junho 28, 2007

Norman McLaren no Anima Mundi

O Anima Mundi traz a sessão de cinema imperdível do ano, com 10 curta-metragens de Norman McLaren: http://www.animamundi.com.br/fest_sessao.asp?cod=74.

É a chance de se maravilhar com o trabalho deste escocês, nascido em 1914, que transformou o National Film Board of Canada na referência mundial da animação e que experimentou e revolucionou o cinema como poucos.

Norman McLaren desenvolveu a técnica de desenhar diretamente sobre a película, não apenas as imagens, como também os sons. Pesquisou a harmonia entre movimentos e música exaustivamente. Lidou com sucessivas sobre-exposições. Inventou, se não o método em si, o termo "pixilation" - stop-motion, quadro a quadro, com live action.

Posto, em duas partes, talvez seu mais belo filme: Pas De Deux, de 1968. Usando pixilation, McLaren registra o balé de Margaret Mercier e Vincent Warren, com até 10 sobre-impressões.


Pas de Deux - parte 1


Pas de Deux - parte 2

Flanando no negrume do espaço determinado apenas pelos limites do enquadramento, os corpos se amam através da dança. Luz, sombra e escuridão, a música que se repete infinitamente e as multiplicações e fusões dos bailarinos em cena prestam apaixonado tributo ao movimento e, em conseqüência, à própria arte cinematográfica.

E há quem diga que animação não é cinema.

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junho 27, 2007

Melhor Cena do Ano

Carl Reiner passando a mão no derriére de Al Pacino em Treze Homens e Um Novo Segredo, de Steven Soderbergh.

Com direito a sorrisinho e tudo.

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As Sete (Novas) Maravilhas do Mundo - Meu Voto

Não votei no Cristo Redentor, nem o farei. Meu senso de justiça prevalece em qualquer eleição, e óbvio que há maravilhas bem mais representativas na disputa: Acrópole, Coliseu, Angkor, Santa Sofia, Stonehenge, Machu Picchu, Torre Eiffel, Estátuas da Ilha de Páscoa, Taj Mahal, Kremlin, Muralha da China, Cidade de Petra, Pirâmides de Gizé, Timbuktu...

Mas gostaria de protestar contra a maior de todas as ausências, contra a mais clamorosa injustiça que cometeram: sequer consta entre os 21 candidatos o Panteão romano!

Pantheon-Rotonda_18.jpg

O Panteão, lar de todos os Deuses (igreja católica desde o século VII), é a mais extraordinária construção da Antigüidade Clássica e a única que permanece intacta. Erguido entre 118 e 135 pelo imperador Adriano (e suspeita-se que o próprio o projetou), para substituir o original, de Marco Agripa, que queimou no incêndio de 80, o Panteão se constitui de três partes: pórtico, rotunda e a ligação entre ambas.

O modelo de pórtico + rotunda do Panteão influenciou toda a arquitetura ocidental (aos que moram no RJ: visitem o CCBB). Mas a conquista que realmente o destaca é a magnífica cúpula, que se levanta a 43 metros do solo. Para admirar ainda mais a informação: o domo do Panteão só foi superado pelo de Florença, construído por Bruneleschi, entre 1420 e 1436. Ou seja, durante aproximadamente 1200 anos, a abóboda romana continuou inalcançável.

Detalhe: até hoje o Panteão permanece a maior estrutura, sem concreto armado, a sustentar uma cúpula.

Mas, infelizmente, preferiram o Coliseu... que, apesar de reunir os diversos estilos gregos em sua fachada, ter eficientíssimas estruturas interna e subterrânea... não passa, no fundo, de dois anfiteatros colados um no outro!

Panteão de Roma para as 7 Novas Maravilhas!

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junho 26, 2007

Boato?

Bennet Walsh, produtor de Kill Bill, disse à Rádio Internacional da China que Quentin Tarantino dirigirá duas seqüências para a saga da Noiva.

Kill Bill, Volume 3, sobre a vingança de dois dos 88 Crazy (os capangas mascarados de O-Ren Ishii).

Kill Bill, Volume 4, com o duelo entre as filhas da Noiva e de Vernita Green.

Será? Deus queira.

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junho 25, 2007

Post de Emergência

Sofri grave acidente durante a madrugada: parte da minha estante despencou, CDs e DVDs voaram pelos ares, caneca (cheia) de coca-cola virou sobre mim.

Como tive que arrumar e secar o quarto, tomar banho, além de outras providências, não consegui preparar texto algum...

Desse modo, concordo com o Filipe, em gênero, número e grau, quando diz - "A única afirmação objetiva em que acredito: não há cineasta maior do que John Ford. Não há prova maior disso do que inauguração da igreja e a dança entre Earp e Clementine neste filme".

Ele se refere a Paixão dos Fortes (My Darling Clementine, 1946), no post sobre os injustiçados do American Film Institute. Para tirar a prova dos nove, a dita seqüência da igreja:

Acredito que, nos próximos dias, atualizarei este espaço com algumas informações e análises a respeito da cena, porque é necessário converter os infiéis!

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junho 24, 2007

Memória do Mundo

Fernando Secco, o mais prolífico homem de cinema da UFF, capaz de se envolver em 502 filmes ao mesmo tempo - inclusive o meu -, agora também em versão escrita (além de fotos, som, youtube e tudo mais que a tecnologia permite):

http://memoriadomundo.wordpress.com/

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Declaração

Eu concordo (cum + cordis, do latim) contigo.

E você, concorda comigo?

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junho 23, 2007

Monkey Business

Não entro no mérito de discutir quem foi melhor, Charlie Chaplin ou Buster Keaton (sobretudo porque a resposta é Jacques Tati).

Agora, confesso: sou ferrenho marxista. O humor ferino, inconseqüente, virulento, debochado, transgressor e rebelde dos irmãos Marx me seduz como nenhum outro.

Disponibilizo para vocês aquela que considero a seqüência mais engraçada do cinema: Groucho, Harpo, Chico e Zeppo, em Monkey Business (de 1931!), tentando desembarcar do navio em que viajavam clandestinos, cada qual com sua imitação descontrolada de Maurice Chevalier.

