julho 31, 2007

Luto - Michelangelo Antonioni (1912 - 2007)


Zabriskie Point, 1970, de Michelangelo Antonioni.

Ainda não tive tempo de escrever sobre Michel Serrault, e descubro que Antonioni também morreu! Pela madrugada... Coloco aqui dois textos sobre Antonioni, dos quais concordo, embora apresentem visões completamente diferentes:

"Não gosto de me alongar nas coisas. Um dos motivos de me entediar tanto com Antonioni - aquela coisa de achar que uma boa tomada vai ficar melhor ainda se você continuar olhando para ela. Ele lhe dá um plano aberto de alguém andando pela rua, da cabeça aos pés. E você pensa: Bom, ele não vai levar essa mulher até o fim da rua. Mas leva. Aí a mulher some e você continua olhando a rua, depois de ela ter sumido". (Orson Welles).

"Repetidas vezes quiseram encontrar a unidade de sua obra nos temas prontos da solidão e da incomunicabilidade, como característicos da miséria do mundo moderno. No entanto, segundo ele, andamos com dois passos bem diferentes, um para o corpo, um para o cérebro. Num belo texto ele explica que nosso conhecimento não hesita em se renovar, em enfrentar grandes mutações, enquanto nossa moral e nossos sentimentos permanecem prisioneiros de valores inadaptados, de mitos nos quais ninguém mais acredita, e só encontram, para se libertar, pobres expedientes, cínicos, eróticos ou neuróticos. Antonioni não critica o mundo moderno, em cujas possibilidades acredita profundamente: critica no mundo a coexistência de um cérebro moderno e de um corpo cansado, estragado, nevrosado. Tanto assim que sua obra passa fundamentalmente por um dualismo que corresponde aos dois aspectos da imagem-tempo: um cinema do corpo, que põe todo o peso do passado no corpo, todos os cansaços do mundo e a neurose moderna; mas também um cinema do cérebro, que descobre a criatividade do mundo, suas cores suscitadas por um novo espaço-tempo, suas potências multiplicadas pelos cérebros artificiais. Se Antonioni é um grande colorista, é porque sempre acreditou nas cores do mundo, na possibilidade de criá-las e de renovar todo o nosso conhecimento cerebral. Não é um autor que lastima a impossibilidade de comunicar no mundo. Simplesmente, o mundo é pintado com cores esplêndidas, enquanto os corpos que o povoam são ainda insípidos e incolores. O mundo espera por seus habitantes, que ainda estão perdidos na neurose. Mais uma razão, porém, para prestar atenção nos corpos, para escrutar os cansaços e as neuroses, tirar matizes deles. A unidade da obra de Antonioni é o confronto do corpo-personagem com seu cansaço e passado, e do cérebro-cor com todas as possibilidades futuras, mas compondo ambos um único e mesmo mundo, o nosso, com suas esperanças e desespero". (Gilles Deleuze).

Pensando melhor, talvez não sejam tão opostos entre si assim. Ambos rejeitam os clichês: Deleuze na teoria que diagnostica o cinema de Antonini, Welles na prática de seus próprios filmes - que o leva a desprezar, por negação, os do italiano.

No entanto, tanto em Deleuze quanto em Welles, surge a idéia de apropriação indevida das formas empregadas por Antonioni pelos copiadores sem talento. E, de fato, os dois cineastas que faleceram ontem - Antoninio e Bergman - foram terreno fértil para aqueles que enxergam o cinema através de falsas categorias estéticas ("filmes de arte", por exemplo).

Posso resumir minha história com Michelangelo Antonioni a partir da primeira vez em que assisti a Deserto Vermelho. Lutei, durante toda a exibição, para não dormir. Contudo, assim que Monica Vitti, no porto, abre-se e conta todas suas emoções para o marinheiro desconhecido que sequer entra em quadro, percebi que estava diante de uma obra extraordinária.

Momento de rara beleza que, infelizmente, não encontrei no youtube. Vou baixar o filme e corrigir esta falha.

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Convite


Fred Astaire e Ginger Rogers, dançando "Carioca", em Flying Down to Rio.

I´d like to try this thing just once. Come on, Flower. I do love you!

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julho 30, 2007

Luto - Ingmar Bergman (1918 - 2007)


Gritos e Sussurros, 1972, de Ingmar Bergman.

Eu costumava dizer que Bergman era imortal, pois firmara o seguinte pacto com Deus: "Eu Te filmo, e Você não me mata".

Claro que havia muita ironia na frase, porque brincava com os clichês nos quais todos se habituaram a enxergá-lo - inclusive, diria, ele próprio: filmes carregados de solidão, silêncio, incompreensão entre as partes, relacionamentos pessoais destruídos, culpa, sexualidade doentia, busca pelo Mistério representado por Deus, descrença, velhice, Morte.

Cinema com odor cadavérico.

No entanto, a principal qualidade (e característica) de Bergman estava, curiosamente, na forma como ele conseguia se renovar. Embora tenha passado os últimos anos de sua vida falando mal de todos os seus contemporâneos, o diretor sueco os assistiu e os incorporou, na constante procura por um "estilo", na tentativa e no erro.

O melhor do cineasta, para mim, encontra-se quando ele abandona seus fãs, larga os tiques do que se convencionou chamar de "bergmaniano" - filmes como Cenas de Um Casamento, Face a Face, O Rito, O Ovo da Serpente, Sonata de Outono -, e retorna à sua pratica no teatro, para dirigir ensaios: a montagem a partir de Fellini (A Hora do Lobo), o ensaio sobre Kurosawa (A Fonte da Donzela), a produção a la Godard (A Paixão de Ana), a homenagem ao grande Victor Sjostrom (Morangos Silvestres), os ecos de Renoir em Sorrisos de Uma Noite de Amor.

Tão súbito tenha visto O Sétimo Selo, aconselho assistir a A Flauta Mágica. Não parece, mas ambos foram dirigidos por Bergman, que conduz sua adaptação da ópera de Mozart com leveza e alegria incomparáveis.

