Madrugadas insones permitem estranhos reencontros: o SBT exibiu, na calada da noite, O Milagre de Fátima (The Miracle of Our Lady of Fatima, 1952), de John Brahms, filme obrigatório da minha infância, como bom católico e de família portuguesa que sou.
Típica produção B da Warner, com elenco desconhecido, técnicos de segunda linha, diretor que se caracterizou por trabalhar em séries de TV. O único profissional consagrado, o grande compositor Max Steiner (E o Vento Levou, No Tempo das Diligências), acabou indicado ao Oscar pela belíssima trilha sonora. Porém, embora pobre financeiramente, ainda estamos falando de filme de estúdio, de bom artesanato: enquadramentos corretos, cenários e figurinos competentes, luz e efeitos visuais bem cuidados.
A matriz de O Milagre de Fátima, como não poderia deixar de ser, é A Canção de Bernadette, este sim produção classe A, de Henry King. As estruturas são idênticas: jovens que alegam terem visto Nossa Senhora em vilas miseráveis e esquecidas, multidões de romeiros à espera de milagres e que podem rapidamente se transformar em turbas enfurecidas, a descrença da igreja local e os burocratas do governo atentos a possíveis revoltas do populacho.
A Canção de Bernadette leva ampla vantagem na reconstrução de Lourdes - O Milagre de Fátima não se livra do céu de estúdio, assim como todos os portugueses usam ridículos gorrinhos -, no grupo cínico de burocratas laicos francese que incluem o sempre brilhante Vincent Price (contra um tal "Arturo dos Santos", personagem do filme de Brahms), e sobretudo na vilã, a madre invejosa que não compreende como a Virgem possa não tê-la escolhido, dada sua vida de extremas privações, preferindo a jovem aparentemente tola e fútil. Com quarenta anos de antecedência, Henry King nos apresenta conflito semelhante ao de Amadeus, de Milos Forman, entre Salieri e Mozart.
Os desígnios de Deus, a mediocridade humana, a aceitação pela fé. A diferença, sutil porém gritante, está na inversão dos papéis: enquanto Bernadette é a heroína, em Amadeus, ao contrário, Mozart encarna o vilão. Ele é o enviado divino, o gênio, acima do bem e do mal, inumano, que desce à terra para expor as fragilidades, erros, dúvidas, tormentos, angústias que afligem os homens. Salieri, por mais que busque a Graça, jamais a alcança, pois está repleto das imperfeições comuns a todos - apóstolo dos medíocres, improvável defensor de nossa causa, já que resume em si os defeitos ou qualidades que nos tornam humanos: inveja, cobiça, admiração, raiva, medo.
Talvez essa lembrança de Amadeus ajude a entender porque gosto tanto da seqüência da prisão em O Milagre de Fátima, quando o filme verdadeiramente reluz. As crianças são presas por Arturo dos Santos, acusadas de mentir, e na cela encontram os maiores salafrários. Mestre de cerimônias improvisado, um dos presos descreve os crimes de seus companheiros: este pode roubar seus dentes sem que você sinta dor, esse não conta porque é apenas um bêbado, a profissão daquele não pode ser falada para senhoras... Amostra das piores falhas que os homens são capazes de cometer, mas a cena não termina por aí - Jacinta pede que todos se ajoelhem para rezar com ela o rosário, de forma que a Virgem a ouça mais claramente.
Os criminosos se ajoelham e rezam, com as crianças. Violência e pureza lado a lado.
Qual o time mais engraçado do Brasil?
a) Corinthians - Fora do Campeonato Paulista e eliminado em casa pelo Náutico na Copa do Brasil. Tem Alberto Dualib cna presidência e parceria com a MSI. Trocou Leão por Carpeggiani. Espera que Boris Berezovski venha ao Brasil e construa o Fielzão. Sua zaga é formada por Marinho, Betão e Carlão. Acaba de contratar, também para a defesa, Zelão.
b) Vasco - Eliminado duas vezes nos pênaltis durante o Carioca. Fora da Copa do Brasil, derrotado pelo Gama no Maracanã. Ditadura de Eurico Miranda. Acaba de contratar Celso Roth. Faz de tudo para que Romário alcance o milésimo gol.
c) Fluminense - Pior campanha no Carioca em sua História. Troca de técnico a terceira vez apenas este ano. Contratou 17 jogadores sem formar uma equipe que preste.
d) Internacional - Primeiro campeão da Libertadores a ser eliminado na primeira fase, defendendo o título. Pior campanha no Campeonato Gaúcho em sua História.
e) Palmeiras - Perdeu a vaga nas semifinais do Paulistão empatando com o Guaratinguetá no Palestra Itália. Eliminado, também em casa, pelo Ipatinga na Copa do Brasil, com Edmundo chutando para fora o pênalti decisivo
Sou parcial nessas votações, e sempre fico com o Vasco. Mas o Corinthians é fortíssimo candidato.
É quase certo que o Flamengo enfrente o Defensor do Uruguai na próxima fase da Libertadores. Quase porque ainda falta que se decido o grupo 7: caso Cienciano vença e Boca Juniors empate, a equipe nas oitavas passa a ser o Toluca do México. Mas, convenhamos, situação bastante improvável.
Embora haja dúvida quanto ao próximo adversário do Flamengo, o seguinte já está praticamente definido. Graças à derrota do Colo-Colo para o River Plate e ao empate do tricolor paulista com o Audax Italiano, peganos nas quartas-de-final ou Grêmio, ou São Paulo.
Ambos não jogaram nada nesta Libertadores, e avançaram mais na base da sorte mesmo. No entanto, se reforçam daqui para frente (Grêmio com Amoroso, São Paulo com Dagoberto), sem contar o mau histórico em mata-matas que o Flamengo possui com os dois. Embora tenhamos derrotado o Grêmio nos últimos confrontos, pela Copa do Brasil e pela Copa Mercosul.
A Razão me diz que é mais sensato preferir o São Paulo, mas se fosse o Grêmio... não sei os dias das hipotéticas partidas, mas talvez possa vê-las, no Olímpico e no Maracanã, em companhia da gremista mais ferrenha e querida que conheço. Ou melhor: ferrenha é a mais, querida é a única. Do Grêmio e de qualquer outro time.
Claro, ganhando primeiro do Defensor.