Sátira implacável a Chevalier, que na época, graças às operetas de Ernst Lubitsch que protagonizava com Jeanette McDonald, figurava entre as maiores estrelas de Hollywood.

E, principalmente, crítica devastadora à burocracia, aos serviços de imigração, a qualquer ordem instituída ou autoridade. Harpo sobre a mesa e jogando papéis para cima lembra o chute que Carlitos dá no traseiro do guarda em O Imigrante (em vários outros filmes também, na verdade).

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junho 22, 2007

Aviso

Este site é melhor visualizado com um computador porreta de bom.

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Amor

A seqüência acima homenageia Jean Cocteau - os amantes que ingressam no mundo sonhado, a trucagem que lhes confere o tom fantasmático. O movimento invertido, a câmera lenta e o banquete ao ar livre, notadamente, são referências explícitas a Les Enfants Terribles, de Jean-Pierre Melville (roteiro que Cocteau adaptou de sua própria peça teatral). Reparar também nos figurinos: Jacques Demy trabalha com cores específicas para cada família - vermelha para a do príncipe, azul para a da princesa -, mas durante o encontro onírico ambos se vestem de branco. Amor puro, belo e livre.

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu'alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d'esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha'alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

Filme: Pele de Asno (Peau D'ane, 1970), de Jacques Demy.
Texto: Amor, de Manuel Antônio Álvares de Azevedo.

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Carreira? Que Carreira?

Estranha a carreira de Carreiras, novo (velho?) longa de Domingos Oliveira.

Estreou hoje nos cinemas, depois de exibido no Festival do Rio e na Mostra São Paulo de 2005.

Nada estranho, até aqui, uma vez que atrasos assim costumam mesmo acontecer.

No entanto, Carreiras esteve semana passada no Canal Brasil! Em geral, qualquer filme percorre primeiro o cinema, em seguida o DVD, e finalmente a televisão fechada e depois a aberta.

O mercado cinematográfico brasileiro cada vez mais se aproxima do ridículo.

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junho 21, 2007

Angelica

A seqüência em que Angelica (Claudia Cardinale) irrompe em O Leopardo (Il Gattopardo, 1963), de Luchino Visconti. Abaixo, doze planos que compõem a cena:

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O primeiro contato que temos com Angelica se dá através dos olhos de Concetta. A seqüência inteira se estrutura a partir das reações que a chegada de Claudia Cardinale provoca na família Salina.

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Angelica surge das sombras para a luz. O paralelismo, e a rivalidade, com Concetta se faz evidente, já que a filha de Don Fabrizio, apaixonada por Tancredi, também teve o rosto iluminado da mesma forma no plano anterior.

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Na presença da aristocracia que domina a Sicília há séculos, Angelica recobre o corpo com o xale, intimidada.

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Travelling no rosto de Tancredi. Ainda não chegamos aos zoom-in e zoom-out ópticos de Vagas Estrelas da Ursa, que exprimem o Tempo. O close-up de Alain Delon expressa a paixão fulminante de Tancredi por Angelica.

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Mesmo Don Fabrizio Salina se deixa seduzir pela presença magnética de Claudia Cardinale.

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O último suspiro antes do mergulho, que não somente alterará sua vida, como também mudará as relações de força da política siciliana. Angelica se prepara para adentrar na cova dos leões.

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Don Ciccio, fiel seguidor da monarquia, sabe que a chegada de Angelica marca o início da nova era burguesa na Itália reunificada.

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Angelica levanta a cabeça, retira o xale e descobre o corpo: a tímida provinciana desaparece e parte para a conquista.

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O mais jovem dos Salinas se apruma, como o macho de várias espécies animais que assim o fazen para copular com a fêmea.

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Angelica se confunde com as flores: Visconti indica o lado natural e selvagem da personagem.

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A matriarca dos Salina recebe e aprova Angelica no seio da família: "bella!".

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Angelica marcha triunfal por entre os membros da família Salina. Ela os "passa em revista", com autoridade, invertendo o jogo de poder que lhe era desfavorável de início.








Comentário em áudio sobre a seqüência (cerca de 14 minutos).

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Alemanha Vs. Grécia


Eureka!!!!!!!!!!!

Em homenagem à final de ontem,entre Grêmio e Boca Juniors, fiquem com esta pérola do Monty Python. De rachar de rir.

PS: em breve, nos cinemas de toda a Argentina, La Batalla del Olimpico, contando a saga vitoriosa do Boca na Libertadores 2007...

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junho 18, 2007

As Mil e Uma Noites

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O gênio da lãmpada...

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... o tapete mágico...








... e Scheherazade.

Imagens: O Ladrão de Bagdá, 1940, de Michael Powell, Ludwig Berger e Tim Whelan.

Música: Sheherazade - Suíte Sinfônica Opus 35, de Nicolai Rimsky-Korsakov (cerca de 49 minutos).

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junho 17, 2007

Retrospectiva Anima Mundi - Daniel Greaves

Manipulation, 1991 - 3estrelas.gif

manipulation.jpg

http://www.youtube.com/watch?v=ZSodM4pLGIs

Infelizmente, não posso colocar o filme direto aqui, porque o idiota que o disponibilizou no youtube não me permite. Para vê-lo, acessem o link acima, por favor.

Oscar de melhor curta animado, pode se chamar Manipulation de "clássico moderno" pela influência que teve nas obras subseqüentes, pois todos os desenhos que usam a metalinguagem para mostrar o conflito entre o artista e sua criação pagam tributo ao primeiro filme de Daniel Greaves.

Greaves, contudo não se limita em contar a história: vai além, uma vez que trabalha com as fronteiras do quadro (direita, esquerda, superior, inferior), da mesma forma que "brinca" com a profundidade ou não do plano.

Em Manipulation, Daniel Greaves explora a bi e a tridimensionalidade da animação. O personagem ora é puro traço, achatado na folha de papel; ora ganha relevo, perspectiva, substância, matéria. O filme evolui alternando repouso e movimento, brancura e desenhos, 2D e 3D.

Pena que o cineasta mantenha carreira errática: apenas quatro filmes ao longo de dezesseis anos de carreira - além de Manipulation, dirigiu Flatworld, Rockin' & Rollin' e Little Things. A obra-prima Flatworld, de 1997, extrapola a estética e a linguagem do curta anterior, ao colocar personagens 2D em ambientes tridimensionais.