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Top 10 Bergman

Dia negro para o cinema, com as mortes de Ingmar Bergman e de Michel Serrault. De noite, quando tiver mais tempo, escrevo sobre ambos. Por enquanto, meus favoritos do cineasta sueco que, como Fellini, Kubrick ou Kurosawa, ao nos deixar, ultrapassa a arte e se transforma em mito.

1. Gritos e Sussurros, 1972
2. A Flauta Mágica, 1975
3. O Silêncio, 1963
4. Fanny e Alexander, 1982
5. Juventude, 1951
6. A Paixão de Ana, 1969
7. Segredos das Mulheres, 1952
8. A Hora do Lobo, 1968
9. Persona, 1966
10. O Sétimo Selo, 1957

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julho 29, 2007

Comunidades no Orkut e E-mule

Criei, mas esqueci de dizer: tenho duas comunidades no Orkut.

- Para Jean-Pierre Melville (http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=33420081)

- Para Rithy Panh (http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=33418646)

Ô raiva, passo alguns dias baixando America America, do Elia Kazan, para descobrir que estava dublada em espanhol! Encontrei outra versão, agora espero que correta.

Em compensação, completei O Portal do Paraíso, restaurado em suas quase três horas e meia.

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julho 27, 2007

Veneza

Competição:

Atonement, de Joe Wright (filme de abertura)
The Darjeeling Limited, de Wes Anderson
Sleuth, de Kenneth Branagh
Heya Fawda / Le Chaos, de Youssef Chahine
Redacted, de Brian De Palma
The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, de Andrew Dominik
Nessuna Qualità agli Eroi, de Paolo Franchi
Michael Clayton, de Tony Gilroy
Nightwatching, de Peter Greenaway
En la Ciudad de Sylvia, de José Luis Guerin
In the Valley of Elah, de Paul Haggis
I'm not There, de Todd Haynes
Taiyang Zhaochang Shenqi / The Sun Also Rises, de Jiang Wen
Bangbang wo Aishen / Help Me Heros, de Li Kangsheng
La Graine et le Mulet, de Abdellatif Kechiche
Se, Jie / Lust, Caution, de Ang Lee
It's a Free World..., de Ken Loach
L'Ora di Punta, de Vincenzo Marra
Sukiyaki Western Django, de Takashi Miike
12, de Nikita Mikhalkov
Il Doce e l'Amaro, de Andrea Porporati
Les Amours d'Astrée et Céladon, de Eric Rohmer

Fora de competição:

Cassandra's Dream, de Woody Allen
Cleópatra, de Júlio Bressane
La Fille Coupée en Deux, de Claude Chabrol
Chun-nyun-hack / Beyond the Years, de Im Kwon-taek
Kantoku Banzai! / Glory to the Filmmaker!, de Takeshi Kitano
Cristóvão Colombo - O Enigma, de Manoel de Oliveira

Ótima seleção. Kechiche, Haynes, De Palma, Rohmer, Chahine, Anderson, Miike, Ang Lee...

Claro que Brian De Palma não vai ganhar (embora Abel Ferrara tenha conseguido), e duvido que premiem Lee apenas dois anos depois de Brokeback Mountain. Como Still Life levou em 2006, também acredito que o Leão de Ouro não vai continuar na Ásia. Mais provável que retorne para a Europa.

Expectativas maiores para os novos Haynes (Bob Dylan em vários atores), Chahine, Rohmer (já escrevi post sobre Les Amours d'Astrée et Céladon), Kechiche, De Palma. Curioso para ver como Kenneth Branagh refilmou Sleuth - original de Joseph Mankiewicz, com Laurence Olivier e Michael Caine no elenco -, e para conferir a volta de Mikhalkov.

Acredito que Mikhalkov e Rohmer não sairão de mãos abanando, embora sem o prêmio principal.

Preocupado com Ken Loach, pois o título não é dos mais animadores. Espero que Paul Haggis se inspire mais no roteirista de Clint Eastwood do que no diretor de Crash. E, na ausência de Tsai Ming-Liang, vamos com Li Kangsheng... Quanto aos italianos, desconheço: estou sendo apresentado a eles pela primeira vez.

Mas Peter Greenaway não estava metido com internet? Por que não continuar desaparecido com as maletas de Tulse Luper? Por que dirigir novos filmes? Vaso ruim não quebra.

Agora, se os fora de competição estivessem no páreo... Que lista! Espero que Bressane apresente trabalho melhor que os últimos, para manter o nível de Manoel de Oliveira (e o próprio atua em Cristovão Colombo, aliás, no alto de seus 98 anos), Chabrol, Im Kwon-taek e Kitano. E o mesmo vale para Woody Allen.

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julho 26, 2007

Citroen e Michael Bay

Sou publicitário formado (e frustrado), e o melhor que pode existir para a propaganda é saber como melhor aproveitar a oportunidade que surge.

Não sei se o anúncio já foi realizado esperando pelo filme. De qualquer maneira, ambos nasceram da mesma idéia, a série animada cult dos anos 80.

Antes da exibição de Transformers, hoje, o Unibanco Arteplex passou a campanha da Citroen, em que o carro se torna robô e começa a dançar.

Certamente, o ponto alto da sessão, uma vez que o filme não presta. Eu me senti de volta a 1900, dada a inoperância do Michael Bay em fazer a montagem alternada funcionar (nem digo que seja paralela, porque seria demais para as pretensões do filme).

Transformers funciona como o panachê de Independence Day, Exterminador do Futuro, Matrix Reloaded, Guerra dos Mundos e Highlander. Sem contar que Michael Bay cita a si próprio - Armageddon... e E-Bay! Que orgulho de ter se vendido...

E onde diabos John Turturro estava com a cabeça para aceitar aquele papel? Deus, ele já ganhou a Palma de Ouro em Cannes!

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julho 24, 2007

Luto - László Kovács (1933 - 2007)

PaperMoon.jpg
Lua de Papel, 1973, de Peter Bogdanovich. Fotografia de László Kovács.

