Luto - Michelangelo Antonioni (1912 - 2007)
Zabriskie Point, 1970, de Michelangelo Antonioni.
Ainda não tive tempo de escrever sobre Michel Serrault, e descubro que Antonioni também morreu! Pela madrugada... Coloco aqui dois textos sobre Antonioni, dos quais concordo, embora apresentem visões completamente diferentes:
"Não gosto de me alongar nas coisas. Um dos motivos de me entediar tanto com Antonioni - aquela coisa de achar que uma boa tomada vai ficar melhor ainda se você continuar olhando para ela. Ele lhe dá um plano aberto de alguém andando pela rua, da cabeça aos pés. E você pensa: Bom, ele não vai levar essa mulher até o fim da rua. Mas leva. Aí a mulher some e você continua olhando a rua, depois de ela ter sumido". (Orson Welles).
"Repetidas vezes quiseram encontrar a unidade de sua obra nos temas prontos da solidão e da incomunicabilidade, como característicos da miséria do mundo moderno. No entanto, segundo ele, andamos com dois passos bem diferentes, um para o corpo, um para o cérebro. Num belo texto ele explica que nosso conhecimento não hesita em se renovar, em enfrentar grandes mutações, enquanto nossa moral e nossos sentimentos permanecem prisioneiros de valores inadaptados, de mitos nos quais ninguém mais acredita, e só encontram, para se libertar, pobres expedientes, cínicos, eróticos ou neuróticos. Antonioni não critica o mundo moderno, em cujas possibilidades acredita profundamente: critica no mundo a coexistência de um cérebro moderno e de um corpo cansado, estragado, nevrosado. Tanto assim que sua obra passa fundamentalmente por um dualismo que corresponde aos dois aspectos da imagem-tempo: um cinema do corpo, que põe todo o peso do passado no corpo, todos os cansaços do mundo e a neurose moderna; mas também um cinema do cérebro, que descobre a criatividade do mundo, suas cores suscitadas por um novo espaço-tempo, suas potências multiplicadas pelos cérebros artificiais. Se Antonioni é um grande colorista, é porque sempre acreditou nas cores do mundo, na possibilidade de criá-las e de renovar todo o nosso conhecimento cerebral. Não é um autor que lastima a impossibilidade de comunicar no mundo. Simplesmente, o mundo é pintado com cores esplêndidas, enquanto os corpos que o povoam são ainda insípidos e incolores. O mundo espera por seus habitantes, que ainda estão perdidos na neurose. Mais uma razão, porém, para prestar atenção nos corpos, para escrutar os cansaços e as neuroses, tirar matizes deles. A unidade da obra de Antonioni é o confronto do corpo-personagem com seu cansaço e passado, e do cérebro-cor com todas as possibilidades futuras, mas compondo ambos um único e mesmo mundo, o nosso, com suas esperanças e desespero". (Gilles Deleuze).
Pensando melhor, talvez não sejam tão opostos entre si assim. Ambos rejeitam os clichês: Deleuze na teoria que diagnostica o cinema de Antonini, Welles na prática de seus próprios filmes - que o leva a desprezar, por negação, os do italiano.
No entanto, tanto em Deleuze quanto em Welles, surge a idéia de apropriação indevida das formas empregadas por Antonioni pelos copiadores sem talento. E, de fato, os dois cineastas que faleceram ontem - Antoninio e Bergman - foram terreno fértil para aqueles que enxergam o cinema através de falsas categorias estéticas ("filmes de arte", por exemplo).
Posso resumir minha história com Michelangelo Antonioni a partir da primeira vez em que assisti a Deserto Vermelho. Lutei, durante toda a exibição, para não dormir. Contudo, assim que Monica Vitti, no porto, abre-se e conta todas suas emoções para o marinheiro desconhecido que sequer entra em quadro, percebi que estava diante de uma obra extraordinária.
Momento de rara beleza que, infelizmente, não encontrei no youtube. Vou baixar o filme e corrigir esta falha.