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A Colecionadora

belledejour.jpg

Ela passa
Catando os corações um a um

Dêem os corações
Todos os bons corações
Os maus corações
Os pobres corações

Vocês não chegarão nunca
Até os seus lábios
Oh os corações
Os pobres corações

Ela se aborrece
E põe os corações no seu cesto

Infelizmente
Os corações lá não ficam
Não ficam muito tempo
Não ficam o suficiente
Nem mesmo uma primaverazinha

Texto: Cidade de Carcassome, de Guillaume Apollinaire.
Imagem: A Bela da Tarde, de Luís Buñuel.

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junho 15, 2007

Citações

Gosto muito de citar frases sobre cinema, mas confesso não ter o mesmo apreço de muitos por Serge Daney, Luc Moullet, Adrian Martin e outros.

Não pelos críticos em si, mas pela seriedade com que eles são tratados. Seguidores fanáticos da Cahiers du Cinema costumam ser piores que pregadores evangélicos em ônibus.

Da mesma forma que não compreendo porque gritar para que Deus o escute (seria Ele, além de onipotente e de onipresente, igualmente... surdo?), sei lá por que cargas d'água esfregar no rosto de alguém que fulano ou sicrano afirmou isso ou aquilo a respeito de determinado assunto, como se fosse a verdade absoluta. Acho mais incapacidade de formular raciocínio próprio, aliado a desejo louco de aparecer.

Ou seja, curto mesmo as citações picaretas! As frases que não se levam a sério, que desprezam as teorias elaboradíssimas que nada dizem. Alfred Hitchcock, por exemplo, saiu-se certa vez com esta:

- For me, the cinema is not a slice of life, but a piece of cake.

Embora mais famosa, e que Orson Welles usava bastante para justificar porque só assistia a filmes com menos de duas horas, seja:

- The length of a film should be directly related to the endurance of the human bladder.

Desta leva, termino com Billy Wilder. Em Dirigindo no Escuro, quase defenestraram Woody Allen por aqui, devido à piada com a crítica francesa (que adora a produção sem pé nem cabeça que o herói realiza, completamente cego). O que dizer então de Wilder, que recomendou ao fotógrafo de Crepúsculo dos Deuses:

- Keep it out of focus: I want to win the foreign picture award.

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junho 14, 2007

Homenagem

Procurei a imagem na internet, mas não a encontrei. Também não consegui tirá-la do meu DVD, pois ele infelizmente impede cópias digitais. Assim, apelo para a memória dos que me lêem.

Martin Scorsese homenageou o plano de O Leopardo, que coloquei no post "Melancolia", em O Aviador. Olhe lá embaixo: Cláudia Cardinale acaba de se apresentar, adulta e deslumbrante, à família Salina. Ela ocupa o lado direito; no lado esquerdo, em primeiríssimo quadro, as flores sobre a mesa.

Em O Aviador, Leonardo Di Caprio padece no hospital, depois do acidente que quase o matou. Ele se livra de todas as flores que recebe (pois atraem insetos), menos as de Juan Trippe, presidente da Pan Am, seu grande rival. Enquanto Howard Hughes, no leito, expõe o ódio contra o inimigo, as flores, como em Luchino Visconti, estão no primeiro plano, lembrando ao espectador o desejo de vingança que atua sobre o bilionário.

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Diálogo

Frase que escutei ontem, no IACS: "Mas não sabia que eram irmãos!!!!"!

Quem? Há de perguntar o caro leitor.

Resposta: Jake e Maggie GYLLENHAAL.

Fico imaginando se o nome da família fosse Smith ou Brown, como seria...

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Boca Juniors e Grêmio

O Grêmio tem Sandro Goiano. O Boca, Riquelme.

3 a 0 Boca Juniors. Passeio na Bombonera.

A jogada do terceiro gol, com Riquelme se livrando de três ou quatro marcadores em espaço mínimo de campo antes de chutar ao gol, figura entre as mais belas do ano.

Juan Román fez até gremista passar lotado pela bola...

Esta fase boquense na Libertadores está me dando muitas alegrias!

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junho 13, 2007

Melancolia

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Os anjos os anjos no céu
Um está vestido de oficial
Um está vestido de cozinheiro
E os outros cantam

Belo oficial cor do céu
A doce primavera longo tempo após o Natal
Te dará a medalha de um belo sol
De um belo sol

O cozinheiro depena os gansos
Ah! caia neve
Caia e por que não tenho
Minha bem-amada entre os braços

Texto: A Branca Neve, de Guillaume Apollinaire.
Imagem: O Leopardo, de Luchino Visconti.

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junho 12, 2007

Santo Antônio

santoantonio.jpg

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La Entrega

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Porque el cuerpo,
todo el cuerpo albergándole a la vida
su oscura aunque preclara omnipotencia,
siempre está aquí, estará siempre.
Y quien ama y quien desea, quiere
poseer y entregarse poseyendo.

Tarde y noche, amanecer o mañana,
al amor, el amar reclama al cuerpo
en tenue caminar, o alborotado
por de lavas repleto sendero:
la sombría eternidad que da a la vida
una muerte incrustada.

Un helado volcán; ¿son océanos
lúcidos y vertigonosos
con furia de morirme mientras amo?
Porque así es la entrega del que ama:
una despótica catástrofe.

¿Soy yo así, soy yo esto, se pregunta,
creciendo de salvaje encrucijada,
viviendo de mi muerte que rescato,
con furia de morirme cuando amo?
El cuerpo dócilmente escucha dentro
y otro yo se le asfixia en la pregunta.

Cuán intacto el despertar. Ya despojándose
la invasión de sí mismo, gime el cuerpo.
Vuelve el mar reclamándolo absorbente
y otra vez se desploma y recupera.

Texto: La Entrega, de Carmen Conde Abellán.
Imagem: Adão e Eva em A Bacia de John Wayne, de João César Monteiro.

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junho 11, 2007

Jean-Pierre Cassel (1932 - 2007)

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Les Jeux de L'amour, 1960, de Philippe de Broca.

Outro que se foi, também de câncer, em abril: Jean-Pierre Cassel.