Faleceu, aos 74 anos, o diretor de fotografia László Kovács, colaborador habitual de Peter Bogdanovich - What´s Up Doc?, Lua de Papel, At Long Last Love, Nickelodeon, Mask.

Kovács também fotografou, entre outros, Sem Destino e The Last Movie (ambos de Dennis Hopper), Cada Um Vive Como Quer e The King of Marvin Gardens (ambos de Bob Rafelson), For Pete´s Sake (de Peter Yates), Freebie and the Bean (de Richard Rush), Shampoo (de Hal Hashby), F.I.S.T (de Norman Jewison), New York New York (de Martin Scorsese), The Runner Stumbles e The Toy (os dois de Richard Donner), Os Caça-Fantasmas (de Ivan Reitman) e Crackers (de Louis Malle).

Porém, a contribuição mais extraordinária de Kovács ocorreu ainda na Hungria natal, ao lado do amigo e compatriota - e cracaço da fotografia - Vilmos Zsigmund: estudantes, eles filmaram, com o equipamento que puderam encontrar, o levante húngaro contra a ocupação soviética em 1956. Fugiram, com 10.000 pés de negativos contrabandeados, para a Áustria, e de lá se exilaram nos EUA.

O material registrado pelos dois está no filme Magyarország lángokban (Hungary in Flames).

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Vojna i Mir

vojaimir.jpg

Comecei a baixar Vojna i Mir, ou Guerra e Paz, de Sergei Bondarchuk. Morro de curiosidade para vê-lo: é a famosíssima adaptação do clássico de Lev Tolstoi, que estabeleceu alguns recordes no cinema.

- São quase oito horas de filme, divididas em quatro partes.

- O projeto se estendeu de 1961 a 1968.

- Gastou, acredita-se, cerca de US$ 100 milhões, o que ainda a tornaria a obra mais cara já realizada (levando-se em conta a inflação do período).

- Reune até hoje o elenco mais numeroso e a maior quantidade de extras - soldados do Exército Vermelho! - dentre qualquer produção cinematográfica.

No entanto, diz-se que a grandiosidade de Vojna i Mir equivale a seu prestígio artístico.

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julho 22, 2007

Bresson no Cinemaison

Na Maison de France, duas sessões duplas com Robert Bresson.

Dia 23, amanhã, As Damas do Bosque de Boulogne, às 18h, seguido por O Processo de Joana D´Arc, às 20h.

Na outra segunda-feira, dia 30, passam A Grande Testemunha, às 18h, e Mouchette, às 20h.

É verdade que os quatro filme são habitués de mostras no RJ. Já perdi a conta de quantas vezes os vi no cinema. Mas são obras-primas que merecem a tela grande, e estão em boas cópias.

Sugiro que o Cinemaison realize outra sessão dupla, com filmes mais raros do cineasta: Une Femme Douce e Lancelot du Lac. Foram exibidos, pelo que lembre, apenas uma vez (cada) nos últimos 5 anos.

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Mundo Grua

O canal Brasil acaba de exibir Mundo Grua, primeiro longa-metragem de Pablo Trapero. Reprisa nesta segunda, dia 23h, às 19h30.

Para mim, é o melhor e mais impressionante da categoria "cinema latino-americano contemporâneo", onde se costuma alocá-lo.

La Niña Santa, de Lucrecia Martel, foi para o segundo lugar.

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julho 21, 2007

O Maior Absurdo de Cannes

Badaladas à Meia-Noite disputou o Festival de Cannes de 1966. Saiu com o Prêmio do 20o. Aniversário (que substituiu o Grande Prêmio do Júri) e o Prêmio Técnico.

Ganharam a Palma de Ouro: Um Homem e Uma Mulher, de Claude Lelouch, e Signore & Signori, de Pietro Germi.

Mas a besteira do júri foi além, já que estavam igualmente em competição A Hora e a Vez de Augusto Matraga (Roberto Santos), O Jovem Törless (Volker Schlondorff - que, ao contrário da maioria de suas demais obras, é excelente), La Religieuse (Jacques Rivette), Gaviões e Passarinhos (Pier Paolo Pasolini), O Segundo Rosto (John Frankenheimer) e Os Sem Esperança (Miklós Jancsó).

Sem contar, entre os selecionados, filmes de Lewis Gilbert (Alfie), Mario Monicelli (O Incrível Exército de Brancaleone), David Lean (Doutor Jivago), Vojtech Jasny (Dymky), Jerzy Kawalerowicz (Faraon), Sergei Yutkevich (Lenin v Polshe), Tony Richardson (Modemoiselle), Joseph Losey (Modesty Blaise), Karel Reisz (Morgan: A Suitable Case for Treatment), Andrzej Wajda (Popioly) e Alf Sjöberg (Ön).

Não assisti a Signore & Signori, mas digo com certeza que Um Homem e Uma Mulher foi a pior escolha possível - enquanto Badaladas à Meia-Noite, que figura no Olimpo cinematográfico, terminou em segundo lugar.

Em 1966, Cannes foi presidido por Sophia Loren. Os demais culpados: Marcel Achard, Vinícius de Moraes, Tetsuro Furukaki, Maurice Genevoix, Jean Giono, Maurice Lehmann, Richard Lester, Denis Marion, André Maurois, Marcel Pagnol, Yuli Raizman, Armand Salacrou e Peter Ustinov.

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Beijos


Cinema Paradiso, 1988, de Giuseppe Tornatore.

Os beijos nasceram quando a câmera se aproximou para filmá-los em close-up.

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julho 19, 2007

Não Pare... Continue!

amantescontemplandolaluna.jpg

Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas, e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros ?

Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me pressa
A alma, que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:

E és tão pouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética e indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!

Imagem: Amantes Contemplando la Luna, de Rufino Tamayo.
Texto: Soneto da Lua, de Vinícius de Moraes.

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Peerre Simpson

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Eu de Simpson.

Para descobrirem como ficam amarelinhos, só conferir o site http://www.simpsonizeme.com.