Filmes fora da competição:
- My Blueberry Nights, de Wong Kar-Wai (China)
- Sicko, de Michael Moore (EUA)
- 13 Homens e Um Novo Segredo, de Steven Soderbergh (EUA)
- A Mighty Heart, de Michael Winterbottom (Reino Unido)
Filmes da competição:
- Auf Der Anderen Seite, de Fatih Akin (Alemanha-Turquia)
- Une Vielle Maitresse, de Catherine Breillat (França)
- No Country For Old Men, de Joel e Ethan Coen (EUA)
- Zodíaco, de David Fincher (EUA)
- We Own the Night, de James Gray (EUA)
- Les Chansons d'Amour, de Christophe Honoré (França)
- Mogari No Mori, de Naomi Kawase (Japão)
- Breath, de Kim Ki-Duk (Coréia do Sul)
- Promise Me This, de Emir Kusturica (nascido em Sarajevo)
- Secret Sunshine, de Lee Chang-dong (Coréia do Sul)
- 4 Luni, 3 Saptamini si 2 Zile, de Cristian Mungiu (Romênia)
- Tehilim, de Raphael Nadjari (França)
- Stellet Licht, de Carlos Reygadas (México)
- Persepolis, Marjane Satrapi/Vincent Paronnaud (Irã/França)
- Le Scaphandre et le Papillon, de Julian Schnabel (EUA)
- Import Export, de Ulrich Seidl (Áustria)
- Alexandra, de Alexander Sokurov (Rússia)
- Death Proof, de Quentin Tarantino (EUA)
- The Man from London, de Bela Tarr (Hungria)
- Paranoid Park, de Gus Van Sant (EUA)
- Izgnanie, de Andrei Zvyagintsev (Rússia)
A primeira questão: cadê Robert Rodriguez? Levaram só a parte que Tarantino fez para Grindhouse... Os irmãos Coen e Kusturica presentes de novo, queridinhos do festival, embora não façam nada realmente interessante há tempos. Sokurov, também, outra vez, em sua luta pela Palma de Ouro. Gus Van Sant é outro habitué da competição, merecidamente no caso. Julian Schnabel, artista-plástito e dublê de cineasta nas horas vagas, bisa a indicação, assim como Carlos Reygadas e Naomi Kawase. Não lembro se Kim Ki-Duk já disputou Cannes, mas é provável que sim: pior, ou tão ruim quanto, que sua vitória, seria a de Ulrich Seidl, o diretor que levou Nanni Moretti a falar grosso com o júri de Veneza para impedir que ele recebesse o Leão de Ouro (que foi para Um Casamento à Indiana).
Fatih Akin, Andrei Zvyagintsev capitalizam as vitórias recentes em Berlim e em Veneza, respectivamente. Cristian Mungiu é o romeno da vez, desde que Cannes descobriu o cinema do país com A Morte do Sr. Lazarescu, ainda o melhor de todos (primeiro que concorre à Palma, os anteriores passaram no Un Certain Regard). Ainda tento compreender o porquê de Zodíaco na lista. Por quê?
Boa notícia a presença de Catherine Breillat. E que maravilha os retornos de James Gray e de Bela Tarr! Digam o que disserem, já fechei com We Own the Night como minha torcida para a Palma de Ouro. James Gray talvez seja o melhor e mais talentoso diretor americano dos anos 90 para cá. Quem sabe ele não possa filmar mais depois do prêmio conquistado?
PS: A Mighty Heart, fortíssimo candidato a bomba do ano. Winterbottom sobre Daniel Pearl, o jornalista decapitado por terroristas? Vixe...
1,99 - O Supermercado que Vende Palavras, arrecadou quase R$ 900 mil através da Lei Rouanet. Nunca pensei que caixas de papelão brancas fossem tão caras. Em todo caso, sobre o aporte financeiro ao filme, consigo formular três hipóteses:
a) O cinema brasileiro está muito bem de dinheiro, ao contrário do que se vende ao grande público;
b) A lábia do Marcelo Masagão é verdadeiramente impressionante;
c) Todos querem abater seu imposto de renda, não importa como.
Hoje revi o início de O Maior Espetáculo da Terra. Reprisa domingo, quando pretendo assisti-lo inteiro. Filmaço.
Só neste principiozinho, notei já um conceito que me passara despercebido: Charlton Heston, o gerente do circo, é o profissional hiper-competente que sacrifica sua vida pessoal pela missão que tem a cumprir. Como Moisés, aliás, que renega Nefertiti para liderar o povo de Israel para a Terra Prometida, embora ele mesmo jamais nela chegue. Ou como Sansão, que se submete a Deus, perde o amor de Dalila e morre, ao destruir os falsos ídolos.
Temática semelhante a de Michael Mann: o homem que realiza seu dever, mas que perde quem ama pelo caminho e, conseqüentemente, perde a si mesmo. No caso de De Mille, refletindo acerda de Os Dez Mandamentos, As Cruzadas, Sansão e Dalila, O Rei dos Reis, como é possível crer em Deus e terminar sem alma ao fim da jornada?
Voltando a O Maior Espetáculo da Terra, uma cena maravilhoramente maldosa: Sebastian, trapezista e atração principal do circo, reencontra antiga amante em sua chegada. Ela é especialista em girar no ar presa apenas com os dentes. O diálogo, aproximado:
- Lembra de mim, Sebastian?
- Natalie!
- Não, Philiys!
- Claro! A adorável Philiys, que se agarrava pela boca!
- Ainda faço esse número...
Na cartilha de José Wilker ou de Sérgio Britto - que concordam sobre Babel ter sido o melhor filme de 2006 -, o encontro acima é apenas uma aula de clichês cinematográficos: o artista famoso que não reconhece a moça simplória com que teve um caso, enquanto falam banalidades sobre o circo.
Mas, se vocês colocarem as mentes sujas para trabalhar e procurarem nas entrelinhas, verão o que talvez seja o mais explícito duplo sentido para a felação (ou sexo oral) que já apareceu no cinema clássico de Hollywood. Ah, Philiys que se agarrava pela boca...
Saiu no Globo.com: a Polícia Federal achou milhares de dólares escondidos em um ralo durante a Operação Furacão.
O verdadeiro cheiro do ralo!