Cassel esteve em O Exército das Sombras, de Jean-Pierre Melville. Foi um dos burgueses que não conseguem jantar em O Discreto charme da Burguesia, de Luis Buñuel. Fez La Cérémonie, de Claude Chabrol. Participou da superprodução Paris Está em Chamas?, de René Clément. Atuou em Assassinato no Expresso do Oriente, de Sidney Lumet, e em Prêt-à-Porter, de Robert Altman

Mas será lembrado mesmo pela parceria nos primeiros filmes de Philippe de Broca, na década de 60: Le Farceur, Les Jeux de L'amour, L'amant de Cinq Jours, Un Monsieur de Compagnie (voltariam a se unir pela última vez, em 1988, para fazer Chouans!).

Le Farceur, Les Jeux de L'amour, L'amant de Cinq Jours, Un Monsieur de Compagnie - filmes pouco conhecidos, assim como Philippe de Broca, que morreu um tanto esquecido em 2004. São comédias profundamente melancólicas, românticas, em que Jen-Pierre Cassel invariavelmente interpreta o clown, o pierrot eternamente apaixonado, doce, gentil e meigo, porém incapaz, pelas circunstâncias que a realidade impõe, de concretizar seu amor intenso e platônico. Remetem, claro, a Charles Chaplin e a Buster Keaton, e figuram entre as mais cândidas e nostálgicas obras da Nouvelle Vague.

Le Farceur e Les Jeux de L'amour foram exibidos no Telecine, na época em que ainda se chamava Classic (bons teempos!). Em Le Farceur, Cassel faz mulherengo inveterado, cujo relacionamente sério com aquela que realmente ama desmorona devido às diferenças que os separam. Em Les Jeux de L'amour, temos o triângulo amoroso entre amigos (ou conhecidos, parentes, etc), tema recorrente em vários filmes da Nouvelle Vague no período - Uma Mulher É Uma Mulher, Os Primos, Lola, Jules e Jim...

Jean-Pierre Cassel, por fim, é pai de Vincent Cassel. Bom, talento não está nos genes...

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Jean-Claude Brialy (1933 - 2007)

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O Joelho de Claire, 1970, de Eric Rohmer.

Jean-Claude Brialy faleceu aos 74 anos, de câncer, mês passado. Homenageando o ator, a Maison de France exibe hoje A Noiva Estava de Preto, de François Truffaut, às 18h; e O Joelho de Claire, de Eric Rohmer, às 20h.

Pensei em colocar uma foto de Brialy neste post. Talvez de Os Primos, de Claude Chabrol: afetado, tentador, lascivo, decadente, demoníaco. Mefistófeles burguês que irrita seus próprios convidados, na festa, com música clássica.

No entanto, tive que me render a O Joelho de Claire, melhor tudo (filme, papel, performance, etc) da carreira de Jean-Claude Brialy. A ambivalência e ambigüidade do ator exploradas à perfeição por Rohmer - assim como a insuspeita parte da anatomia feminina presente no título...

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junho 10, 2007

Maurice Pialat

Maurice Pialat no e-mule (os que encontrei, pelo menos):

- L'amour Existe (em geral no pacote de primeiro curtas, que inclui Resnais, Leconte, Truffaut, Rivette, Godard), Nous Ne Vieillirons Pas Ensemble, Loulou, A Nos Amours, Police, Sous Le Soleil de Satan, Van Gogh. Todos com legendas em inglês ou espanhol.

- Le Gueule Ouverte, Passe Ton Bac D'abord, L'enfance Nue, Le Garçu. Sem legendas.

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Insônia

O Telecine Cult exibiu em seqüência, durante a madrugada, Passaporte para a Vida (de Bertrand Tavernier) e Sunshine (de István Szabó).

Parabéns ao canal, pela notável preocupação com a saúde de seus telespectadores insones.

Programa duplo mais sonífero, impossível.

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junho 09, 2007

Retrospectiva Anima Mundi - Michael Dudok de Wit

O Anima Mundi começa dia 29 de junho, e como prévia utilizo finalmente o youtube para fazer minha retrospectiva personalíssima com alguns dos desenhos que mais gostei ao longo de oito festivais (1999 - 2006). Haverá ausências, claro, pois nem todos os filmes estão disponíveis - porém, sempre que possível, substituí-los-ei por outros dos mesmos cineastas. Começo, dessa forma, com o maior de todos: Michael Dudok de Wit, e seus magníficos O Monge e o Peixe, Pai e Filha e O Aroma do Chá. Junto, o texto que escrevi, ano passado, em homenagem ao diretor.

O Monge e o Peixe, 1994 - 4estrelas.gif

Pai e Filha, 2000 - 4estrelas.gif

O Aroma do Chá, 2006 - 4estrelas.gif

Michael Dudok de Wit, nascido na Holanda em 1952, alterna trabalhos pessoais com outros feitos sob encomenda. Em catorze anos, realizou apenas quatro curtas-metragens, além de propagandas comerciais – como a recente A Life, para a United Airlines. Embora não tenha produzido sequer trinta minutos de imagens, elas são suficientes para colocar o autor bissexto no rol dos maiores gênios da animação – com Winsor McCay, Norman McLaren, Jan Svankmajer, Ub Iwerks, Tex Avery, Chuck Jones –, como prova o extraordinário, belo e ousado The Aroma of Tea, exibido na última edição do Anima Mundi.

Os curtas-metragens do diretor se resumem a Tom Sweep (1992), O Monge e o Peixe (1994), Pai e Filha (2000) e The Aroma of Tea (2006). No aspecto temático, eles se caracterizam por explorar a ligação que existe entre o humano e o divino (a procura do homem por Deus), a passagem inexorável do tempo, o efêmero e o eterno, o processo de vida-morte-renascimento, as memórias que perduram mesmo quando o corpo físico desaparece. Quanto à forma, Michael Dudok de Wit desenha com traços simples, despojados, limpos e concisos, abusa de elipses espaço-temporais, sujeita os movimentos dos elementos em cena à música onipresente e que preenche e conduz toda a narrativa – a predileção do cineasta recai sobre o compositor barroco Archangelo Corelli –, a história tênue e quase desprovida de ação como suporte para reflexões metafísicas, abstratas e filosóficas.