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A Mocidade de Lincoln - Parte 2


Abe e Ann Rutledge em A Mocidade de Lincoln, 1939, de John Ford.








Comentário em áudio sobre a seqüência (cerca de 28 minutos).

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julho 16, 2007

A Mocidade de Lincoln, Parte 1

Finalmente decidi me debruçar sobre meu filme predileto: A Mocidade de Lincoln, de John Ford. Escolhi o comentário em áudio ao texto pois, embora mais impreciso e gaguejante, permite também maior exposição de idéias.

Pretendo analisar o máximo de seqüências que puder, de maneira que este é somente o primeiro post a respeito do melhor filme de todos, A Mocidade de Lincoln.


A Mocidade de Lincoln, 1939, de John Ford.








Comentário em áudio sobre a seqüência (cerca de 20 minutos).

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julho 14, 2007

Capítulo 19: No Qual Tistu Faz Uma Última Descoberta


Always do what is right, because it is right.

As histórias nunca param onde a gente imagina. Vocês pensavam talvez que tudo já estivesse dito, e que já conhecessem Tistu muito bem. Pois fiquem sabendo que nunca conhecemos ninguém completamente. Nossos melhores amigos reservam sempre surpresas.

É claro que Tistu já não fazia mistério a respeito do polegar verde. Ao contrário, falava-se muito disto, e Tistu se tornara menino célebre, não só em Mirapólvora (perdão, Miraflores), mas no mundo inteiro.

A fábrica ia às mil maravilhas. As nove chaminés estavam cobertas, até em cima, de trepadeiras e flores exuberantes. As oficinas recendiam os mais raros perfumes.

Fabricavam-se tapetes de flores para o chão das casas e tapeçarias para substituir as cortinas e o papel de parede. Os jardins eram despachados em vagões. O Sr. Papai tinha até recebido uma encomenda de tapa-arranha-céu, porque as pessoas que viviam nos apartamentos eram freqüentemente, ao que se dizia, tomadas de uma espécie de febre, que as levava a se jogarem pela janela do centésimo-trigésimo andar. Vivendo tão distantes da terra, é compreensível que não se sentissem muito normais, e julgava-se que as flores fariam passar aquelas vertigens.

Bigode tornara-se o grande conselheiro das culturas. Tistu não cessava de aperfeiçoar sua arte. Agora, ele inventava flores. Chegara a criar a rosa azul, de que cada pétala parecia um pedaço do céu. E fora bem sucedido em duas novas variedades de girassol: o girassol nascente, cor de aurora, e o girassol poente, entre púrpura e cobre.

Quando acabava, ia brincar no jardim com a menina que havia sarado. Ginástico só comia do melhor trevo branco.

- Então, está contente agora? - disse um dia o pônei a Tistu.

- Sim, estou muito contente! - respondeu Tistu.

- Você não se aborrece?

- De modo algum.

- Não sente vontade de nos deixar? Vai ficar conosco?

- Mas é claro. Por que essas perguntas engraçadas?

- Uma idéia...

- O que é que você quer dizer? Já não acabou a minha história? - perguntou Tistu.

- Vamos ver... vamos ver... - disse o pônei, pondo-se a roer seus trevos.

Daí a algumas manhãs, uma notícia correu pela Casa-que-Brilha, deixando todos muito tristes. O jardineiro Bigode não despertara.

- Bigode resolveu descansar para sempre - explicou Dona Mamãe a Tistu.

- Posso ir vê-lo dormir?

- Não, não pode. Você não pode mais vê-lo. Partiu para uma viagem longa, muito longa, e nunca mais voltará.

Tistu não compreendia direito. "Não se viaja de olhos fechados, pensou ele. Se está dormindo, podia ter me dado boa noite. E se partiu, podia ter me dito adeus. Isto não está nada claro; estão me escondendo alguma coisa."

E foi sondar a cozinheira Amélia.

- O coitado do Bigode está no céu; agora é mais feliz que nós - disse Amélia.

"Se é feliz, por que dizer que é coitado? Se é coitado, como poderá ser feliz?" perguntava-se Tistu.

Cárolo tinha ainda uma outra opinião. Segundo ele, Bigode estava debaixo da terra, no cemitério.

Era uma contradição.

Debaixo da terra ou no céu? Era preciso decidir. O jardineiro não podia estar por toda parte ao mesmo tempo.

Tistu foi ao encontro de Ginástico.

- Eu sei - disse o pônei. - Bigode morreu.

Ginástico dizia sempre a verdade. Era um de seus princípios.

- Morreu? - exclamou Tistu. - Mas não houve guerra...

- Não é preciso guerra para morrer - respondeu o pônei. - A guerra é apenas uma ajudante da morte... Bigode morreu porque era muito velho. Toda vida termina assim.

Tistu teve a impressão de que o sol perdia o seu brilho, o prado se tornava escuro e o ar difícil de respirar. São os sinais de um incômodo que as pessoas grandes pensam que só elas sentem, mas que as pessoinhas da idade de Tistu sentem também, e que se chama desgosto.

Tistu envolveu com seus braços o pescoço do pônei e pôs-se a chorar na sua crina.

- Chora, Tistu, chora - dizia Ginástico. - É preciso. As pessoas grandes não querem chorar, e fazem mal, porque as lágrimas gelam dentro delas, e o coração fica duro.

Mas Tistu era um menino diferente, que não se dobrava em face da desgraça antes de lhe pôr o dedo em cima.

Enxugou suas lágrimas e pôs um pouco de ordem em suas idéias.

"No céu ou debaixo da terra?" - repetia ele.

Resolveu ir ver de perto. No dia seguinte, após o almoço, saiu do jardim e correu até o cemitério, um pouco no flanco da colina. Um cemitério bonito, cheio de árvores e nada triste.

"Parecem chamas da noite a brilhar durante o dia", pensou Tistu ao passar pelos ciprestes negros.

Viu um jardineiro, de costas, varrendo uma aléia. Sentiu de repente uma louca esperança... Mas o jardineiro voltou-se. Era um simples jardineiro de cemitério, sem a menor semelhança com o que Tistu procurava.