PS 1: Já sabemos porque a Beija-Flor sempre genha o carnaval do RJ ultimamente.
PS 2: Imaginei duas versões pornôs para o filme de Heitor Dahlia, com trocadilhos para o título.
Roma, 14 de maio de 1904.
Meu caro sr. Kappus,
Decorreu muito tempo desde que recebi a sua última carta. Não me guarde rancor por isso: trabalho, incômodos e indisposições impediram-me sucessivamente de dar-lhe uma resposta. Queria que esta lhe viesse de dias tranqüilos e bons. Agora me sinto outra vez um pouco melhor (o começo da primavera faz sentir bastante, também aqui, suas transições malignas e caprichosas,) e venho cumprimentá-lo, caro sr. Kappus, e (o que faço com tanto gosto) dizer-lhe, o melhor que posso, algumas coisas a respeito de sua carta.
Como vê, copiei o seu soneto por achá-lo belo e simples e porque nasceu numa forma em que se move com tão discreta correção. Dos versos seus que tenho lido, são estes os melhores. Venho agora oferecer-lhe esta cópia, porque sei como é importante e cheio de novas experiências rever um trabalho próprio copiado pela mão de outrem. Leia os versos como se fossem de outra pessoa e no fundo da alma há de sentir como são seus.
Foi uma alegria para mim reler várias vezes o soneto e a carta, agradeço-lhe ambos.
Não se deve deixar enganar em sua solidão, por existir algo em si que deseja sair dela. Justamente tal desejo, se dele se servir tranqüila e sossegadamente como de um instrumento, há de ajudá-lo a estender a sua solidão sobre um vasto território. Os homens, com o auxílio das convenções, resolveram tudo facilmente e pelo lado mais fácil da facilidade; mas é claro que nós devemos agarrar-nos ao difícil. Tudo o que é vivo se agarra a ele, tudo na natureza cresce e se defende segundo a sua maneira de ser; e fez-se coisa própria nascida de si mesma e procura sê-lo a qualquer preço e contra qualquer resistência. Sabemos pouca coisa, mas que temos de nos agarrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom estar só, porque a solidão é difícil. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita.
Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e último prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo não sabem amar: têm que aprendê-lo.

Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário, medroso e palpitante, devem aprender a amar. Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura. Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe. Do amor que lhes é dado, os jovens deveriam servir-se unicamente como de um convite para trabalhar em si mesmos ("escutar e martelar dia e noite"). A fusão com outro, a entrega de si, toda a espécie de comunhão não são para eles (que deverão durante muito tempo ainda juntar muito, entesourar); são algo de acabado para o qual, talvez, mal chegue atualmente a vida humana.
Aí está o erro tão grave e freqüente dos jovens: eles - cuja natureza comporta o serem impacientes - atiram-se uns aos outros quando o amor desce sobre eles e derramam-se tais como são com seu desgoverno, sua desordem, sua confusão. Que acontecerá pois? Que poderá fazer a vida desse montão de material estragado a que eles chamam sua comunhão e facilmente chamariam sua felicidade? Que futuro os espera? Cada um se perde por causa do outro e perde ao outro e a muitos outros que ainda queriam vir. Perde os longes e as possibilidades, troca o aproximar-se e o fugir de coisas silenciosas e cheias de sugestões por uma estéril perplexidade de onde nada de bom pode vir, a não ser um pouco de enjôo, desilusão e empobrecimento. Depois procuram salvar-se, agarrando-se a uma das muitas convenções que se oferecem como abrigos para todos nesse perigoso caminho. Nenhum terreno da experiência humana é tão cheio de convenções como este. Há nele uma profusão de cintos salvas-vidas, canos e bexigas natatórias, toda espécie de refúgios preparados pela opinião que, inclinada a considerar a vida amorosa um prazer, teve de torná-la fácil, barata, sem perigos e segura como os prazeres do público.
No entanto, muitos jovens que amam erradamente, isto é, entregando-se simplesmente sem manterem a sua solidão - e a média fica sempre nisso -, sentem o peso opressivo do erro cometido e gostariam de, à sua maneira, tornar vivedouro e fértil o estado de coisas a que se vêem reduzidos. A sua natureza lhes diz que as questões do amor não podem, menos ainda do que qualquer outra importante, ser resolvidas em comum, conforme um acordo qualquer; que são perguntas feitas diretamente de um ser humano para outro, que em cada caso exigem outra resposta, específica, estritamente pessoal. Mas como podem esles, que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem se distinguem, quer dizer, que nada mais possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada?
Eles agem num desamparo comum e, ao quererem evitar com a maior boa vontade do mundo a convenção que lhes ocorre (como o casamento), vão dar em outra solução menos clamorosa, mas de um convencionalismo não menos mortal. Eles não têm, de fato, senão convenções ao redor de si. Tudo o que parte de uma comunhão mal coagulada é convencional: todas as relações resultantes de tal confusão encerram a sua convenção por menos usual (ou, no sentido, por menos moral) que seja. A própria separação seria aí um passo convencional, uma decisão fortuita e impessoal, sem força nem fruto.
Quem examina a questão com seriedade acha que, como para a morte, que é difícil, também para o difícil amor não foi encontrada até hoje uma luz, uma solução, um aceno ou um caminho. Não se poderá encontrar, para ambas estas tarefas que carregamos veladas em nós e transmitimos sem as esclarecer, nenhuma regra comum, baseada em qualquer acordo. À medida, porém, que começarmos a tentar, solitários, a vida, essas grandes coisas se hão de aproximar da nossa solidão. As exigências feitas à nossa evolução pela tarefa difícil do amor são sobre-humanas e, quando estreantes, não podemos estar à sua altura. Mas se perseverarmos, apesar de tudo, e aceitarmos esse amor como uma carga e um tirocínio em vez de nos perdermos na fácil e leviana brincadeira que serve aos homens para se subtraírem ao problema mais grave de sua existência - então, talvez, um leve progresso e alguma facilidade venham a ser experimentados por aqueles que chegarem muito tempo depois de nós, e isso já será muito.
Até agora conseguimos apenas examinar sem preconceitos, objetivamente, as relações de um ser para com outro, e nossas tentativas de viver tais relações ainda não têm um modelo diante de si. No entanto, o caminhar do tempo traz mais de um auxílio para a nossa indecisa aprendizagem.