O Monge e o Peixe, Pai e Filha, A Life e The Aroma of Tea se articulam ao redor da transformação simbólica e metafórica de único objeto (ou forma) concreto: o peixe, a roda de bicicleta, o avião e a esfera, respectivamente.

A obsessão do simpático e rechonchudo monge em capturar o peixe, assim, transcende as – aparentemente – simples trapalhadas e o humor ingênuo (porém encantador) de uma pescaria mal-resolvida. O Monge e o Peixe, ao contrário, remete à busca incessante pelo sagrado, o desejo humano pela comunhão espiritual com Deus e com o universo: Ichtys, palavra grega que significa “peixe”, é acrônima da frase Iesus Christus Theou Yicus Soter, ou seja, “Jesus Cristo Filho do Deus Salvador”. Símbolo do cristianismo primitivo, utilizado para que os fiéis da nova religião, perseguidos por Roma, se identificassem, foi substituído pelo crucifixo e pelo sinal da cruz em 400 d.C., com o intuito de estabelecer e de reforçar o martírio, a morte e a ressurreição de Jesus como pilares fundamentais da doutrina que se institucionalizava com o aval dos imperadores Constantino e Teodósio, sobretudo a partir do Concílio de Nicéia, em 325 d.C.

Se a cruz representa a morte e sofrimento, o peixe aponta para a vida, para a dimensão puramente espiritual e transcendente de Jesus. Dessa forma, o monge, na verdade, procura o Cristo anterior à ortodoxia católica, que não lavou os pecados do mundo com o próprio sangue, mas que trouxe esperança, fraternidade e amor para todos os injustiçados e oprimidos. Jesus que, em sua fragilidade humana, funde-se aos demais seres vivos através da compaixão.

Em Pai e Filha, a roda de bicicleta é o objeto que, transmutado, indica o ciclo da vida – nascer, crescer, reproduzir-se, envelhecer, morrer e, por fim (ou por início), renascer.

Em apenas oito minutos, Michael Dudok de Wit conta a saga da personagem que, ainda criança, vê o pai pela última vez. Ano após ano, e sempre de bicicleta, retorna ao lugar da despedida, esperando que ele volte. Assim como a música ao longo da narrativa – repetição incessante da mesma melodia, que varia, tal qual o Bolero de Ravel, rítmica e harmonicamente –, Pai e Filha se estrutura a partir de seqüências a princípios idênticas entre si, que, entretanto, se diferenciam na medida em que são preenchidas pelo Tempo (o devir heraclitiano). Desse modo, enquanto a roda gira, os anos passam, cada corte introduzindo nova elipse temporal. Sobre a bicicleta, a filha envelhece: nós a acompanhamos estudante, com o primeiro namorado, já casada e com filhos, idosa. Trajetória que mostra não somente a degradação física, como também, e principalmente, os sentimentos e a memória e as lembranças cristalizam, ponte entre o passado, o presente e o futuro, visível na sucessão emotiva das estações do ano e das paisagens holandesas que ambientam o filme.

Igualmente afetivo é a propaganda feita para a United Airlines, A Life. Michael Dudok de Wit, de maneira explícita, aproveita a imagética de Pai e Filha e brinca com seus próprios clichês: por meio de elipses temporais, da infância à velhice, surgem na tela as diversas fases da vida que o personagem atravessa. A bicicleta reaparece, contudo o anúncio se centra no símbolo da companhia aérea: com o mote de que a United Airlines apenas realiza o desejo de seus consumidores, o diretor não trata o avião enquanto objeto concreto para satisfazer a necessidade dos espectadores a que se dirige, e sim como metáfora para os sonhos que os movem a alcançar objetivos (os acontecimentos que o protagonista vive no comercial, na prática, independem da presença do avião).

O conceito simbólico da esfera fundamenta a mais recente obra-prima de Michael Dudok de Wit, The Aroma of Tea (melhor filme da 14a edição do Anima Mundi), com a qual o diretor rompe com figuração e a narrativa ainda presentes nos curtas-metragens anteriores e parte rumo ao abstracionismo, utilizando-se, para tanto, do movimento, do corte e da composição do quadro.

Até Copérnico lançar a Terra ao espaço, Galileu observar os astros com sua luneta, Kepler formular as leis dos movimentos orbitais e Newton criar a arcabouço físico-matemático que explica e rege o universo, predominou a cosmogonia de Ptolomeu e de Aristóteles, segundo a qual o sistema celeste se organiza em noves esferas concêntricas, imutáveis e pré-determinadas, obras de um Criador.

Aristóteles - para quem a Terra se encontra no centro do universo, com planetas e estrelas girando ao seu redor presos a sólidos círculos de cristal -, por sua vez, baseia-se em Empédocles, filósofo pré-socrático, que tenta unir o Ser, de Parmênides (representado pela Esfera, o Todo indivisível, monístico), com o devir, de Heráclito (o rio cujas águas jamais são as mesmas). Para Empédocles, o universo se apresenta como esfera, mas contendo os quatro elementos indestrutíveis que a formam: terra, água, fogo e ar. Uno, e ao mesmo tempo múltiplo, com as forças do Amor e do Ódio que promovem o movimento entre as substâncias primordiais.

De Ptolomeu, Aristóteles, Empédocles, Parmênides, voltamos a Xenófanes de Colofão, primeiro a propor a esfera como símbolo para Deus, uma vez que ela representa a perfeição formal: além de ser a metáfora geométrica do infinito, concretiza uma curva sem princípio nem fim.

Em The Aroma of Tea, a esfera está no pequeno ponto errante que vaga pela imensidão do branco, vez por outra cortadas por formas aleatórias e por outros pontos, que se movimentam mecanicamente ao som do Concerto Grosso opus 6, no. 2 e no. 12, de Corelli, assim como no misterioso círculo que serve de destino final para o aroma do chá. Retomando o cristianismo de O Monge e o Peixe, as esferas de The Aroma of Tea são o alfa e o ômega, o início e o fim, o nascimento e a morte. Elas aludem ao sagrado, a Deus, e ao mesmo tempo remetem ao homem, visto que a forma esférica não existe na natureza: trata-se de criação eminentemente humana, que sinaliza para a capacidade de pensamento abstrato exclusiva à espécie.