- Por favor, o senhor sabe onde está o Sr. Bigode? - perguntou-lhe Tistu.

- Terceira aléia à direita - respondeu o jardineiro, sem interromper o trabalho.

"Então é aqui mesmo..." - concluiu Tistu.

Seguiu a direção indicada, caminhou entre as sepulturas e deteve-se diante da última, novinha em folha. Na lápide de pedra lia-se esta inscrição, composta pelo professor:

Aqui jaz Mestre Bigode,
jardineiro dos melhores.
Uma lágrima por ele,
que foi amigo das flores.

E Tistu pôs mãos à obra. "Bigode não poderá resistir a uma peônia. Sentirá vontade de conversar com ela", pensava Tistu. Enterrou o polegar no chão, e esperou alguns instantes. A peônia brotou do solo, subiu, desabrochou, e inclinou a cabeça, pesada como um repolho, por sobre a inscrição da lápide. E ele fez surgirem jacintos, cravos, lilases, mimosas e angélicas. A sepultura, em poucos minutos, viu-se cercada de um bosque. Mas continuou sepultura.

"Talvez uma flor que ele não tenha conhecido, pensou ainda Tistu. Mesmo quando a gente está muito cansado, a curiosidade atrai..."

Mas a morte zomba dos enigmas. Ela é que os propõe.

Uma hora inteira Tistu lançou mão da mais fértil fantasia para fabricar plantas jamais sonhadas. Inventou, assim, a flor-borboleta, com dois pistilos em forma de antena e duas pétalas estendidas, que se agitavam à menor brisa. Tudo em vão.

Quando foi embora, de mão suja, cabeça baixa, deixava atrás de si a mais surpreendente sepultura que se tenha visto num cemitério. Mas Bigode não respondera.

Tistu atravessou o prado, em busca de Ginástico.

- Você já sabe, Ginástico...

- Sim, eu sei - respondeu o pônei. - Você descobriu que a morte é o único mal contra o qual as flores nada podem...

- E, como o pônei era um moralista, acrescentou:

- É por isso que os homens são muito tolos ao procurar se prejudicarem uns aos outros, como fazem constantemente.

Tistu, de nariz para cima, olhava as nuvens e refletia.

Texto: O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon.
Filme: Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood.

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julho 13, 2007

Novo Sistema de Cotações

Agora utilizo o mais comprovado e eficiente sistema de cotações do planeta: as estrelas da rede hoteleira.

Com exceção da bola preta - licença poética minha -, as estrelas correspondem precisamente à classificação dos hotéis. Deluxe, superior, primeira classe, moderado e econômico são os nomes que elas recebem de verdade, não os inventei.

Outra mudança: ao invés de apenas os filmes mais recentes, passo a listar todos os que vi nos cinema em 2007. Preciso recuperá-los, claro, hoje lembrei-me de alguns poucos.

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julho 10, 2007

Histórico

Pela primeira vez - bom, a segunda, também cravei o vencedor com Pai e Filha, de Michael Dudok de Wit, em 2000 (época em que acompanhava pouco o festival, contudo) - o júri oficial do Anima Mundi concordou comigo!

O prêmio de melhor animação foi para Moya Lyubov (Meu Amor), de Aleksandr Petrov, o mesmo que ganhara o Oscar por O Velho e o Mar.

Em tempos de animação por computador - mesmo as que utilizam técnicas tradicionais são finalizadas digitalmente -, Petrov trabalha de forma artesanal, com pintura a óleo sobre vidro, espalhada com os dedos. Cada placa é uma obra-de-arte em si mesma.

Para realizar os 26 minutos e 35 segundos de Moya Lyubov (seu filme mais longo), Aleksandr Petrov pintou cerca de inacreditáveis 38.760 placas de vidro, todas diferentes entre si, fotografadas quadro-a-quadro.

Estou baixando os curtas-metragens de Petrov disponíveis no e-mule, e pretendo escrever sobre o cineasta. Enquanto isso, fiquem com trecho de quase 3 minutos de Moya Lyubov - com legendas em Esperanto!. Seja lá quem o colocou no Youtube, escolheu justo o belíssimo travelling / panorâmica que atravessa a cidade em meio à tempestade que se afigura...


Moya Lyubov, de Aleksandr Petrov: obra-prima.

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julho 09, 2007

Resposta do Desafio

Há 55 planos na seqüência final de 13 segundos de O Homem com a Câmera.

Incrível.

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Melhores do Anima Mundi - Top 20

Este ano, ao contrário dos anteriores, não incluí os curtas das retrospectivas na lista - comparar Norman McLaren, John Weldon e UPA com os demais é covardia. Desse modo, os 20 melhores a que assisti:

1. Moya Lyubov, de Aleksandr Petrov
2. Na Skal Du Hore, de Pjotr Sapegin
3. Everything Will Be Ok, de Don Hertzfeld
4. The Danish Poet, de Torill Krove
5. The Cleaner, de Dustin Rees
6. Haunted Hogmanay, de Neil Jack
7. Lavatory-Lovestory, de Konstantin Bronzit
8. Lapsus, de Juan Pablo Zaramella
9. Caution, The Doors Are Opening!, de Anastasia Zhuravleva
10. Die Erde Ist Rund, de Jadwiga Krystyna Kowalska
11. Weird Al Yankovic "Don't Download This Song", de Bill Plympton
12. The Chamber, de Yu Seock Hyun
13. Notice, de Roelof Van Den Bergh
14. The Runt, de Andreas Hykade
15. Silence Is Golden, de Chris Sheperd
16. Vida Maria, de Marcio Ramos
16. Liebeskrank, de Ute Dilger
18. Recto Verso, de Gabriel Jacquel
19. Off Beat, de Will Becher
20. Story Ville, de Patrick Krafft, Florian Mounie, Marion Nove Josserand

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julho 07, 2007

Trágica

Comemoram-se hoje os 147 anos de Gustav Mahler (nasceu na Boêmia, então parte do Império Austro-Húngaro, em 7 de julho de 1860). Posto abaixo, completa, a Sinfonia no. 6 em Lá Menor, "Trágica", pela Rudfunk-Sinfonieorchester Saarbrücken, sob a regência de Hans Zender. Minha música favorita. O texto foi extraído do livro "Mahler", de Michael Kennedy.