A moça e a mulher, em sua nova e peculiar evolução, apenas transitoriamente imitarão os hábitos e Os vícios masculinos, só transitoriamente repetirão as profissões masculinas. Depois de passada a incerteza dessa transição é que se poderá perceber que as muiheres não adotaram toda aquela multidão de disfarces (freqüentemente ridículos) senão para limpar sua profunda essência das influências deformadoras do outro sexo. A mulher em quem a vida habita mais direta, fértil e cheia de confiança dove, na realidade, ter-se tornado mais amadurecida, mais humana do que os homens, criaturas leves a quem o peso de um fruto carnal não fez descer sob a superfície da vida e que, vaidosos e apressados, subestimam o quo pensam amar. Essa humanidade da mulher, levada a termo entre dores e humilhações, há de vir à luz, uma vez despidas, nas transformações de sua situação exterior, as convenções de exclusiva feminilidade. Os homens, quo não a sentem vir ainda, serão por ela surpreendidos e dorrotados. Um dia (desde já predito, sobretudo nos países nórdicos, por sinais fidedignos) ali estará a moça, ali estará a mulhor cujo nome não mais significará apenas uma oposição ao macho nem suscitará a idéia de complemento e de limite, mas sim a de vida, de existência: a mulher-ser-humano.

Esse progresso há de transformar radicalmente (muito contra a vontade dos homens a quem tomará a dianteira) a vida amorosa, hoje tão cheia do erros numa relação de ser humano para ser humano, não de macho para fêmea. Esse amor mais hurnano (que se produzirá de maneira infinitamente atenciosa e discreta, num atar e desatar claro e correto) assemelhar-se-á aquele que nós preparamos lutando fatigosamonte, um amor que consiste na mútua proteção, limitação e saudação de duas solidões.
Ainda mais: não pense que o grande amor que lhe fora imposto na sua adolescência se tenha perdido. Não terá sido então que amadureceram em si grandes e bons desejos e propósitos dos quais o senhor vive ainda hoje? Creio que aquele amor persiste forte e poderoso em sua memória justamente por ter sido sua primeira solidão profunda e primeiro trabalho interior com que moldou a sua vida.
Todos os meus bons votos para si, caro sr. Kappus.
Seu
Rainer Maria Rilke
Imagens: Nesse Mundo e No Outro (A Matter of Life and Death, 1946), de Michael Powell e Emeric Pressburger.
Texto: Cartas a Um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke.
Domingo, às 20h, no Discovery Channel, estréia O Homem-Urso, de Werner Herzog.
Caso interessante de filme que cresce a cada nova revisão. Quando o vi pela primeira vez, achei fraco. Melhorou na segunda olhada (já em película, ao contrário do DVD vagabundo que o É Tudo Verdade mostrou), e sempre que nele penso me lembro mais de suas qualidades que de seus defeitos. Programa imperdível.
Outro programão: todas as sextas-feiras, por volta das 20h, Cecil B. De Mille no Telecine Cult.
Existe ainda preconceito em torno de Cecil B. De Mille, uma certa vergonha em se admitir que ele era grande. Eu o considero genial. Quantos conseguiram falar de sexo em épicos bíblicos, afinal de contas? Na Hollywood clássica, mais sacana que ele, talvez - talvez! - apenas Ernst Lubitsch.
E, curioso, as comédias de ambos nas décadas de 10 e 20, de Lubitsch na Alemanha e de De Mille nos EUA, são parecidas.
Espero que passem Cruzada, sobre a luta de Ricardo Coração de Leão contra Saladino pela conquista de Jerusalém. Verdadeira jóia da sexualidade reprimida, do homoerotismo e do duplo sentido.
A melhor cena: Ricardo não quer se casar, deseja partir para a batalha. Larga a mulher sozinha na tenda, mas lhe envia sua espada para que o matrimômio possa acontecer.
Durante a Idade Média até a Revolução Francesa - lembrar o plano final de A Noite dos Varennes, de Ettore Scola -, os objetos monárquicos, mais do que apenas símbolos de poder, personificavam de fato o mandatário. Assim, a espada de Ricardo era o próprio Ricardo.
Há algo mais fálico do que a esposa se casando com a espada do rei? Ou de que a espada seja o rei em si?
A obsessão de Ricardo, claro, não é com a esposa, mas com Saladino e Jerusalém. Conotações fortíssimas de homoerotismo bem antes dos 300 de Zack Snyder - o filme é de 1935. Para completar, apesar do cerco e do acordo garantindo a segurança dos cristãos que desejam visitá-la, o monarca britânico jamais entra na cidade sagrada:completa frustração sexual, relacionamento mal resolvido com seu amante e adversário, com quem guerreia para descarregar a energia retesada.
Como podem dizer que De Mille é ruim?
Ah sim, lembrem-me de falar depois sobre o cajado de Moisés, e de como ele se sentia mais atraído por Ramsés do que por Nefertiti, em Os Dez Mandamentos.
Carlos Alberto de Mattos descreveu Abel Ferrara, em sua crítica de hoje no Globo, como diretor "mão pesada".
Admito que assisti a poucos filmes de Ferrara, somente dois: New Rose Hotel e Os Chefões. Mas não me pareceu, mesmo superficialmente, que ele possua membros superiores acima do peso natural.
A crítica, aliás, reduz Maria a mais uma variante caça-níqueis do fenômeno de O Código Da Vinci. Como estreou já no Espaço Unibanco 3 (agora Espaço de Cinema 3, estou defasado ainda), o filme terá vida bem curta no circuito após a desastrada incursão de Carlos Alberto de Mattos onde ele não deveria.
Pena, já que há muito Abel Ferrara não passava nos cinemas do RJ. Desde quando? Vício Frenético? Invasores de Corpos? Quase dez anos, de qualquer forma.
Amanhã, 18h, a Cinemateca do MAM exibe Syberberg Filma Brecht, de Hans-Jürgen Syberberg.
O Globo trouxe ontem, na capa do Segundo Caderno, reportagem sobre a obra, em que diversos convidados analisavam... Brecht.
E o filme em si, e Syberberg?
Para os que se interessam pela parte cinematográfica esquecida, estaremos lá.