Desse modo, a viagem do aroma do chá em direção à esfera branca remete ao desejo humano de comunhão espiritual com seu Criador ou, talvez, ao aspecto divino que existe em cada homem. Despojado, conciso e rigoroso, construído sobre o ritmo musical (a música celeste de Leibniz, com a qual Deus rege e organiza o universo?), The Aroma of Tea dispensa artifícios narrativos e se vale apenas da mais pura linguagem cinematográfica para estruturar o material imagético.

O pequeno ponto errante jamais sai de quadro: de um plano a outro, Michael Dudok de Wit usa o corte em movimento para descrever a trajetória da esfera através do espaço, de sorte que não há continuidade (que existiria caso o ponto saísse e entrasse pelas bordas da tela, por exemplo), e sim elipses que não permitem identificar o tempo decorrido entre os cortes e os locais exatos onde as imagens se fixam. A explicação filosófica para o cálculo diferencial inventado por Leibniz – concomitantemente a Newton – sugere que 0 representa o homem, enquanto 1 simboliza Deus, com os números infinitesimais dispostos entre ambos em respeito à evolução espiritual que o primeiro deve percorrer para se encontrar com o segundo. The Aroma of Tea, ao mostrar o começo e o final da jornada, porém fragmentando a duração e os caminhos da mesma (sem referências com as quais se guiar), abre-se também para o ilimitado, para a dimensão microscópica, contínua e eterna do devir.

O título deste artigo cita e homenageia a ópera homônima de Richard Wagner, também conhecida como O Navio Fantasma. Nada menos wagneriano, todavia, que o cinema de Michael Dudok de Wit. Pela economia de recursos, aliada à potência expressiva, seus curtas-metragens estão mais próximos de Mozart, Satie ou Webern. Cabe então a pergunta: Divino Dudok?

PS 1: O artigo se intitula "Michael Dudok de Wit, O Holandês Voador".

PS 2: O Aroma do Chá possui 25 planos. Deveriam ser estudados nas faculdades de cinema.

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junho 08, 2007

Godardianas 2

- Sei porque o cinema nasceu preto e branco. Para que compartilhássemos o luto.

Grandeza e Decadência, 1986, de Jean-Luc Godard.

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Godardianas 1

- Por que sua janela tem grades?

- Porque trabalho na televisão. Nunca ouviu falar sobre grade de programação?

Grandeza e Decadência, 1986, de Jean-Luc Godard.

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junho 06, 2007

Mesa-Redonda sobre Jean Rouch

Além dos filmes, houve debate na Maratona Jean Rouch, no qual participaram José Carlos Avellar, Silvio Tendler, Marc Piault e Michel Marie.

Avellar, Piault e Tendler se resumiram a narrar "causos" e anedotas sobre Rouch - todas ótimas, já que, assim como Fellini, o cineasta francês também era um grande mentiroso, que adorava inventar histórias a respeito de si mesmo e fazê-las passar por reais.

Para ser justo, Tendler fez boa análise comparativa entre Os Mestres Loucos, Crônica de Um Verão e Pouco a Pouco: o primeiro, o olhar da França sobre o Outro; o segundo, o olhar da França sobre ela própria; e o terceiro, o olhar do Outro sobre a França.

Os três também destacaram a importância de Rouch para o desenvolvimento tecnológico do cinema: câmeras mais leves, películas com emulsões mais sensíveis, equipamentos que permitem som direto e seu link com a imagem. Finalmente, associaram-no aos novos processos digitais, revolução para os filmes de baixo custo e outras frases de semelhante efeito.

Eis que Michel Marie, que ficou por último, estraga a festa. Segundo o professor da Sorbonne e da Universidade Paris III, Jean Rouch jamais filmou em vídeo ou digital, e era bastante resistente a eles. Também insistia para que seus alunos utilizassem apenas Super-8 e 16mm.

Explicação: sempre que se recarrega o chassis de uma câmera 16mm ou Super-8, o diretor pára e pensa no filme que está realizando. Com vídeo ou digital, a filmagem ininterrupta impede a reflexão necessária ao cinema...

Para terminar, observação sobre a equipe que cerca Jean Rouch ao longo das filmagens, conforme aparece no documentário Mosso Mosso, de Jean-André Fieschi. Contei 5 pessoas: o próprio Rouch, que também faz a câmera e a fotografia - toda em luz natural, com rebatores improvisados quando preciso -, dois assistentes / motoristas, um técnico de som e um microfonista. Só.

Enquanto, mesmo em curtas-metragens, as equipes costumam ser quilométricas...

PS: João Moreira Salles deveria participar do debate. Deveria... e ficou devendo mesmo: não deu as caras.

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junho 05, 2007

Jean Rouch

Cotações para os filmes de Jean Rouch a que assisti na vida (alguns tive a oportunidade de ver pela primeira vez durante a Maratona na Maison de France!):

- Os Mestres Loucos, 1955 - 4estrelas.gif
- Eu, Um Negro, 1958 - 4estrelas.gif
- A Pirâmida Humana, 1961 - 4estrelas.gif
- Crônica de Um Verão, 1961 (co-direção de Edgar Morin) - 4estrelas.gif
- Caça ao Leão com Arco, 1965 - 4estrelas.gif
- Gare du Nord, 1965 (episódio de Paris Vu Par...) - 4estrelas.gif
- Tourou e Bitti, 1967 - 3estrelas.gif
- Jaguar, 1967 - 3estrelas.gif
- Pouco a Pouco, 1971 - 4estrelas.gif
- Cocorico Monsieur Poulet, 1974 - 3estrelas.gif

E também, da série Cinéma de Notre Temps:

- Mosso, Mosso - Jean Rouch Comme Si... , 1997, de Jean-André Fieschi - 2estrelas.gif

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junho 04, 2007

A Pirâmide Humana

Procurei a frase correta (para dar a citação exata), mas como não a encontrei, posto uma versão aproximada, de acordo com minha memória afetiva:

- Se sabemos das qualidades de alguém, podemos dizer que o conhecemos; se sabemos de seus defeitos, podemos dizer que o amamos.