Com a Sexta Sinfonia em lá menor, Mahler deu outro e versátil passo em seu desenvolvimento como músico. É uma obra trágica, mas é a tragédia num plano elevado, clássica na concepção e na execução. Descrever essa música no jargão do divã do psicanalista, em termos de neuroses e complexos, é denegrir seu espírito sutilmente acerado. Pois, ainda que seja de superlativa sensibilidade e receptividade, é também a música de um homem valente e de coração nobre em luta com medos, dúvidas e sinais, mas que se mantém resoluto, mesmo na derrota. Embora séria, não é implacavelmente melacólica nem soturna. Mahler conhecia a necessidade de um contraste constante: "Mudança e conflito são e segredo da música eficaz". Em todas as suas obras, ele atribui imensas responsabilidades ao regente, mas em nenhuma delas mais que nas últimas cinco sinfonias. Não só deve a arquitetura de cada obra ser apreendida de forma abrangente, mas tem que haver apreciação aguda da necessidade de uma contínua flutuação de variações de ritmo.

O próprio Mahler considerou a Sexta difícil de reger e profetizou corretamente que o dia dessa sinfonia só chegaria quando maestros, orquestras e públicos estivessem familiarizados com a obra dele. Durante anos, a Sexta raramente foi tocada - os EUA só a ouviram quando Mitropoulos a regeu em Nova York em 1947 -, mas esse lamentável estado de coisas já não prevalece e hoje está claro que, tomada em seu todo, essa é provavelmente (eu diria certamente) a maior sinfonia de Mahler. Este reviu-a diversas vezes, alterando inclusive a ordem original (scherzo, andante) dos dois movimentos centrais, mas depois mudava de idéia. Existem argumentos para ambos os lados, dependendo de a tonalidade ou a lógica emocional ser o que mais fortemente afeta o ouvinto. Mahler, como vimos, foi profundamente afetado pela obra e mais tarde, por superstição, eliminou a terceira das três "pancadas do destino" do finale. Alguns regentes repõem-na.

Não obstante a extensão dessa obra e a enorme orquestra empregada, o argumento sinfônico é comparativamente bem ordenado, tenso e unificado. Uma vez mais, o intervalo favorito de Mahler de uma quarta é explorado em toda a sua capacidade, mas a principal característica orgânica do material temático é o motivo de tragédia, o acorde maior-menor, ouvido em primeira instância como um sonoro acorde comum que se vai dissipando aos poucos enquanto a terça maior é convertida em menor. O ritmo no acampanhamento, marcado lá, impregna a sinfonia.








1o. Movimento. Allegro energico, ma non troppo (cerca de 18 minutos).

Muito depende da interpretação dos compassos iniciais. Nada de verão desta vez, mas a "música moderna" participa com esse começo sinistro e errante. É marcado allegro energico, ma non troppo, e isso é reforçado por uma instrução adicional em alemão: Hefting, aber markig (veemente, mas cheio de vigor). Se, como acontece muitas vezes (infelizmente), só são observados o energico e o heftig, sem o restritivo limite de velocidade, o desastre segue-se inevitavelmente e o movimento, em vez de trágico, torna-se meramente agressivo e estridente. É certo que a veemência e a fúria estão presentes, mas, se for permitido que se tornem ferocidade desenfreada, perde-se o propósito da obra. Aqueles que consideram Mahler um compositor indisciplinado poderiam estudar com proveito o plano desse primeiro movimento e notar, em especial, a circunspecção com que ele trata o segundo sujeito em fá maior (que Alma dizia retratá-la) - um reconfortante mas não super-romantizado contraste com a marcha de abertura, embora já tivesse sido pronunciado no grupo do primeiro sujeito.

O ouvinte interessado pode detectar um som tipo Heldenleben (vida heróica) na riqueza de boa parte da orquestração. Ironicamente, pois Mahler qualificava a si mesmo como um compositor "à moda antiga", foi a "audácia de harmonia" dessa sinfonia o que Schoenberg mais admirou. Alban Berg ficou igualmente impressionado, descrevendo-a a Webern como "a única Sexta, apesar da Pastyoral" - um tributo sem significação especial, mas, de qualquer modo, bem-intencionado. Talvez ele estivesse pensando em três episódios notavelmente imaginativos nesse movimento: um em que os guizos de trenó na Quarta Sinfonia parecem estar deliberadamente distorcidos; o segundo em que Mahler evoca o som dos chocalhos de vacas ouvidos a distância quando se está nas alturas dos Alpes, passagem de inesquecível poesia, sobrenatural, os chocalhos lembrando estranhamente um eletrônico ruído espectral e pastoril; e terceiro, uma igualmente estranha evocação, dessa vez com a celesta fazendo sua estréia sinfônica e sugerindo ecos setecentistas em meio ao Sturm und Drang do século XX. Os chocalhos, explicou Mahler, "são os últmos sons terrenos ouvidos do vale bem embaixo pelo espírito que se evola do topo da montanha". Também é evidente que esse som lhe recordou vividamente a juventude. Quando tinha 19 anos, descreveu ao seu amigo Steiner "lembranças nebulosas de minha vida, desfilando diante de mim como espectros há muito esquecidos". Entre essas lembranças ele especificou um "prado onde os chocalhos das vacas embalam meus sonhos" e "os sinos do entardecer que chegavam da aldeia lá embaixo".








2o. Movimento. Scherzo, Wuchtig (cerca de 12 minutos).