Era uma vez um ventilador de teto, pertencente a uma anciã, que vivia em uma sala de estar de um velho edifício. Era um dos melhores modelos: Electro-Hollow 55b. Tinha três lâmpadas, quatro pás brilhantes e três velocidades: suave, moderada e rápida. No entanto... estava muito solitário.
Um dia, a anciã comprou uma planta para dar vida à sala de estar. O ventilador de teto se apaixonou e logo se mostrou gentil. Girava as pás devagar. Girava as pás moderadamente. Girava as pás depressa. Dirigia suas luzes de modo chamativo. Durante os primeiros dias, a planta o ignorava, mas ele era tão fascinante e tão sincero que ela descobriu que o ventilador a atraía. E deixou nascer uma bela flor para que soubesse.
E assim passaram os anos. O amor os aproximou, embora jamais tenham se tocado. Tentaram todos os truques para ficarem mais próximos, mas isso nunca acontecia. Ela passava as noites criando belas formas florais para ele. O ventilador, em troca, movia suas pás cada vez mais lentamente, até acariciar suas pétalas. Ela trouxe cor à sua vida, enquanto ele introduziu movimento à dela.
Pouco a pouco, a anciã ficou esquecida. Passava dias, inclusive semanas, sem que entrasse na sala de estar. O ventilador, que fora brilhante e altivo, agora estava recoberto por uma camada de poeira. E o pior! A planta estava secando. Não podia florescer e entristeceu. O ventilador era o único que a compreendia.
Finalmente, em uma chuvosa noite de primavera, o ventilador se deu conta de que a planta morria. Pensou muito no que ela lhe significava, e de como ela lhe havia tirado de sua solidão. Ele respirou profundamente e começou a girar. Foi difícil, porque não se movia há muito tempo, e tinha os motores cheios de poeira. Assim, girou suavemente... Moderadamente... E rapidamente... E então... Ainda mais rápido! Mais depressa que sua velocidade mais rápida! Mais rápido do que havia sido projetado! O ventilador passou a fazer ruído, a soltar faíscas, a disparar sua velocidade, empurrando suas pás com todas as forças. O teto principiou a ceder. O ventilador girava mais... E girava cada vez mais... Como se quisesse romper o teto e voar até o céu...
A última imagem que viu, antes de golpear o solo, foi a da chuva entrando na sala de estar.
Em pouco tempo, a anciã foi embora, e outros compraram a casa. Eles a ajeitaram, e puseram a planta no jardim da frente, para que florescesse. Ela, contudo, nunca se esqueceu do ventilador: de todos os recantos da cidade, chegam pessoas para ver a estranha flor, com quatro longas pétalas que produzem brisa... e que giram... e giram... e giram...
Imagem: The Fan and the Flower, 2005, de Bill Plympton.
Texto: narração em off, traduzida para o português, do mesmo filme.
Soprado para ti.
Ótima notícia: se você gostou de 300, mas se sentia de alguma forma culpado e não tinha argumentos para defender seu ponto de vista, pode se alegrar!
Tudo porque Arnaldo Jabor detestou o filme. As razões (ou falta delas) estão em sua coluna de hoje no Globo. O ex-cineasta e dublê de jornalista continua na feroz competição com Agamenom Mendes Pedreira para ver quem assina os textos mais engraçados da imprensa brasileira.
Em outras palavras: 300 é bom, durmamos tranqüilos.
PS: por falar em Agamenom, brilhante seu comentário sobre Wagner Moura em Paraíso Tropical, de que ele estava sentindo falta de Lázaro Ramos para contracenar na novela...
"Não sou como a abelha saqueadora que vai sugar o mel de uma flor, e depois de outra flor. Sou como o negro escaravelho que se enclausura no seio de uma única rosa e vive nela até que ela feche as pétalas sobre ele; e abafado neste aperto supremo, morre entre os braços da flor que elegeu."
Roger Martin Du Gard, em Os Thibault.
PS: Mas se a flor não o quiser, o que acontece com o escaravelho?
Comecei, ontem, a assistir aos filmes de Carl Dreyer que baixei pelo e-mule.
Decidi vê-los em ordem, assim o primeiro foi The Parson's Widow, de 1920. Hoje, teria visto Mikael, se não tivesse descoberto que minha versão está com subtítulos em alemão. Ou acho legendas mais amigáveis, ou alugo o DVD, certamente desperdício de dinheiro.
Como pulei Mikael, o próximo da lista era The Master of the House, de 1925. Estava com legendas em espanhol, mas como foi ripado de uma cópia hiper-vagabunda de fita caseira, preferi deixar para depois também. Já eram duas da madrugada, afinal. Desse modo, por acaso, vi Vampyr, a maior diversão.
Agora, me preparo para os três que faltam: Dias de Ira, Ordet e Gertrud.
Está explicado por que parti do início: para chegar ao Olimpo cinematográfico, é bom começar de baixo.
Se eu fosse professor, primeiro filme que mostraria para a turma seria Vampyr, de Carl Dreyer.
Não é o melhor, mas está ente os mais inventivos que já vi.
Mistura Kafka, Buñuel, Bergman, Cocteau, Hans Richter, Clair, Monty Python e alguns outros.
Plano subjetivo de cadáver dentro do caixão foi novo para mim. Vilão morrendo (ou não, era morto-vivo mesmo) soterrado com farinha também!
Cotação: ![]()
A crítica também pode ser acessada em:
http://cf.uol.com.br/cinemascopio/criticasf.cfm?CodCritica=1406.

Em Caché, prêmio de melhor diretor e da crítica internacional no Festival de Cannes de 2005, Michael Haneke trata da culpa coletiva que recai sobre a agora globalizada Europa branca, burguesa e cristã quanto ao preconceito e ao ódio que ela dispensa aos imigrantes, sobretudo islâmicos, a partir do relacionamento pessoal entre o francês Georges Laurent (Daniel Auteuil) e o descendente de argelinos Majid (Maurice Bénichou). Se Georges acredita que Majid lhe envia os vídeos que aterrorizam e desestabilizam sua família, as suspeitas se devem menos a provas ou a indícios concretos do que a lembranças e medos comuns ao passado de ambos, há muito escondidos no inconsciente do protagonista. Para alimentar o conflito étnico, político-social e econômico entre os segmentos representados, bem como a atmosfera de desconfiança e de paranóia que toma Georges, Anne (Juliette Binoche) e Pierrot (Lester Makedonsky), o cineasta se utiliza, primeiro, das seqüências que exibem o conteúdo das fitas, que trazem o espectador para dentro da narrativa ao identificá-lo com o ponto de vista do casal que as assiste e, segundo, dos longos planos-seqüência que estruturam Caché, os quais permitem a descrição do estilo de vida da classe média urbana européia, ameaçado com a presença dos imigrantes.
