armênio nos devastadores Cavalos de Fogo e A Cor da Romã), Elem Klimov (cujo maior sucesso, Vá e Veja, é de 1985, mas que iniciou a carreira em 1959), e Sergei Bondarchuk, autor da tetralogia Guerra e Paz, adaptada do romance homônimo de Leon Tolstói.

Há duas linhas narrativas em Guerra e Paz I: Andrey Bolkonskiy. Na primeira, acompanhamos o príncipe Andrey durante as guerras napoleônicas: seu desejo pela fama, pelo sucesso e a derrota do exército russo na Batalha de Austerlitz; a relação dura com o pai e a irmã; o tédio na vida a dois; e finalmente o remorso e a desilusão com a morte da esposa para o nascimento do filho. Na segunda, temos a ascensão de Pierre Bezukhov, que de intelectual sem posses e repleto de dúvidas, torna-se conde, casa-se e fere em duelo o suposto amante de sua mulher. Andrey e Pierre são melhores amigos, mas expressam visões distintas da existência: Andrey, fatalista, revolta-se contra a pequeneza dos homens, para os quais os processos da vida e da morte permanecem inacessíveis; enquanto Pierre, otimista, maravilha-se com o mistério insondável que a natureza lhe oferece.

Embora Bondarchuk se centre principalmente nos dois amigos, Guerra e Paz I: Andrey Bolkonskiy se abre a infindáveis tramas paralelas, que cruzam ou não o percurso dos heróis. A longa duração da tetralogia - 7 horas - permite ao cineasta esmiuçar cada ínfimo detalhe dos acontecimentos e das emoções dos personagens: as festas organizadas pela família do conde Rostov, cuja filha Natasha será o grande amor de Andrey; os temores dos soldados nos campos de batalhas; a insuspeita vida privada do oficial que duela com Pierre; as decisões dos generais e a presença ameaçadora de Napoleão; a decadência e a frivolidade da aristocracia russa.

A combinação de detalhismo e grandiosidade, contudo, faz parte da estratégia de Bondarchuk. Guerra e Paz I: Andrey Bolkonskiy disseca tanto os interiores palacianos quanto a vastidão das paisagens naturais para mostrar o significado do indivíduo - de seus sentimentos e atos, de suas aspirações e crenças - frente à História e aos ciclos de vida e morte que se desenrolam, aparentemente à sua revelia. Qual o lugar de Andrey e de Pierre, que papéis desempenham na família, na sociedade, no país e na Europa (as guerras napoleônicas), na natureza, entre os seres vivos? As relações do homem com o passado, com o presente, com o espaço-tempo, com Deus.

Guerra e Paz I: Andrey Bolkonskiy remete ao cinema de Terrence Malick. Há os mesmos traços formais - longas digressões em off, planos contemplativos da natureza, percepção impressionista dos acontecimentos. Como indicam os subtítulos da tetralogia - com exceção de 1812, todos nomes de personagens (Andrey Bolkonskiy, Natasha Rostova, Pierre Bezukhov) -, Bondarchuk se exprime através de olhos internos à narrativa. Na excepcional primeira seqüência no campo de batalha, por exemplo, somos bombardeados pelas diferentes vozes dos soldados, cada um com seu respectivo ponto-de-vista, formando assim todo heterogêneo, complexo e multiforme. Semelhante ao que ocorre em Além da Linha Vermelha e nos demais filmes de Malick, Guerra e Paz I: Andrey Bolkonskiy pode ser interpretado como a ação civilizatória do homem - e nada mais civilizado que a guerra - que profana a obra divina e a natureza.

Assim como a vanguarda revolucionária dos anos 20, a geração de cineastas que surgiu na esteira do fim do stalinismo sucumbiu às perseguições políticas e à burocracia estatal, intensificadas quando Brejnev alcançou o poder. Tarkovski se exilou na Itália e enviaram Paradjanov à Sibéria, enquanto Bondarchuk foi obrigado a se alistar ao Partido Comunista. Mas ao falecer, em 1994, aos 74 anos, o cineasta de Guerra e Paz pôde ver a Rússia e sua Ucrânia natal livres da ditadura.

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agosto 01, 2007

Serrault no Cinemaison

Na Maison de France, 6 de agosto (segunda-feira), homenagem a Michel Serrault:

18h - Cidadão Sob Custódia (Garde à Vue), 1981, de Claude Miller.

20h - Negócios à Parte (Rien Ne Va Plus), 1997, de Claude Chabrol.

A Cinemateca do MAM poderia exibir Bergman e Antonioni também, para aproveitar. Só peço que variem o repertório, pois não agüento mais:

a) Profissão Repórter, As Amigas e A Noite (Antonioni);

b) Morangos Silvestres, O Sétimo Selo, Prisão e Persona (Bergman).

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Luto - Michel Serrault (1928 - 2007)

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Michel Serrault e Lino Ventura em Garde à Vue, 1981, de Claude Miller.

Completando a macabra segunda-feira, Michel Serrault. Confesso que assisti a poucos de seus filmes - vários, já no final da vida, de quando ocupava o posto de "monumento" do cinema francês, com adaptações literárias para a TV, ou encontros de castings estelares, como Les Acteurs.

No entanto, três performances estupendas deste ator que começou no distante 1954: em A Gaiola das Loucas, em Minha Secretária e, sobretudo, em Garde à Vue. Papéis diversos que mostram a riqueza interpretativa de Serrault.

Albin, de A Gaiola das Loucas, foi certamente seu personagem mais famoso: na comédia de Edouard Molinaro, Serrault é o lado feminino, frágil, do casal gay formado com Ugo Tognazzi, variando entre a doçura e a histeria, com os pés fincados no exagero.

Em Minha Secretária, último longa-metragem de Claude Sautet, o ator, ao contrário do Albin de A Gaiola das Loucas, apresenta-se contido, sério, emocionalmente tenso, impenetrável. A relação que estabelece com Emmanuelle Béart, embora amistosa e cordial, também é fria e distante - o preço a pagar a fim de manter os segredos e a intimidade a salvos do mundo.

A melhor performance de Michel Serrault, todavia, pode ser vista em Garde à Vue, de Claude Miller (que, talvez pela única vez, acertou em cheio) - o advogado que duela, no interrogatório, com o policial de Lino Ventura, no jogo para descobrir ou ocultar a verdade: ele estuprou ou não a menina? Serrault transmite ambigüidade, cinismo, desfaçatez, ironia, calma, frieza, elegância e força em 86 minutos de filme.

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