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junho 03, 2007

Adeus Walesa

Umas das melhores frases de Woody Allen diz que "a vida não imita a arte: ela imita um programa ruim de televisão". Neste caso, a vida imita um filme ruim alemão (notícia tirada do globo.com):

Um polonês de 65 anos que entrou em coma após um acidente recuperou sua consciência depois de 19 anos e se espantou com as transformações ocorridas durante este período no ex-país comunista.

O ferroviário Jan Grzebski, cujos médicos haviam dados apenas mais dois ou três anos de vida após o acidente ocorrido, creditou sua recuperação à atenção dada por sua esposa.

"Foi Gertruda que me salvou. Isso eu nunca vou esquecer", disse ele a uma rede de televisão local.

Grzebski afirma que as mudanças que encontrou no país fazem sua "cabeça rodar". "Quando eu entrei em coma, só havia chá e vinagre nas lojas e a carne era racionada", contou. "Agora eu vejo pessoas andando nas ruas com celulares e tantos produtos nas lojas que fazem a minha cabeça rodar."

Ele também encontrou seus quatro filhos casados e 11 netos que nasceram durante as mudanças precipitadas com o colapso do regime comunista na União Soviética e simbolizadas pela queda do Muro de Berlim.

O filme "Adeus, Lênin" (2003), do diretor Wolfgang Becker, mostrava um garoto que, temendo pela saúde da mãe (que também havia ficado em coma durante o fim do comunismo na antiga Alemanha Oriental), fazia de tudo para esconder as transformações passadas pelo país na unificação com a parte ocidental e a transição para o capitalismo.

Sorte nossa que Wolfgang Becker já cometeu Adeus Lênin. Mas, por outro lado, com tantas refilmagens e continuações por aí...

Talvez, em breve, tenhamos "Adeus Walesa", de Andrzej Wajda.

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junho 02, 2007

A Morta, de Guy de Maupassant

Eu a amara perdidamente! Por que amamos? É realmente estranho ver no mundo apenas um ser, ter no espírito um único pensamento, no coração um único desejo e na boca um único nome: um nome que ascende ininterruptamente, que sobe das profundezas da alma como a água de uma fonte, que ascende aos lábios, e que dizemos, repetimos, murmuramos o tempo todo, por toda parte, como uma prece.

Não vou contar a nossa história. O amor só tem uma história, sempre a mesma. Encontrei-a e amei-a. Eis tudo. E vivi durante um ano na sua ternura, nos seus braços, nas suas carícias, no seu olhar, nos seus vestidos, na sua voz, envolvido, preso, acorrentado a tudo que vinha dela, de maneira tão absoluta que nem sabia mais se era dia ou noite, se estava morto ou vivo, na velha Terra ou em outro lugar qualquer.

E depois ela morreu.

Como? Não sei, não sei mais. Voltou toda molhada, nutria noite de chuva, e, no dia seguinte, tossia. Tossiu durante cerca de uma semana e ficou de cama.

O que aconteceu? Não sei mais.

Médicos chegavam, receitavam, retiravam-se. Traziam remédios; uma mulher obrigava-a a tomá-los. Tinha as mãos quentes, a testa ardente e úmida, o olhar brilhante e triste. Falava-lhe, ela me respondia. O que dissemos um ao outro? Não sei mais. Esqueci tudo, tudo, tudo! Ela morreu, lembro-me muito bem do seu leve suspiro, tão fraco, o último. A enfermeira exclamou: "Ah! Compreendi, compreendi!"

Não soube de mais nada. Nada. vi um padre que falou assim: "Sua amante." Tive a impressão de que a insultava. Já que estava morta, ninguém mais tinha o direito de saber que fora minha amante. Expulsei-o. Veio outro que foi muito bondoso, muito terno. Chorei quando me falou dela.

Consultaram-me sobre mil coisas relacionadas com o enterro. Não sei mais. Contudo, lembro-me muito bem do caixão, do ruído das marteladas quando a enterraram lá dentro. Ah! meu Deus!

Ela foi enterrada! Enterrada! Ela! Naquele buraco! Algumas pessoas tinham vindo, amigas. Caminhei durante muito tempo pelas ruas. Depois voltei para a casa. No dia seguinte, parti para uma viagem.

Ontem, regressei a Paris.

Quando revi o meu quarto, o nosso quarto, a nossa cama, os nossos móveis, toda essa casa onde ficara tudo o que resta da vida de um ser depois da sua morte, o desgosto apoderou-se de mim novamente, de uma forma tão violenta que quase abri a janela para atirar-me à rua. Não podendo mais permanecer no meio daqueles objetos, daquelas paredes que a tinham encerrado, abrigado, e que deviam conservar em suas fendas imperceptíveis milhares de átomos seus, da sua carne e da sua respiração, peguei meu chapéu para sair. De súbito, ao atingir a porta, passei diante do grande espelho que ela mandara colocar no vestíbulo para mirar-se, dos pés à cabeça, todos os dias antes de sair, para ver se toda a sua toalete lhe ia bem, se estava correta e elegante, das botinas ao chapéu.

E parei, de chofre, diante desse espelho que tantas vezes a refletira. Tantas, tantas vezes, que também deveria ter guardado a sua imagem.

Fiquei lá, de pé, trêmulo, os olhos fixos no vidro liso, profundo, vazio, mas que a contivera toda, que a possuíra tanto quanto eu, tanto quanto o meu olhar apaixonado. Tive a impressão de que amava aquele espelho - toquei-o - estava frio! Ah! recordação! recordação! Espelho doloroso, espelho ardente, espelho vivo, espelho horrível, que inflige todas as torturas! Felizes os homens cujo coração, como um espelho onde os reflexos deslizam e se apagam, esquece tudo o que conteve, tudo o que passou à sua frente, tudo o que se contemplou e mirou na sua feição, no seu amor! Como sofro! Saí e, involuntariamente, sem saber, sem querer, dirigi-me ao cemitério. Encontrei seu túmulo, um túmulo singelo, uma cruz de mármore com algumas palavras: "Ela amou, foi amada, e morreu."

Lá estava ela, embaixo, apodrecendo! Que horror! Eu soluçava, a fronte no chão.