Georges apresenta debate literário na televisão pública. Embora a seqüência se desenvolva de maneira idêntica às inserções anteriores do programa ao longo do filme (as lentes das câmeras de TV que se confundem às objetivas cinematográficas, o público real não-diegético que assume o olhar da platéia fictícia diegética), o voice over do protagonista sobre a imagem o revela ainda na sala de montagem, editando o material que irá ao ar. Se na profissão Georges tem o poder de eliminar o que não lhe interessa – assim como Anne que, editora de livros, seleciona aqueles que lhe convêm e que serão publicados –, as fitas que vigiam o cotidiano da família, ao contrário, escapam de seu controle, pois lhe cabe apenas avançá-las ou retrocedê-las, sem, no entanto, esconder ou suprimir as informações que carregam. O efeito perturbador dos vídeos está justamente em conscientizar o casal de que, da mesma forma que as imagens não podem ser editadas, a realidade social a qual pertencem – o novo contexto econômico-cultural gerado pelos imigrantes pobres, vindos especialmente da África muçulmana, e as tensões políticas que as diferenças levam à Europa ocidental desenvolvida – também é impossível de ser desprezada, esquecida ou deturpada. A aparente calma, ordem e cordialidade dos subúrbios de classe média franceses (e europeus, em conseqüência) não passam de fachada para o barril de pólvora prestes a explodir, em que imperam o preconceito e o ódio racial, a injustiça contra as minorias e a discriminação e a marginalização dos imigrantes.
Michael Haneke trabalha com a ameaça permanente que as fitas representam para o estilo de vida burguês de Georges e de Anne e para o status quo da sociedade européia, visto que elas expressam a insatisfação da camada de trabalhadores imigrantes que, embora sustente a economia com sua mão-de-obra barata, continua excluída das oportunidades sociais, como enunciadas desde a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, fruto do pensamento iluminista e da Revolução Francesa. Para tanto, Caché descreve com minúcias os hábitos da família Laurent e os ambientes onde ela habita, a fim de sugerir ao espectador o que se encontra a perigo devido às forças simbolizadas por Majid: a bela, espaçosa e bem equipada casa, a rua pacata, florida e tranqüila, as carreiras de sucesso do casal, a escola a natação de Pierrot, o cotidiano harmonioso, os jantares divertidos com os amigos São planos-seqüência e planos de conjunto – como na cena em que Georges, logo no princípio do filme, ajuda Anne a preparar a comida, enquanto esperam a chegada do filho – que aderem os personagens à França multiétnica (o cartaz de Zidane, descendente de argelinos, decora o quarto de Pierrot) – onde a extrema-direita de Jean-Marie Le Pen alcançou o segundo-turno das últimas eleições presidenciais, em que o véu islâmico foi banido dos colégios e na qual jovens desempregados, filhos dos que vieram das antigas colônias, provocaram série de distúrbios nos bairros pobres –, que os mergulha na Europa cada vez mais intolerante com as diferenças (grupos neonazistas, leis que restringem a imigração), que evidenciam a concordância burguesa das injustiças contra as classes excluídas a fim de preservar seu conforto e seus bens materiais.
Classe média dentro e fora da tela: Michael Haneke estabelece a identificação dos espectadores com a família Laurent, uma vez que Caché se dirige principalmente à classe burguesa européia retratada no filme, capaz de se ver circulando pelas mesmas casas, escolas, ruas e travando diálogos semelhantes aos de Anne e de Georges à mesa de jantar, ou de entender a explosão de raiva e de preconceito do protagonista quando o jovem negro da bicicleta quase o atropela, ao sair da delegacia. O diretor faz com que a platéia assuma o ponto de vista de Georges, como se os vídeos fossem exibidos para ela, antes que para casal. De observadores passivos, indiferentes à ação e na segurança e no anonimato que o escuro do cinema lhe proporciona, o público é tragado pela narrativa, questionado sobre o curso dos acontecimentos, posto em xeque com a existência de Majid, que preferia varrer para debaixo do tapete em função do incômodo que ele causa. Caché provoca mal-estar, já que lida com o dilema ético fundamental da classe média: garantir as conquistas econômicas e assegurar o privilégio social que desfruta, mesmo que, como Georges, precise mentir e acusar sem provas os elos mais fracos e desfavorecidos, ou praticar enfim o discurso democrático e humanista a respeito dos direitos e das oportunidades iguais, contra o preconceito e a exclusão, para que as boas intenções saiam do papel e se transformem em realidade?
Quando o filho de Majid (Walid Afkir) diz que se interessa em saber como Georges vive com sua consciência, ele se refere, na verdade, a todos os espectadores que, da mesma forma que o protagonista, dormem na ilusão de que é possível esquecer o passado, de que nada aconteceu, de que o mundo permanece igual e de que a paz e a ordem retornaram à sociedade francesa e européia. Contudo, não apenas o pesadelo que atormenta o sono de Georges, como também o misterioso diálogo entre Pierrot e o herdeiro de Majid na porta da escola, encerrando Caché, indicam que a Europa globalizada precisa enfrentar os desafios e as mudanças irreversíveis que os novos tempos lhe impõem. Sem se esconder.
Paulo Ricardo de Almeida.

Em italiano
VIOLETTA
E' strano! e' strano!
in core Scolpiti ho quegli accenti!
Sari'a per me sventura un serio amore?
Che risolvi, o turbata anima mia?
Null'uomo ancora t'accendeva
O gioia Ch'io non conobbi,
essere amata amando!
E sdegnarla poss'io
Per l'aride follie del viver mio?
Ah, fors'e' lui che l'anima
Solinga ne' tumulti
Godea sovente pingere
De' suoi colori occulti!
Lui che modesto e vigile
All'egre soglie ascese,
E nuova febbre accese,
Destandomi all'amor.
A quell'amor ch'e' palpito
Dell'universo intero,
Misterioso, altero,
Croce e delizia al cor.