O scherzo também abre com um forte ritmo de tropel, mas é um erro interpretativo fatal não diferenciar entre os ritmos do primeiro movimento e esse scherzo. É um movimento notável e evanescente. Em 15 linhas a respeito dele, o excelente scholar Hans Redlich, depois de lhe descrever como um "sinistro espetáculo hoffmanesco de fantoches" (por causa do xilofone", usa os adjetivos "espectral", "fantasmagórico", "diabólico", "exótico", "catastrófico", "lúgubre", "escaldante", "sinistro" e "demoníaco". Mahler, ao que me parece, realizou seu propósito com mais sutileza. Não seria o caso de as experiências pessoais de Hans Redlich e de outros como ele, o exílio forçado da Alemanha e da Áustria fugindo ao flagelo do nazismo, terem distorcido as reações deles a certos aspectos da música de Mahler, emprestando-lhe uma associação pessoal específica que - de forma bastante compreensiva - sobrecarregou sua substância com uma intensidade quase histérica? Cada ouvinte, é claro, pode interpretar a música de acordo com a própria imaginação. Há humor sardônico subjacente, breves sugestões da passagem de trompa do scherzo da Quinta e alguns delicados pastiches haydnescos de inesgotável charme que preparam o caminho para o trio altväterisch com seu elegante oboé. O movimento termina com uma passagem enigmática - rufar de tambores, flautas, violino solo - inteiramente de acordo com a atmosfera trágica da sinfonia.








3o. Movimento. Andante moderato (cerca de 13 minutos).

Para o tema principal do andante moderato em mi bemol maior, Mahler refere-se a uma das Kindertotenlieder, mas o movimento é suave, melodioso, relaxado e até idílico, na forma de um rondó lento. Os chocalhos são ouvidos de novo, a trompa soa romanticamente. A circunspecção é, uma vez mais, a característica dominante, mas a beleza da música pode facilmente levar-nos a passar por alto (como na verdade deve) a consumada habilidade técnica, mormente original e sutil fusão, ou sobreposição, de temas (como no minueto da Terceira Sinfonia e no primeiro movimento da Quarta, onde a seção de desenvolvimento e a recapitulação se encontram tão intrincada e eficazmente interligadas). Terceiro colocado, esse andante constitui um pugente prelúdio para o poder esmagador do imenso finale. Aí, Mahler parece desafiar sua soberba mestria das estruturas em ampla escala e triunfa em toda a linha. Tudo que aconteceu antes é apenas prefácio para esse empolgante ensaio de tragédia, abrindo em dó menor com uma tensa e misteriosa introdução que contém o principal material - turbilhonantes glissandos de harpa, um altaneiro tema de violino, o motivo-tragédia, uma tuba ululante cujo tema é também temperado pelo preponderante ritmo lá e está baseado na oitava ascendente. Entre os demais temas está um sombrio coral das madeiras.








4o. Movimento. Finale. Allegro moderato. (cerca de 27 minutos).

Uma marcha ainda em dó menor encaminha para o allegro enérgico em lá menor, vigoroso e estridente. Os cincerros retornam por duas vezes, fechando uma furiosa marcha. Três vezes o allegro enérgico é interrompido pelo retorno da introdução. Após a primeira interrupção, é reatado com duas seções de desenvolvimento. No momento culminante de cada, ouve-se uma martelada seguida do motivo-tragédia pelos trambones, com os trompetes em uníssino como background. Após o segundo retorno da introdução, o allegro atinge um clímax exultante, mas o motivo tragédia o suspende. É o momento em que ocorre a terceira martelada. Aqueles que esperam um melodramático estrondo metálico para esses golpes, como fez Richard strauss, são desapontados; Mahler especificou uma pancada surda, não-metálica, "como uma machadada", do bombo. A excitação do movimento é cumulativa e intensificada por momentos de lírica expansividade. Está tão repleto de incidentes que parece quase comprimido. Na coda há um majestoso coral bruckneriano para as trompas, como se a perversidade do Destino tivesse sido debelada. Mas, tal como Thomas Hardy, Mahler, o fatalista - pois era isso, muito mais que um pessimista, o que ele realmente era -, acreditava que alguém o estava esperando ao dobrar a esquina para o derrubar com pauladas, e essa poderosa obra termina em seu tom original, com o motivo-tragédia como uma tríade menor em fortíssimo, declinando até se converter no taciturno silêncio da derrota.

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julho 06, 2007

Para Constar

1. Limite, de Mário Peixoto
2. O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha
3. A Idade da Terra, de Glauber Rocha
4. O Mágico e o Delegado, de Fernando Coni Campos
5. A Velha a Fiar / Carro de Boi, de Humberto Mauro
6. Aopção, de Ozualdo Candeias
7. A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos
8. Couro de Gato / Vereda Tropical, de Joaqum Pedro de Andrade
9. Carnaval Atlântida, de José Carlos Burle
10. Rio Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos
11. Nem Tudo É Verdade, de Rogério Sganzerla
12. O Despertar da Besta, de José Mojica Marins
13. O Grande Momento, de Roberto Santos
14. Viagem ao Fim do Mundo, de Fernando Coni Campos
15. Tocaia no Asfalto, de Roberto Pires
16. Edu Coração de Ouro, de Domingos Oliveira
17. Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho
18. O Império do Desejo, de Carlos Reichenbach
19. São Bernardo, de Leon Hirszman
20. Muito Prazer, de David Neves

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Cadê Fernando Coni Campos????

Votação na Paisà sobre os 20 melhores filmes brasileiros:

http://www.revistapaisa.com.br/anteriores/ed9/topslistas.shtm

De 18 críticos perguntados, nenhum - NENHUM! - citou qualquer filme que seja de Fernando Coni Campos. O Mágico e o Delegado, O Homem em Sua Jaula, Ladrões de Cinema, Viagem ao Fim do Mundo... nada.

Não constar em listas individuais, ok... mas no apanhado geral, no conjunto da crítica, sequer ser mencionado... Que horror! Jóias do nosso cinema que não merecem tamanha injustiça.

Outros absurdos: a minguada votação em O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, e o total esquecimento de Roberto Pires.