Fiquei lá por muito tempo, muito tempo. Depois, percebi que a noite se aproximava. Então, um desejo estranho, louco, um desejo de amante desesperado apoderou-se de mim. Resolvi passar a noite junto dela, a última noite, chorando no seu túmulo. Mas me veriam, me expulsariam. Que fazer? Fui esperto. Levantei-me e comecei a vagar pela cidade dos desaparecidos. Vagava, vagava. Como é pequena essa cidade ao lado da outra, daquela em que vivemos! Precisamos de casas altas, de ruas, de tanto espaço, para as quatro gerações que vêem a luz ao mesmo tempo, que bebem a água das fontes, o vinho das vinhas e comem o pão das planícies.

E para todas as gerações dos mortos, para toda a série de homens que chegaram até nós, quase nada, um terreno apenas, quase nada! A terra os toma de volta, o esquecimento os apaga. Adeus!

Na extremidade do cemitério habitado, avistei subitamente o cemitério abandonado, onde os velhos defuntos acabam de misturar-se à terra, onde as próprias cruzes apodrecem, e onde amanhã serão colocados os últimos que chegarem. Está cheio de rosas silvestres, de ciprestes negros e vigorosos, um jardim triste e soberbo alimentado com carne humana.

Estava só, completamente só. Agachei-me perto de uma árvore verde. Escondi-me completamente entre os galhos grossos e escuros.

E esperei, agarrado ao tronco como um náufrago aos destroços.

Quando a noite ficou escura, bem escura, deixei o meu abrigo e comecei a caminhar de mansinho, com passos lentos e surdos, por essa terra repleta de mortos.

Vaguei durante muito, muito tempo. Não a encontrava. Braços estendidos, olhos abertos, esbarrando nos túmulos com as mãos, com os pés, com os joelhos, com o peito, e até com a cabeça, eu vagava sem encontrá-la. Tocava, tateava como um cego que procura o caminho, apalpava pedras, cruzes, grades de ferro, coroas de vidro, coroas de flores murchas! Lia nomes com os dedos, passando-os sobre as letras. Que noite! Que noite! Não a encontrava!

Não havia lua! Que noite! Sentia medo, um medo horrível, nesses caminhos estreitos entre duas filas de túmulos! Túmulos! Túmulos! Túmulos. Sempre túmulos! À direita, à esquerda, à frente, à minha volta, por toda parte, túmulos! Sentei-me num deles, pois não podia mais caminhar, de tal forma meus joelhos se dobravam. Ouvia meu coração bater! E também ouvia outra coisa! O quê? Um rumor confuso, indefinível! Viria esse ruído do meu cérebro desvairado, da noite impenetrável, ou da terra misteriosa, da terra semeada de cadáveres humanos? Olhei à minha volta!

Quanto tempo fiquei ali? Não sei. Estava paralisado de terror, alucinado de pavor, prestes a gritar, prestes a morrer.

E, de súbito, tive a impressão de que a laje de mármore onde estava sentado se movia. Realmente, ela se movia, como se a estivessem levantando. Com um salto, precipitei-me para o túmulo vizinho e vi, sim, vi erguer-se verticalmente a laje que acabara de deixar; e o morto apareceu, um esqueleto nu que empurrava a lápide com as costas encurvadas. Eu via, via muito bem, embora a escuridão fosse profunda. Pude ler sobre a cruz:

"Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinqüenta e um anos de idade. Amava os seus, foi honesto e bom, e morreu na paz do Senhor."

O morto também lia o que estava escrito no seu túmulo. Depois, apanhou uma pedra no chão, uma pedrinha pontiaguda, e começou a raspar cuidadosamente o que lá estava. Apagou tudo, lentamente, contemplando com seus olhos vazios o lugar onde ainda há pouco existiam letras gravadas; e, com a ponta do osso que fora seu indicador, escreveu com letras luminosas, como essas linhas que traçamos com a ponta de um fósforo:

"Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinqüenta e um anos de idade. Apressou com maus tratos a morte do pai de quem desejava herdar, torturou a mulher, atormentou os filhos, enganou os vizinhos, roubou sempre que pode e morreu miseravelmente."

Quando acabou de escrever, o morto contemplou sua obra, imóvel. E, voltando-me, notei que todos os túmulos estavam abertos, que todos os cadáveres os tinham abandonado, que todos tinham apagado as mentiras inscritas pelos parentes na pedra funerária, para aí restabelecerem a verdade.

E eu via que todos tinham sido carrascos dos parentes, vingativos, desonestos, hipócritas, mentirosos, pérfidos, caluniadores, invejosos, que tinham roubado, enganado, cometido todos os atos vergonhosos, abomináveis, esses bons pais, essas esposas fiéis, esses filhos devotados, essas moças castas, esses comerciantes probos, esses homens e mulheres ditos irrepreensíveis.

Escreviam todos ao mesmo tempo, no limiar da sua morada eterna, a cruel, terrível e santa verdade que todo mundo ignora ou finge ignorar nesta Terra.

Imaginei que também ela devia ter escrito a verdade no seu túmulo. E agora já sem medo, correndo por entre os caixões entreabertos, por entre os cadáveres, por entre os esqueletos, fui em sua direção, certo de que logo a encontraria.

Reconheci-a de longe, sem ver o rosto envolto no sudário.

E sobre a cruz de mármore onde há pouco lera:

"Ela amou, foi amada, e morreu", divisei:

"Tendo saído, um dia, para enganar seu amante, resfriou-se sob a chuva, e morreu".

Parece que me encontraram inanimado, ao nascer do dia, junto a uma sepultura.

(31 de maio de 1887).

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junho 01, 2007

Janus no Canadá

Pedro, amigo dos tempos da ECO, largou a publicidade e foi para o Canadá cursar escola de animação. Para que morramos de inveja, ele me manda o programa da Vancouver's Pacific Cinémathèque Pacifique, dedicada aos filmes da Janus...

http://www.cinematheque.bc.ca/may_jun_07/janus_01.htm

http://www.cinematheque.bc.ca/may_jun_07/janus_02.htm

A esmagadora maioria com cópias novas, ou restauradas, de 35mm. Quanta diferença! Cada país tem a cinemateca que merece...

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E a Palavra É... Criatividade!

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Cartas do Massacre da Serra Elétrica de Iwo Jima.

Por que filmes tão diferentes possuem cartazes tão parecidos?

Com o mundo entregue aos departamentos de marketing, estamos perdidos.

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