A me fanciulla, un candido
E trepido desire
Questi effigio' dolcissimo
Signor dell'avvenire,
Quando ne' cieli il raggio
Di sua belta' vedea,
E tutta me pascea
Di quel divino error.
Senti'a che amore e' palpito
Dell'universo intero,
Misterioso, altero,
Croce e delizia al cor!
Follie! follie
delirio vano e' questo!
Povera donna, sola
Abbandonata in questo
Popoloso deserto
Che appellano Parigi,
Che spero or piu'?
Che far degg'io!
Gioire,
Di volutta' nei vortici perire.
Gioir! Gioir!
Sempre libera degg'io
Folleggiar di gioia in gioia,
Vo' che scorra il viver mio
Pei sentieri del piacer,
Nasca il giorno, o il giorno muoia,
Sempre lieta ne' ritrovi
A diletti sempre nuovi
Dee volare il mio pensier.
ALFREDO
Amor e palpito
dell'universo intero...
VIOLETTA
Follie! follie
Gioir! Gioir!
Sempre libera degg'io...
Em inglês
VIOLETTA
How strange!... How strange!...
His words are engraved on my heart.
Would a serious love be a calamity?
What do you think, my troubled soul?
No man has yet set you a flame...
Oh joy unknown, to love
and to be loved!...
How can I reject it
For this life of pointless enjoyment?
Ah! perhaps it is he whom my soul,
Lonely amidst all the tumult,
Delighted in picturing
In mysterious colours...
He who, discret and watchful,
Came to my house when I was ill
And kindled a new fever
By awakening me to love!...
That love which is the heart-beat
Of the whole universe,
Mysterious, exalted,
Pain and delight of the heart.
When I was a girl, a pure
And diffident longing
Showed me the dear image
Of him, for whom I waited.
When in the sky I beheld
The brilliance of his beauty,
And this divine fallacy
Sustained me.
I felt that love is the heart-beat
Of the whole universe,
Mysterious, exalted,
Pain and delight of the heart.
Madness!... madness!..
these are vain musings.
Poor woman, alone,
Abandoned in this
Crowded desert
Which they call Paris,
What more can I hope for?...
What should I do?
Enjoy myself,
Perish in the whirlpool of desire.
Enjoy myself!
I must always be free
To hurry from pleasure to pleasure,
I want my life to pass
Along the path of delight.
At daybreak or at the end of the day,
Always happy, where ever I am,
My thoughts will ever fly
Towards new delights.
ALFREDO
Love is the heart-beat
of the whole universe...
VIOLETTA
Madness!... madness!..
Pleasure! Pleasure!
I must always be free...
Imagem: As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, 1972, de Rainer Werner Fassbinder.
Texto: Ária È Strano, da ópera La Traviata (Ato I, Cena V), música de Giuseppe Verdi e libreto de Francesco Maria Piave, baseado no romance A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho.
PS: Fassbinder utiliza esta ária em uma das seqüências do filme.
Cotação: ![]()

Gerard Butler, de Fantasma da Ópera a Rei Leônidas.
Na 2a. Guerra Mundial, as nações livres do mundo se uniram para enfrentar a ameaça nazista. Havia um problema, claro: a URSS, que anos antes fizera pacto de não-agressão com Hitler, invadira a Polônia e era governada com mão-de-ferro pelo ditador Josef Stalin. Em manobra publicitária, o regime comunista fo declarado uma "democracia popular". Hoje, devemos em grande parte nossas liberdades individuais, paradoxalmente, à ação do Exército Vermelho.
Situação parecida acontece em 300, de Zack Snyder. A última esperança da liberdade e da democracia que florescem na cultura helênica, contra os invasores persas doimperador Xerxes, são os militaristas, sanguinolentos, carniceiros e sádicos espartanos, liderados pelo nada político rei Leônidas. O filme se concentra na decisiva Batalha das Termópilas, momento crucial da História do Ocidente em que apenas 300 espartanos deteram o avanço de milhares de persas e, assim, garantiram a permanência da soberania européia em relação à Ásia.
A premissa de 300 é a mesma de Madrugada dos Mortos (como, ao que parece, ninguém ainda disse, é algo incompreensível para mim): grupo pequeno de pessoas, confinado em espaço exíguo - o shoping center ou a Garganta do Inferno -, enfrenta ameaça externa muito superior às suas forças. A chiadeira do Irã de que os persas são retratados como bárbaros tem fundamento, afinal, aqui eles substituem os zumbis do filme anterior. No entanto, como em Madrugada dos Mortos, 300 mostra o velho conflito entre civilização e barbárie com um ligeira mudança no foco: aqueles que defendem os valores da sociedade racional são os menos indicados para a tarefa.
Frank Miller, em sua graphic novel, poderia ter pego outro episódio das Guerras Médicas, que envolvesse, por exemplo, Atenas (segundo Leônidas, "filósofos pederastas"), berço da democracia. Preferiu, contudo, a cidade-estado rival, Esparta, que logo no início é apresentada através do agogê, espetáculo de violência e de brutalidade que inicia os garotos na vida adulta e que se encontra completamente afastado dos padrões éticos e morais do mundo contemporâneo.
Leônidas e seus leais 300 juram defender as leis a que estão submetidos e que pautam o estilo de vida espartano. Leis, porém, atrasadas e corruptas: os éforos são homens repugnantes que abusam sexualmente de jovens e belas mulheres que lhes servem como oráculo, os políticos da câmara se vendem para não entrar em guerra contra os persas. Para defender a cidade e o que ela representa, Leônidas se transforma em fora-da-lei, em criminoso (matar os emissários de Xerxes é mais uma de suas blasfêmias): desobedece aos deuses e às decisões do conselho, amotina-se. A insubordinação dos 300 se faz completa quando também recusam Xerxes, imperador-deus segundo Snyder, e, em conseqüência, o estado mais puro e elevado da lei, o divino.