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julho 05, 2007

Anima Mundi - Curtas 3

Ark, de Grzegorz Jonkajtys - 1estrela.gif
Bandeira, de Antonio Fialho - bolalaranja.gif
The Miystery of Pig City, de Garth Jones e Johnny Luu - bolalaranja.gif
Hauted Hogmanay, de Neil Jack - 4estrelas.gif
Burning Safari, de vários diretores - 1estrela.gif
En Tus Brazos, de François-Xavier Goby, Edouard - 1estrela.gif

Destaque para o escocês Hauted Hogmanay, de Neil Jack, que emula as animações de massinha da Aardman: dois parentes, apenas conhecidos, resolvem investigar, durante o Ano-Novo, fantasma que assombra subeterrâneo da Corte Suprema de Edimburgo. Bem narrado, fortemente calcado no excelente roteiro, o filme se vale do humor negro e da ironia - há inclusive piadas com a pronúncia escocesa do inglês no antológico nome "Morag Lachlan MacLachlan" do espectro, e com o gosto nativo pelo uísque - para celebrar a amizade.

En Tus Brazos mostra o amor da esposa pelo marido tetraplégico, ambos ex-dançarinos de tango, como modo pelo qual ele se liberta da limitação física e da melancolia em que está mergulhado. Já Burning Safari é a típica animação que usa a velocidade a la Tex Avery para fazer comédia, mas sem o mínimo de inspiração, enquanto Ark é o clichê do filme lento intelectualizado com final-surpresa (belo 3D, contudo).

Por fim, Bandeira faz a denúncia social da realidade brasileira substituindo pessoas por cães, tamanduás, tatus e o restante da fauna tupiniquim. É tão ruim quanto parece.

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julho 04, 2007

Animação - Curtas 4

El Doctor, de Suzan Pitt - bolalaranja.gif
Até o Sol Raiá, de Fernando Jorge, Leanndro Amorim - 2estrelas.gif
Meme Les Pigeons Vont au Paradis, Samuel Tourneux - 2estrelas.gif
Grrrr..., de Grigoris Leontiades - bolalaranja.gif
Wanted, de Max Stoehr, Tobias Von Burkersroda, Paul Shicketanz - 1estrela.gif
Cocotte Minute, de vários diretores- bolalaranja.gif
Rhapsody for Two, de Kevin Audi Grivetta - bolalaranja.gif

Início com o circo de horrores El Doctor (falado em espanglês!), que confunde realismo mágico com o grotesco - a "afirmação da vida" para o médico bêbado e desencantado atravessa situações como bestialismo, criança que germina flores e mulher que dá a luz a milhares de aberrações. Grrr... explora menino que tem como ídolo pai alienado pela televisão, enquanto Rhapsody for Two copia pela enésia vez o pianista obcecado (agora) pela pulga que o atrapalha.

Já quanto aos menos ruins: o previsível Wanted trabalha comicamente com a masculinidade no velho Oeste; Meme Le Pigeons Vont au Paradis mostra padre picareta que tenta vender pedaço do céu para velhinho que acaba de morrer (antes que a própria Morte chegue ao local), e Até o Sol Raiá se vale de narrativa mitificada - "era uma vez", "ouvi dizer" - para contar a saga de Lampião e Maria Bonita, com o recurso (que justifica, em certa medida, o anterior) da animação dentro da animação.

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julho 03, 2007

Melhor Amigo do Homem

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Obrigado, American Express, por tornar meu sonho realidade!

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julho 02, 2007

Vamos Contar?

Desafio:

Descubra quantos planos há nos 13 segundos acima de O Homem com a Câmera (1929, de Dziga Vertov).

Quem acertar ganha... bom, ganha só o reconhecimento mesmo...

PS: não vale slow motion, ou parar quadro-a-quadro!

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Anima Mundi - Curtas 10

Vida Maria, de Marcos Ramos - 3estrelas.gif"
The Danish Poet, de Torill Krove - 4estrelas.gif"
Dicht/Vorm Klassiekers: Regen, de Michael Sewnarain - 1estrela.gif"
Silencijum, de Davor Merdurecan e Marko Mestrovic - bolalaranja.gif"
Nestané Nardzeniny Péti Fotky, de Galina Miklinová - bolalaranja.gif"
Pika Pika 2007, de Takeshi Nagata e Kazue Monno - 2estrelas.gif"
Doll Face, de Andy Huang - 1estrela.gif"
Moutons, de Simon Blanc, Vivien Cabrol e Arnaud Valette - bolalaranja.gif"

O brasileiro Vida Maria, de Márcio ramos, utiliza idéia semelhante a de La Fotto dello Scandalo, de Danielle Lunghini: através de plano-seqüência único, o diretor narra a história da Maria, da infância à velhice, e o cículo vicioso que a miséria e a ignorância reproduzem no sertão. Em ambos os curtas, a imagem de síntese se mostra peça estruturante da linguagem, já que somente ela conjuga as elipses de tempo e a continuidade espacial dentro do plano-seqüência.

Logo a seguir, a prova de que o Oscar às vezes acerta: The Danish Poet, prêmio de melhor animação, em que Torill Krove se debruça emotivamente sobre o primeiro encontro de seus pais. Misturando gags visuais elegantes e melancolia carinhosa, The Danish Poet trabalha com traços geométricos em 2D, que explodem em cores vivas e quentes, as quais refletem mais os sentimentos dos personagens e menos as paisagens da Escandinávia. Kroll surpreende, na rede de acasos que permeia seu filme, e nos agarra pelo coração - a série de acontecimentos que culmina no encontro do casal lembra, inegavelmente, Jacques Demy.

Doll Face explora de modo superficial a relação doentia entre o culto à beleza, os meios de massa e a tecnologia que mecaniza o homem, enquanto Pika Pika 2007 repete-se cansativamente ao fundir som e imagem, embora consiga belos efeitos de luz através da velocidade mais lenta de exposição do quadro (exibido novamente à taxa normal, na projeção). Por fim, Silencijum irrita devido ao linguajar chulo e à pretensa reflexão pós-moderna sobre a luta de classes, os pobres e os ricos.

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