Embora os espartanos sejam homens, eles também são descendentes de Hércules, filho de Zeus. 300, mais que História ou estória, é lenda, mitologia, e se assume como tal na figura do narrador, enviado por Leônidas para que todos, nos tempos porvir, relembrem da Batalha das Termópilas. O combate entre o imperador-deus persa e os heróis filhos dos deuses gregos no ambiente que se torna mítico justifica, em parte, os excessos visuais cometidos por Zack Snyder. Reservo-me o direito de fugir à discussão tola se gosto ou desgosto: prefiro compreendê-los. A outra razão para os exageros e rebuscamentos, a meu ver, encontra-se na graphic novel de Frank Miller, apesar de a adaptação que o cineasta realizou não estar sendo analisada corretamente.
Snyder poderia, como Ang Lee em Hulk, ter partido para o split screen. Porém, 300 opta por sacrificar a fluidez narrativa para se centrar na expressividade gráfica (gráfica, não dramática). O recurso mais utilizado ao longo do filme e que confirma a escolha do diretor: as diferentes velocidades desenvolvidas dentro do mesmo plano-seqüência (300, na ponta do lápis, é bem pouco cortado, na verdade), sobretudo nas cenas de luta e de batalha. Como efeito, chama-se ateção para o momento máximo da expressividade, enquanto os de menos importância passam mais rapidamente. A ligação com os quadrinhos é bastante óbvia, já que cada box isolado concentra e representa o ápice de determinada ação ou acontecimento. Mas vale lembrar, igualmente, que a primazia da expressão sobre a narrativa se encontra no cinema mudo - as paisagens-rosto de Balász, o controle do tempo de Epstein, o êxtase de Eisenstein.
Tarantino, a respeito de A Paixão de Cristo, disse que Mel Gibson recuperava a força expressiva do cinema mudo. Embora sejam cada vez mais rapidamente descartados como produtos de quinta categoria, filmes como 300, O Senhor dos Anéis e similares, que abusam de efeitos digitais, da artificialidade, de exageros tais quais a câmera lenta e os travellings dantescos, batem em mim como a tentativa de retomar o impacto visual e o maravilhamento que as primeiríssimos filmes conseguiam. Obras de fato e de direito para a platéia, quando o cinema sequer era arte.
Há outro tema adjacente ao da civilização em 300, para concluir: como lidar com os sentimentos dentro desta sociedade racional e civilizada. Leônidas não pode expressar seu amor pela esposa, pois será considerado fraco e incapaz - no entanto, é aceitável, como líder, que mate e morra em combate. No plano decisivo de 300, vemos o pai que, após chorar a morte do filho, por jamais ter-lhe dito que o amava, diz ao rei que agora preencheu seu coração apenas com ódio. A violência institucionalizada que deriva da supressão do afeto, em Esparta e no Ocidente.
Para crackear aparelhos de DVDs, alterando as regiões que eles conseguem ler (de região 4 para região 0, por exemplo), vá no site abaixo:
Funciona.
Se alguém tiver, à disposição, emprego ou trabalho avulso remunerado para escrever sobre cinema, aceito na hora.
Minhas melhores credenciais são:
1. Este site, que mantenho há cinco anos, em diferentes versões.
2. 1o. lugar no Concurso Nacional da Crítica Cinematográfica.
3. Participação na Contracampo, de 2003 a 2007.
4. A saída da Contracampo.
Não enrolo, não me filio a idéias de ninguém, não me deslumbro com nomes famosos da crítica, não levo a Cahiers du Cinema a sério, não tenho preconceitos bobos contra qualquer tipo de filme, adoro o Oscar, escrevo para os outros e não para mim mesmo e sigo apenas meus próprios conceitos, trabalhando com o que vi, li e aprendi ao longo de décadas de paixão cinematográfica.
Agrado ou desagrado a persas e espartanos. Mas indiferentes, acredito que não fiquem.
Claiton entrou no time para melhorar a marcação, certo? Então como pode o Flamengo levar sufoco do Unión Maracaibo? Que jogador inútil.
Flamengo esteve mal, fez apenas o suficiente para vencer a fraquíssima equipe veneuelana. Juninho e Renato erraram todos os passes, os laterais não apoiaram, Souza como sempre brigou com a bola, Renato Augusto ficou sumido em campo lá no ataque. Sorte que, em rara oportunidade, conferiu de cabeça.
Pena que Leonardo não pôde atuar, machucado. Espero que ele resolva os problemas do ataque do Flamengo, que desde a saída de Obina anda bem pouco inspirado. Espero também que, na próxima fase da Libertadores, com a chance cada vez mais real de enfrentar ou Boca Juniors, ou River Plate, ou São Paulo, ou Nacional, o time acorde da letargia com que vem jogando e pegue no breu.
River e Nacional, para dizer a verdade, não temo: são fregueses. Mas com o Boca, a coisa engrossa. Sem contar que ainda dá para subir o morro outra vez.
Mas ganhamos, apesar dos erros, e comemoro a liderança absoluta do grupo 5, a invencibilidade e, pelo menos até a partida de amanhã entre Santos e Defensor, a melhor campanha da Libertadores 2007, com 13 pontos.
Melhor que a vitória magra do Flamengo, no entanto, foi a derrota patética do Vasco para o Gama, em pleno Maracanã, em mais uma jornada em branco do baixinho.
Que alegria! Não apenas Romário não marcou seu milésimo gol, como o time da colina foi eliminado da Copa do Brasil com gols de Rodrigo Ninja (frangaço do goleiro Cássio) e de Marcelo Uberaba, aos 48 minutos do segundo tempo!
O Vasco teve seu maracanaço, graças ao bravo Gama. Pena que o Fluminense, que também perdeu (1 a 0 para o América - RN), conseguiu avançar, já que derrotara o rival, fora de casa, por 2 a 1.
Noite em que tudo deu certo para o Flamengo. Saudações rubro-negras.
Acabei de ver o trailer de Ó Paí Ó.
Sei que alguns já assistiram ao filme, mas fiquei com a impressão de ser a continuação de Cinderela Baiana com Lázaro Ramos no papel de Carla Perez.
A mais nefasta propaganda da Bahia desde que a Mangueira levou Os Doces Bárbaros para a Sapucaí, em 1994, no carnaval chinfrim e melancólico em que até o azul da Portela vestiu alas da verde-e-rosa.
Escapei de Jenipapo, infelizmente não pude fazer o mesmo com Benjamin - um dos piores descalabros que o cinema brasileiro cometeu -, mas do novo Monique Gardenberg fico pelo trailer.
E nem os merchandisings nos programas da Globo me farão mudar de idéia!